terça-feira, 17 de março de 2015

ABC do Fausto Wolff (Parte 67)


SEIOS – Com exceção nas amazonas, que, segundo a lenda, amputavam um seio para melhor manejar o arco e a flecha, andam sempre aos pares. Os seios são as glândulas mamárias, órgãos que produzem o leite da mulher. Chamam-se seios, provavelmente porque ficaria muito esquisito alguém dizer: “Deixa eu dar uma chupada nas tuas glândulas mamárias”. Deveriam servir principalmente para a mãe dar de mamar ao recém-nascido.
A propósito, aí vão duas teorias minhas, uma linguística e a outra línguo-sexual.
Creio que os seios da mulher são chamados de mamas porque o primeiro som que um bebê faz ao sentir fome e sede é “mã, mã, mã, mã”. Pela mesma razão, também, a mãe é chamada de mãe. Explico: o bebê troglodita com sede diz “mã, mã” e a mãe troglodita, depois de alguns séculos, virou mamãe. Provavelmente o segundo som articulado do bebé é “pá-pá”, que resultou em papa, papinha, papai.
Aí vai a teoria línguo-sexual: a razão porque a grande maioria das mulheres vai para a cama com outras mulheres e sente satisfação sexual mesmo sem ser homossexual deriva do fato de que tem contato íntimo com os seios da mãe antes mesmo de ter consciência de si mesma.
Mas eu comecei dizendo que a função principal dos seios deveria ser amamentar os recém-nascidos. Entretanto, como se trata de uma zona erógena do corpo da mulher, sua função principal é servir de estímulo (carícias manuais e labiais) para o ato sexual. Lambidos, beijados, acariciados, após alguns segundos eles intumescem, enquanto que, ao mesmo tempo, a mulher libera os bons humores vaginais.
Enfim, os seios servem mais para o prazer dos homens (e eventualmente, de outras mulheres) que para o prazer dos bebês, uma vez que a mulher só começa a produzir leite depois de engravidar.
Os seios na mulher começam a crescer a partir dos doze anos, geralmente, e atingem a plenitude aos quinze.
Há casos raríssimos, registrados por Kinsey, Master e Johnson, Comfort e outros sexólogos, de mulheres cuja intumescência aparece nos primeiros anos e outros onde aparece somente depois dos vinte.
Há seios pequenos, médios, grandes e gigantescos. Os últimos, alguns pesando mais de dez quilos cada, podem ter seu excesso removido através de uma operação chamada mamaplastia.
Acredita-se que as dimensões dos seios dependem da herança cromossômica.
A vista de um par de seios me excita. A única vez em que isto não aconteceu foi na Mauritânia, onde vi uma mulher berbere jogar um seio para trás dos ombros para dar de mamar a um bebê que estava nas suas costas. É mole? O seio era.

SESSENTA E NOVE – Numeral (69) formado por dois algarismo que vem antes do 70 e depois do 68. Para fazer um 69 bastam um lápis, um papel ou uma maquininha de calcular. Os gregos consideravam o número 6 perfeito por que é a soma de todos os seus divisores, exceto dele mesmo. Já o 9 é o maior número que pode ser escrito com três algarismos: 999. Apesar disso, se, a partir de hoje, todos os homens e mulheres da terra começarem a fazer 69, em menos de 150 anos não existirá mais um único ser humano. O 69, por misteriosas razões cabalísticas, é o mais eficaz método anticoncepcional.

SEXO – O quê? Cosa? What? Was? Franz Kafka desejava ardentemente, e afinal conseguiu, em julho de 1908, um emprego no escritório de uma autarquia, o Instituto de Acidentes de Trabalho para o Reino da Boêmia, em Praga, mas não sabia o que era sexo.
Etimologicamente deriva do latim secare, que quer dizer seccionar, ou seja, dividir. Deveria ser unir, mas o dividir, aí, talvez tenha relação com o fato de que quando um casal tem filhos, ele se divide através deles, ou seja, parte dos pais, através dos cromossomos, estão com os filhos. Acreditam? Quem quiser que conte outra.

SODOMA – 1900 antes de Cristo, um bom homem chamado Lot vivia pacificamente na cidade de Sodoma com sua mulher e suas filhas. Vivia esperando pelo Messias e nem sonhava que um dia, 3.800 anos depois, um general do Exército Brasileiro chamado Henrique Lott perderia as eleições presidenciais para um cidadão chamado Jânio Quadros que alguns meses depois sodomizaria toda a nação. Mas isso é outra história.
Sodoma ficava onde hoje está o Mar Morto e era vizinha de outras quatro cidades: Gomorra, Adama, Seboim e Segor.
Por que Lot foi morar em Sodoma ninguém sabe, pois sendo ele um homem pio e calmo, não se harmonizava de modo algum com o modo de viver dos demais habitantes. É que os homens de Sodoma eram todos sodomitas. A posição sexual preferida deles era papai-papai.
Um belo dia, Lot recebeu a visita de alguns anjos, não se sabe se dois ou três, que hospedou em sua casa. Logo depois a casa foi cercada por centenas de bocas de fogo sodomitas. Berravam:
– Lot, sabemos que tens hóspedes! Manda eles aqui para fora que a gente quer, o, top, top!
O bom Lot mandou que os formigões se mandassem, mas eles não obedeceram :
– Queremos carne nova! Queremos ver o sexo dos anjos!
Lot implorou aos comilões:
– Tenho filhas virgens! Se quiserdes as mando para fora, mas não façais mal aos meus hóspedes.
Vêem que, ou o bom Lot era um mau-caráter, ou estava com as filha encalhadas há muito tempo. Os sodomitas, porém, não quiseram saber:
– Queremos os hóspedes.
Foi então que os anjos informaram ao seu anfitrião:
– Bom Lot, é bom você se arrancar com a sua família porque esta cidade está demais. Deus vai mandar uma chuva de enxofre e fogo sobre as cinco cidades pecadoras e não vai sobrar pedra sobre pedra. Esses sodomitas vão ver o que é bom para a tosse de vara.
Aparentemente, em Segor, os segorianos apenas segoriavam, o que não era tão grave. Talvez por isso mesmo, atendendo ao apelo de Lot, ela foi poupada por Deus.
Quando começou a chuva de enxofre e fogo sobre Sodoma, Gomorra, Adama e Seboim, Lot se mandou com a família.
Sua mulher, porém, apesar da proibição divina, parou para olhar para trás e foi transformada numa estátua de sal.
O que faziam os gomorristas, os adamanos e os seboímos não se sabe, pois não sobrou ninguém para contar a história.
Lot se mandou com suas filhas para Segor, onde viveu numa boa até morrer.
Provavelmente as cidades foram destruídas por um terremoto, aproveitado pelos autores do Gênesis para conter as sacanagens dos seus contemporâneos.

SONHOS – Bolos muito fofos de farinha e ovos, fritos em azeite ou em manteiga e passados, posteriormente, no açúcar. São também chamados de sonhos as experiências alucinatórias que ocorrem durante o sono. Todos os tipos de especuladores já tentaram e continuam tentando ganhar dinheiro com os sonhos: videntes, curandeiros, psicanalistas.
Objetivamente, porém, ninguém sabe porra nenhuma sobre as causas e os efeitos dos sonhos, embora eles tenham sido muito positivos para poetas como Blake, romancistas como Kafka, Beckett e Joyce, e pintores menores como Dali e maiores como Picasso.
Descobriu-se que, quando as pessoas sonham, movem mais as pálpebras, o que também acontece com mamíferos, aves e répteis.
É preciso tomar extremo cuidado quando o leitor consultar um psicanalista junguiano (aparentemente, para Jung, “la vida es sueno”, como diria Lope de Vega).
Sugiro que mantenha as mãos nos bolsos para evitar pegar em canetas, lápis ou cigarros, pois a dedução imediata do jovem pitonês (pitonisa) será de que o paciente está a fim de tomar no rabo.
Além dos sonhos secos, existem os sonhos molhados. Estes ocorrem quando o sonhador ou a sonhadora sonham que estão trepando com vegetais, minerais e animais e acabam gozando, caso não sejam acordados antes do tempo.

Um dos fatos que mais me impressionaram em toda a minha vida foi a chegada do homem à lua. Acompanhei pela televisão num hotelzinho perto de Roma. Aquela noite sonhei que estava comendo morangos quando Einstein apareceu vestido de padre e me disse: “Cuidado com esses morangos, rapaz! Por causa deles seu tio perdeu o nariz”. A analogia, como vocês devem ter percebido, é óbvia.

ABC do Fausto Wolff (Parte 66)


SAFO (625-580 a.C.) – Já provei que Onan não era onanista, sugeri que Sade não era sádico e estou quase certo que Safo não era safada e nem lésbica. De uma coisa, porém, não tenho dúvida: foi a maior poeta da antiguidade grega. Colocava -se no centro do poema e transmitia suas angústias, seu medo, mas, principalmente, o seu amor, sua capacidade de amar em frases curtas e românticas, embora contundentes.
Por que, portanto, as mulheres homossexuais são chamadas de lésbicas? É que Safo nasceu na ilha de Lesbos, na Grécia, na costa da Ásia Menor.
Nesta ilha, ao contrário do resto do país, as mulheres da classe alta tinham acesso à educação e à cultura.
Já na adolescência formavam grupos diversos que se entretinham escrevendo e declamando poemas, ao contrário do que acontecia em Atenas e Esparta, onde as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda categoria.
Em verdade os gregos achavam que o amor homossexual entre homens (Sócrates e Aristóteles, certamente, entregavam) era o mais puro dos amores e iam para a cama com as mulheres apenas para procriar.
Deixadas sozinhas, nada mais natural que as mulheres se entregassem à luta aranhal ou botassem as aranhas para brigar, como diz o nefando cartunista Jaguar.
Em seus poemas, Safo falava gentilmente das colegas de seu clube e criticava outras de outros clubes, colocava o amor acima de todos os outros sentimentos e embora louvasse a mulher, em nenhum momento fala especificamente em prática sexual entre mulheres.
Sabe-se, inclusive, que foi casada com Cercolas, um homem riquíssimo da ilha de Andros, e que teve uma filha, Cieis.
Sua poesia, porém, deve ter impressionado seus contemporâneos e centenas de gerações futuras, pois duzentos anos depois da sua morte ainda se pintavam retratos seus que podem ser encontrados no Museu de Atenas.
Deviam admirá-la muito, pois num mundo machista apenas homens ou celebradas cortesãs mereciam essa honra.
Safo teria escrito mais de quinhentos poemas em mais de 12 mil linhas, das quais sobreviveram apenas umas setecentas, pois dois Gregórios tentaram destruir sua memória: primeiro São Gregório, em 380 d.C, e, posteriormente, o papa Gregório VII, em 1073. Ambos mandaram queimar seus poemas, acusando-a de ser ninfomaníaca.
Muitas das setecentas linhas que se salvaram dos escritos de Safo foram descobertas no século passado no Egito: durante mais de 2 mil anos serviram para embalsamar múmias.
Diante de atos tão tolos de uma humanidade que precisa de religiões, bandeiras, clubes, partidos, é difícil encontrar algum sentido para a vida.
Safo, muito provavelmente foi bissexual, prática bastante comum entre as mulheres até os dias de hoje, o que, aliás, apenas aumenta a sua feminilidade.

SACHER-MASOCH, Leopold von (1836-1895) – Vocês devem estar pensando: “Ele disse que Onan não era onanista, que Sade não era sádico e que Safo não era safada. Na certa vai dizer agora que o Leopoldinho não era masoquista”. Ledo ivo engano! Era. Aliás, foi o primeiro masoquista. Antes dele o pessoal que gostava de levar porrada era só chamado de maluco ou santo.
Escritor austríaco, era filho do chefe de polícia da cidade de Lemberg que por si só já explica muita coisa. Para dizer a verdade, a culpada de tudo foi uma tia sua chamada Zenobia, dona de um belo par de coxas macias.
Um dia, quis o destino que o nosso herói, que na época tinha seus nove anos mais ou menos, estivesse brincando dentro de um armário da tia, em meio aos seus casacos de pele.
Tia Zenobia entrou no quarto com o amante, possuída de TG: tesão galopante. Foi logo tirando o casaco, o pulôver, a blusa, o sutiã, a saia, as doze anáguas, as calcinhas (que recém estavam entrando na moda), abrindo as pernas, recebendo o tarugo e dando gritinhos. Tudo em menos de cinco minutos.
No meio da performance os dois descobriram o garoto que espiava e tiveram que interrompê-la(o), a performance e o Leopoldo. Resolveram dar-lhe um corretivo, causa justíssima, pois não há nada mais chato que coitus interruptus. Baixaram-lhe as calças e aplicaram-lhe trinta varadas no popô! Sem nem desconfiarem, Zenobia e seu comedor haviam acabado de inventar o masoquismo oficial.
Aos vinte e cinco anos, Masoch conheceu Anna von Kotowitz, tirou-a do marido, um médico riquíssimo, e a convenceu a viver com ele. Por que o espanto? Ele, tirante o fato de gostar de sofrer, era um cara simpático, agradável, bem-falante, inteligente e boa-pinta.
Mal havia conquistado a Anninha, já estava insistindo para que ela arranjasse um amante. Ela, que também era da pá virada, adorou a ideia. Ao ver que ele gostava de apanhar, passou a lhe administrar surras diárias de chicote. Nessas ocasiões lhe contava em detalhes o que fazia na cama com o amante.
Tudo ia indo muito bem até o dia em que Anna teve o mau gosto de apanhar uma gonorréia, ocasião em que Leopoldo a mandou de volta para o marido.
Seu próximo caso foi com uma falsa baronesa, Fanny Piscator. Com ela chegou a assinar um contrato, mais ou menos, nesses termos: “A senhora F. P. tem o direito de punir o seu escravo (L. V. S. M.) do modo que achar conveniente sempre que ele incorrer na menor falta. Ele deve prestar servil obediência à sua senhora e receber como uma dádiva qualquer tratamento favorável que ela lhe dispensar. Ele reconhece, ainda, que ela não tem obrigação alguma de amá-lo. Ela, por sua vez, promete usar casacos de pele sempre que possível, e principalmente quando estiver de mau-humor”.
Assinado o contrato, o casal viajou por toda a Itália numa viagem financiada por ele, na qual ele fazia o papel de lacaio. Em Veneza, Masoch a convenceu a arranjar um amante: um atorzinho de quinta classe chamado Salvini. Masoch servia à mesa os dois como eficiente criado e vibrava (ou sofria, sei lá!) vendo-os treparem pelos mais diversos buracos de fechadura.
Esta situação lhe deu inspiração para escrever o seu livro mais importante, Venus in Furs, que, traduzido à la galega seria Vênus de Casaco de Peles, com Fanny no papel de Wanda, Masoch no papel do marido-criado Savarin, e Salvino no papel do grego-amante.
Em abril de 1872, Masoch, o masoquista, anotou em seu diário: “Eu não gosto de ser maltratado por uma mulher que me ame muito, mas por uma mulher que me ame só um pouco. Para mim, amar uma mulher significa ter medo dela”.
Alguns anos de humilhações, infidelidades e milhares de chicotadas depois, Fanny cansou o braço e encheu o saco. Pediu o boné e foi substituída por Aurora von Rumellia, que o obrigou a se casar com ela. Tiveram três filhos, aparentemente dele mesmo.
Como Fanny, para prazer-dor de Leopold, Aurora também teve vários amantes, dava-lhe surras de sair faísca do rabo quase todos os dias, cuspia na cara dele, chamava-o de cocô e outros carinhos que tais.
Depois de alguns anos, porém, não aguentou mais aquela lengalenga que se repetia ad nauseam e deu no pé.
Nos últimos anos de sua vida, Masoch começou a confundir ficção com realidade e acabou por se casar com a governanta dos seus filhos. Sintomático, não? Coitadinha, foi obrigada a corneá-lo e a cobri-lo de cacetadas até o dia da sua morte.
Agora, imaginem os filhos do Masoch, voltando para casa com um boletim cheio de notas péssimas: “Melhor não mostrar para o papai senão, de castigo, ele vai obrigar a gente a bater nele”.

SCHROEDER-DEVRIANT, Wilhelmina (1804-1860) – O pessoal na faixa dos quarenta-cinquenta anos deve se lembrar de um livro publicado clandestinamente em português, por volta de 1950, com o título de Memórias de Uma Cantora. Era cheio de frases como: “Não resisti às suas carícias voluptuosas e pouco a pouco abri as coxas e revelei meu monte de vênus para ele que, sem perda de tempo, penetrou-me com seu dardo do amor”. Hoje em dia isso tudo soa fané pacas, mas bati muito bife em homenagem a esse tipo de frases.
Pois a heroína do livro existiu mesmo. Tratava-se da nossa Wilhelmina (ou Guilhermina, como preferem os punheteiros do lácio inculto), famosa cantora alemã, chapinha de Beethoven e “musa trágica” de Wagner, de acordo com suas próprias palavras.
Talvez não chegasse a botar a Maria Callas no chinelo, embora houvesse interpretado, entre outras personagens, a Leonora, de Fidélio, e a Vênus de Tannhäuser. Teve, porém, uma vida bem mais sacana que a falecida amante do falecido Onassis.
Segundo Aus den Memorien emes Singerin, narrado na primeira pessoa (publicado após a sua morte e considerada a obra mais erótica do século XIX em língua alemã), já na adolescência descobriu suas duas paixões: masturbação e música, nesta ordem.
Na prática da primeira, era assessorada por uma amiguinha mais velha, chamada Gretchen (Margarida, como preferem os punheteiros, etc.).
Aos quinze anos seduziu seu professor de piano e o convenceu – o que não deve ter sido nada difícil – a ir para a cama com ela e Gretchen. “Foi quando me tornei”, diz ela em suas memórias, “a maior artista do felacio e do cunnilingus que a Alemanha já produziu”.
Ela concorda com o autor desses verbetes que não existe nada mais belo no mundo que duas belas mulheres fazendo amor. Adorava uma garotinha,mas não dispensava o que ela chamava às vezes de “lança de fogo”.
Aos vinte e poucos anos entrou em contato com as obras de Sade e se tornou uma sádica visual. Nao gostava de bater, mas gostava de ver alguém bater numa terceira pessoa.
Juntamente com Gretchen, subornou o guarda de uma prisão para poder admirar uma jovem ladra ser açoitada. Ao ver a moça gozar enquanto apanhava, Wilhelmina, à custa de grana, conseguiu a sua liberdade e tornou-a sua amante. Tinha adoração por ela. Tanto que uma noite deu-lhe uma garrafa de champanhe e ordenou: “Bebe a garrafa toda, meu amor, que depois eu bebo de você”.
Quando Wilhelmina, seu namorado e sua namorada jantavam juntos, estavam sempre pelados. Embaixo da mesa uma empregada fazia coisas com as mãos e a língua, nos países baixos deles, que prefiro deixar à imaginação de vocês.
Morreu tranquilamente aos cinquenta e seis anos em Londres, onde, entre uma orgia e outra, se dedicava a obras de assistência social.

Vocês não imaginam o número de senhoras que saíam do apartamento no meu tempo de solteiro dizendo coisas como: “Desculpa, meu bem, mas não vai dar para você dar a segunda hoje porque meu marido está esperando para irmos ao chá no Golden Room do Copacabana Palace, em benefício dos mongolóides de Teresina”.

ABC do Fausto Wolff (Parte 65)


RUBIROSA, Porfírio (1909-1965) – Este foi o Nataniel Jebão que deu certo. Não que fosse um mau-caráter. Simplesmente, nunca soube o que significava a palavra. Tinha as pernas tortas, era baixo, moreno e possuía um nariz levemente achatado. Nasceu no cu do mundo, na República Dominicana, filho de um funcionário do Ministério do Exterior. Apesar disso, foi, provavelmente, o maior gigolô deste século, comeu as mulheres que quis, nunca trabalhou e morreu milionário. Contra ele, tinha tudo, e, a seu favor, duas coisas: sabia explorar a burrice das mulheres e era dono de um pau que obedecia ao comando e, duro, chegava a 28 centímetros.
Como não fazia porra nenhuma na sua casa, seu pai decidiu levá-lo a Paris, onde adquiriu algumas firulas de sofisticação entre os vagabundos ricos do society local.
Todos os convites para festas, coquetéis e jantares que pintavam na embaixada passavam por sua mão.
Escolhia as melhores bocas-livres, punha o seu único smoking e ia para a festa.
Voltou para a República Dominicana falando inglês com sotaque francês e jogando pólo.
Numa festinha onde conseguiu se introduzir, namorou a filha do ditador, Flor de Oro Trujillo.
Claro, em quem mais ele pousaria as asas numa terra de mortos de fome como a República Dominicana, senão nela? Ele sabia que qualquer mulher – a mais feia do mundo – acreditará em qualquer galanteio.
Dois dias depois havia comido a maluquete de dezessete anos que informou ao pai sua intenção de casar com Porfírio.
O velho Rafael, mariscal benefactor, em princípio pensou em mandar castrar o sacana, mas, graças às súplicas da filha, acabou concordando com o casamento. Decretou feriado nacional e para não se aporrinhar com o genro, o despachou para a embaixada em Berlim.
Na Alemanha comeu quem quis e se tornou amigo de cronistas sociais e todo o pessoal do jet set. Cansada de ser corneada, Flor de Oro começou a botar cornos em Porfírio que, porém, elegantemente, não reclamou. Era um sujeito fino.
Os dois se separaram, mas o velho ditador, em vez de castrar o ex-genro, o manteve na carreira: “É um filho da puta, um mentiroso e o sujeito mais preguiçoso do mundo, mas graças a ele a República Dominicana aparece na imprensa internacional”.
É claro que Porfírio, durante os cinco anos que viveu com Flor de Oro, se encarregou de passar muito do dinheiro dela para os seus bolsos. Sua explicação: “Afinal, era grana que o ve-lho havia roubado dos camponeses do meu país”.
A esta altura, já havia feito a fama e deitado na cama, ou feito a cama e deitado na fama. A verdade é que o mulherio vinha aos lotes da América e das principais cidades europeias para provar o tremoço do moço. E não saíam arrependidas, pois o biltre estava sempre de prontidão.
Um dia, a famosa atriz francesa Danielle Darrieux, que era linda mas não devia ser exatamente um cérebro, pintou na sua cama e se apaixonou por ele.
Quando os alemães entraram em Paris, uma das primeiras providências que tomaram foi enjaular o gigolô latino-americano. Pois ele não havia comido algumas das melhores mulheres da Alemanha?
Como amor de pica é amor que fica, Danielle deu para todo o comando militar alemão em Paris até conseguir que soltassem o nosso Porfírio, que acabou casando com ela.
Quando, porém, em 45, a atriz levou sua mãe para morar com eles, ele pediu divórcio: “Morar com velha não dá pé”. Deve ter pensado: “Perdi muito tempo com a Danielle; é hora de tratar de negócios”.
Conseguiu se aproximar de nada menos que a herdeira do rei do tabaco, Dóris Duke, a mulher mais rica do mundo. Não era bonita e tinha tanta inteligência quanto uma lata de sardinha vazia, mas o marmotão sempre duro do Rubi não se impressionava com detalhes.
O casamento durou treze meses, ao fim dos quais ele saiu com um milhão de dólares. Achou pouco e partiu para cima de outra herdeira, Barbara Hutton, que já havia se divorciadode quatro maridos, entre eles Cary Grant, que, boboca, saiu sem levar um tusta.
Este casamento de Rubi durou menos de meio ano e custou à milionária, no barato, um milhão de dólares por mês.
Entre uma comida e outra se meteu com uma grande galinha de Hollywood, a atriz Zsa-Zsa Gabor, cuja especialidade era casar com homens burros e ricos.
Cansada de homens burros e ricos (mas já bastante rica), ela decidiu casar com George Sanders, um ator requintado, inteligente e sofisticado. Era demais para a Zsa-Zsa, que quase não entendia nada do que Sanders dizia.
Partiu para Porfírio, cuja linguagem entendia perfeitamente. Afinal, eram colegas.
Sanders encheu o saco e uma noite parou em frente à casa onde Zsa-Zsa e Porfírio fornicavam e atirou um tijolo embrulhado em papel-presente que atravessou a vidraça. Depois subiu ao quarto acompanhado de dois detetives e disse para a mulher: “Feliz Natal, meu bem!”
Sanders se suicidaria muitos anos depois, deixando um bilhete: “Esta vida é muito chata”.
Rubirosa casou pela última vez em 57 com uma atrizinha francesa chamada Odille Rodin.
Em 65, deixou Odille no apartamento e saiu para dar uma volta de carro: álcool mais automóvel a 120 por hora igual árvore. Foi como o Rubi morreu.
Odille, com todos os seus milhões, desistiu da carreira cinematográfica e se transferiu para o Rio de Janeiro onde desempenha intensa atividade sexual até hoje.

RUFIÃO – Alguns anos atrás fui visitar o haras do meu velho amigo Raul Bailly, em Teresópolis. Mostrou-me vários cavalos e éguas puros-sangues, ganhadores de muitas corridas na Gávea e em Cidade Jardim. Havia um cavalo isolado num canto e perguntei que bicho era aquele. E o Raul: “Este é o rufião”. “E corre bem?”, perguntei. “Rufião não corre”, respondeu o Raul. “Ele é o cavalo que excita as éguas. Quando elas estão no ponto, expulsamos o rufião e o garanhão de raça monta nelas. Facilita o processo de reprodução e não cansa o garanhão”.
Destino triste, não é mesmo? Mas poderia ser pior. Sério, vida pior que a do rufião (que, depois de fazer perfumarias com dezenas de éguas que vão ser comidas pelo garanhão, sai feito louco de pau duro) é a do pobre do cavalariço que bate uma punheta nele, no fim de um dia de trabalho.

SADE, Donatien Alphonse François, Marquês de (1740-1814) – Muito pouco se sabe sobre a vida deste conde que insistia em ser chamado de marquês. Promovia orgias nas quais sodomizava mulheres (aparentemente não entregava o anel) que gostava de chicotear. Vai daí que algum idiota qualquer decidiu criar a palavra sadismo para classificar aqueles que obtêm prazer sexual através da dor dos parceiros.
Pessoalmente, porém, creio que o sádico é invenção do masoquista. Por exemplo: você leva uma jovem para a sua cama. Na hora de fuder, ela, que foi para a cama voluntariamente, fecha as pernas, dificulta a penetração, faz cu doce. Você lhe dá um leve tapinha na bunda ou no rosto e verifica que ela começa a suspirar e a gemer mais alto. Você bate um pouco mais forte, ela começa a gemer mais alto ainda e a pedir mais. Resultado: a masoquista inventou o sádico que, em verdade, se contentaria em trepar sem porradas.
Há masoquistas exagerados, entretanto, que levam sua culpa subconsciente a alturas tamanhas que só se contentam com a morte.
O verdadeiro sádico é o estuprador, o torturador que tem prazer em fazer mal e que de um modo geral é impotente.
Não é o que acontecia com Donatien. Era baixinho e boa-pinta. Nasceu de família aristocrata, numa época de total decadência.
A roupa preferida da classe dominante era o deboche e a hipocrisia. Os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais alienados, procurando ignorar o tarugo que a revolução estava preparando para eles.
Sade teve uma educação exemplar: Voltaire, Rousseau, Diderot. Aos quatorze anos entrou para o Exército, onde se distinguiu pela bravura e pelo criticismo.
Embora não fosse viado, saiu da vida castrense com a mesma filosofia que Camus pregou em Calígula: “Se a vida é um absurdo porque acaba na morte, então vou viver o absurdo até as últimas consequências”.
Para vocês imaginarem como era obtusa a burguesia da época, Sade, que era um aristocrata decadente, recebeu de George Pelagie de Montreill, um burguês riquíssimo, nada menos que o equivalente a meio milhão de dólares para se casar com a filha dele, René, e assim introduzir a família na nobreza.
Rico, inteligente, entediado, o modo que Sade encontrou para demonstrar seu desprezo pela sociedade foi fudendo.
Sua mulher jamais reclamou dos inúmeros casos que começou a ter logo após o casamento.
Implicava com a religião ou com o mau uso que se fazia da religião, uma vez que todos iam à igreja e se diziam cristãos, embora praticassem, como no Brasil de hoje, todas as patifarias de ordem social, política, econômica e sexual.
Logo chegou à conclusão de que um deus que permitia tais coisas não merecia respeito.
Sua primeira prisão ocorreu aos vinte e três anos, quando tentou convencer uma prostituta – Jeanne Testard – a quebrar um cruxifixo, a chicoteá-lo (oIhem o lado masoquista, muito antes do próprio Masoch ter nascido!) e a ser chicoteada por ele.
Passou apenas quinze dias na cadeia, pois a família do sogro era muito influente.
Os puteiros de Paris, por ordem da polícia, não permitiram mais a sua entrada, mas ele se arranjava com amadoras.
Um dia conquistou uma viúva – Rose Keller – que levou para a cama e a chicoteou o quanto quis. Ela teria conseguido escapar e aproveitado para denunciá-lo.
Foi preso novamente e só foi libertado porque engravidou a mulher, o que lhe permitiu o livramento condicional. Mas não se emendou.
Mudou-se para um castelo de sua propriedade onde, com a ajuda da mulher, da cunhada e da própria sogra, encenou rituais sexuais de sexo oral, carnal e chicotadas com as criadas e as camponesas locais.
Viajou para Marselha com um criado, que saiu em campo e encontrou quatro prostitutas que entregaram os respectivos anéis e quase enlouqueceram, pois ele lhes teria dado um afrodisíaco (ver verbete) chamado mosca espanhola.
O escândalo conseguiu irritar sua sogra e Sade, que havia fugido e vivia clandestino, foi condenado à morte.
Reapareceu em 1774, com a subida ao poder de Luís XVI, que o anistiou.
Instalou-se com a mulher em outro castelo de sua propriedade e juntos faziam surubas incríveis com meninas entre quinze e dezoito anos.
Tentaram prendê-lo, mas a sogra já havia feito as pazes com ele e subornou um monge para dizer que a disciplina que se aplicava às jovens criadas no castelo de Sade era a mesma que se aplicava nos mais respeitáveis conventos.
Em 1777, brigou novamente com a sogra e foi preso. Na cadeia descobriu a masturbação e a literatura. Quando não estava escrevendo (Julieta, Filosofia de Alcova, 120 Dias de Sodoma, etc.) estava batendo punheta. É bom dizer que sua literatura filosófica, cheia de eufemismos, é de péssima qualidade.
Colocado no hospício de Charenton, não dava conta das mulheres que vinham dar para ele.
Finalmente, foi libertado pela Revolução Francesa e transformou-se no cidadão Sade, que combatia a promiscuidade da aristocracia.
Chegou a juiz, mas negou-se a condenar a sogra à morte, o que fez com que fosse considerado moderado e – quase, quase – levado à guilhotina.
Com o fim da revolução resolveu ser autor teatral, mas acabou no hospício de novo porque sua peça Justine satirizava Napoleão e sua mulher Josephine.
Morreu em Charenton, onde durante anos dirigiu os loucos, que interpretavam peças de sua autoria.
Sade foi um debochado, gostava de fuder, mas o fato de nunca ter matado ninguém e das mulheres o amarem apesar dos supostos maus-tratos me faz pensar que foi, principalmente, um opositor do poder que teve a coragem de fazer às claras o que todo mundo fazia às escondidas.

Certamente não era um sádico. Depois de um reestudo, acabará reemergindo para a História como herói.

ABC do Fausto Wolff (Parte 64)


REVISTAS de Sacanagem – Muito antes de Petrônio Arbitrius escrever o Satiricon já havia muita literatura erótico-pornográfíca. Revistas de sacanagem, mesmo, só começaram a aparecer clandestinamente no mundo (e no Brasil de Dom Pedro II) no século XIX. A mais antiga talvez tenha sido a Rambler's Magazine, de Londres, que saía uma vez por mês com subtítulos como: “Os anais da galanteria, do prazer e bom-tom para entreter o mundo sofisticado e para presentear o homem com o mais delicioso banquete de bacanália”. Devia ser muito chato.
Foi, porém, apenas em 1930 que a revista americana Esquire apresentou as primeiras pin-ups, verdadeiras puritanas no trajar, se comparadas ao mulherio que Haffner, editor da Playboy, apresentaria nos anos 50 nos Estados Unidos, para ser copiado em seguida na Inglaterra com revistas como Mayfair, Men Only e Penthouse.
É claro que antes disso havia revistas de mulheres peladas, principalmente na França, que, porém, se disfarçavam sobtítulos como “Sol e Saúde”, “Vida Naturista”, etc. E pensar que tinha muito nego que batia punheta vendo fotos de um bando de mulheres e homens em pêlo jogando vôlei na praia.
No Brasil, lembro que prestei minhas primeiras homenagens a Onan (ver verbete) folheando as páginas da revista Copacabana, onde Elvira Pagã e Luz del Fuego apareciam nuinhas lá pelo meio dos anos 40. Ninguém, porém, ousava mostrar as moças de pentelhos. Eram cuidadosamente raspados antes das fotos ou retocados a posteriori.
Em 1970, Bob Guccioni, editor da Penthouse, resolveu pagar para ver e publicou a foto de uma moça acompanhada de seus pentelhos. Não deu em nada e pouco depois – em verdade, no Brasil, só em 1983, através das revistas Playboy e Status – os perigosos pentelhos viraram lugar-comum.
É verdade que antes de Gueccioni publicar a foto, a pornografia já havia sido liberada em toda a Escandinávia, Alemanha e Holanda, sem que ninguém enlouquecesse.
No meio dos anos 70, surgiram nos Estados Unidos as primeiras revistas para mulheres, onde apareciam nus masculinos frontais, ou seja, aqueles sujeitos com caras de idiotas da meia-bomba. As primeiras revistas esgotaram rapidamente. Rapidamente também os editores descobriram que eram mais consumidas por homens que gostavam de ver outros homens pelados que por mulheres. Eram Viva e Playgirl.
No Brasil, quando apareceram as primeiras revistinhas de sacanagem, o sucesso foi enorme. Com a queda recorde mundial do poder aquisitivo do cruzado, elas encalharam. Estão aos milhares nas bancas de jornais, sem que ninguém as compre.
E pensar que, no princípio dos anos 80, a voz da burguesia, via Globo e JB, acusavam as revistas de sacanagem por tudo de ruim – da corrupção policial às atuações do Botafogo – que acontecia no país. Não eram.

RICARDO I, o Coração de Leão (1157-1199) – Rei da Inglaterra, filho de Henrique II e de Leonor de Aquitânia. Gostava de briga. Pouco mais que adolescente, tentou tirar o trono do pai. Acabou perdendo a briga e pediu penico, Seu pai, ao morrer, o amaldiçoou, o que não impediu que pegasse a coroa, também desejada por seus irmãos Felipe e João sem Terra. Durante os doze anos do seu reinado, passou apenas seis meses fora de guerras. Era bom e nunca perdeu um torneio.
Andou peleando na França, na Itália, e não fosse o cagaço de seus aliados franceses e austríacos, teria liberado Jerusalém dos sarracenos. Acabou fazendo um acordo com o sultão Saladim, que embora não corresse da raia acabou reconhecendo a coragem de Ricardo.
Seu nome se confunde com a lenda de Robin Hood, de quem teria sido grande amigo. No cerco ao castelo de Limousin, na França, acabou morto por uma flechada de besta.
Não, a flecha não foi atirada por nenhum cronista social, vereador ou animador de auditório.
Besta é o arco curto, montado como se fosse um revólver, e que voava a uma velocidade espantosa, capaz de furar armaduras.
O papa Inocente II classificou esta arma como “odiosa a Deus e imprópria para cristãos”. Era inocente mesmo.
Valente, corajoso, leal, casado com Berengária, filha do rei Sancho VI, de Castela, jamais reclamou dos seus inúmeros ferimentos. Se irritou apenas uma vez, em 1191, quando ao chegar em Marselha, com destino à Arábia, descobriu que os soldados que havia mandado na frente haviam gasto todos os fundos da campanha com prostitutas.
Berengária, como o próprio nome indica, era uma das mulheres mais feias da Europa, o que também não preocupava o coração de leão de Ricardo que, entre uma batalha e outra, gostava mesmo era de sentar num armanho.
E ai daquele que se recusasse a agasalhar o armanho entre as suas nádegas leoninas e reais!

RICHARDS, Renée (1935- ) Até 1972, era um bem-sucedido oftalmologista de New York, cujo hobby era jogar tênis. Boa pinta, 1,85m, além de bom médico era um tenista, senão excelente, dos melhores. Em 1972 desapareceu de circulação. Onde foi o doutor? Ninguém sabe, ninguém viu.
Mais ou menos nesta época começou a fazer enorme sucesso nas quadras a tenista Renée Richards, que acabou ganhando uma grana altíssima ao vencer o terneio feminino de La Jolla, na Califórnia.
Um repórter – ainda existem repórteres em alguns lugares do mundo – resolveu levantar a vida da Renée e descobriu que até o ano anterior ela havia sido o Dr. Richard Raskind, de New York.
Quando tentou entrar em outro torneio feminino, vinte e cinco competidoras saltaram fora e as quatro ou cinco que permaneceram foram obrigadas a fazer testes hormonais.
É que o braço de Renée era muito forte e se uma bola jogada por ela, em vez de bater na raquete batesse na cara de uma jogadora ela certamente cairia desmaiada, para dizer pouco.
Renée entrou com um processo judicial e durante o julgamento tirou as calcinhas e provou ao júri que onde deveria haver um pênis havia uma xota. E o juiz. decretou: “Evidência médica indica que o réu é agora uma mulher”.
É que, em 1972, o Dr. Richard Raskind, cansado de não ser campeão feminino, mandou cortar o cheio de varizes e passou a tomar hormônio feminino.
Em pouco tempo perdeu os pêlos, acabou ganhando uma bundinha razoável e um belo par de seios. Claro, tornou-se campeã feminina. Hoje está retirada das quadras e cuida apenas do marido.
Pessoalmente, creio que o gesto de Richard deveria servir de exemplo aos tenistas brasileiros que tentam furiosamente um lugar entre os trinta primeiros do ranking mundial, sem sucesso. Uma operaçãozinha à-toa poderia fazer deles campeãs.
Ao contrário do que dizia o barão de Coubertin, o importante no esporte é vencer, com ou sem pau.

ROMANA Caridade – Eufemismo poético e simpático para o ato de dar de mamar a um adulto. Em 1968, pouco antes de embarcar para o Vietnam, fui visitar as ruínas de Pompeia, a alguns minutos de Nápoles. Fiquei impressionado çom um mural que mostrava uma bela jovem dando de mamar a um velho. Alguns meses mais tarde – já na Ásia, vendo os soldados americanos dopados irem para o front móvel que podia ser a trincheira ou um restaurante elegante no centro de Saigon – me lembrei do mural.
Na hora pensei que tudo não passara de alucinação, pois a moça que tinha me acompanhado a Pompeia havia posto LSD no meu chope, em Capri.
Um ano mais tarde, voltei às ruínas e lá estava o velho mamando na garotinha. Procurei me informar e descobri que se tratava de uma lenda recontada por vários autores, entre eles Plínio, não sei se o velho ou o moço, pois ambos foram velhos e moços.
Diz a lenda que um homem foi feito prisioneiro e condenado a morrer de fome, como acontece com a grande maioria das crianças brasileiras que, porém, morrem de fome em liberdade. Afinal, somos uma democracia.
Sua filha, que havia acabado de dar à luz (é preciso recuperar urgentemente o verbo parir ou criar o verbo luzar), ia visitá-lo secretamente e o alimentava com o seu leite.
No livro White Hotel, de A.D. Thomas, que chegou a ser best-seller na Inglaterra uns seis anos atrás, o autor bebe dos seios de Freud. Para ser mais preciso: ele apanha uma maluquete paciente de Freud e dá um tratamento literário moderninho à tesão solitária da moça.
No livro (que é o diário da jovem), ela confessa que, no restaurante de um hotel, deu de mamar não só ao seu amante – o filho de Freud – como a um padre já idoso e a um cozinheiro gordo que, porém, preferiu ordenhá-la e beber o leite num copo.
Guy de Maupassant também relata o caso de um sujeito que bebia o leite da mulher amada (Liebfraumilch) num conto chamado Idylle.
Finalmente, quem leu a melhor coisa que Steinbeck já escreveu, As Vinhas da Ira, deve se lembrar de episódio semelhante.
Em matéria de leite, confesso que prefiro leite de mulher: já vem com açúcar.

A mãe da minha filha mais nova sempre deixava eu beber um pouco depois que a menina estava de estômago cheio. Bons tempos!

ABC do Fausto Wolff (Parte 63)


REICH, Wilhelm (1897-1957) – Dizem que era maluco. Se eu o tivesse conhecido, pagaria para ver. (Só agora que notei que comecei este verbete com o verbo dizer, o que é perigoso, pois lembra a minha ficha no SNI: “Dizem que é comunista. Atua num telejornal onde, através de comentários jocosos, faz críticas à civilização ocidental.”)
Acontece que este psiquiatra alemão foi tão sacaneado por todos os tipos de poderes que, certamente, não poderia ser má pessoa. Talvez tenha morrido maluco, mas isso acontecerá com todos nós que nos confrontarmos diariamente com a nossa ignorância.
Já por volta de 1930 disse para Freud: “Você é muito freudiano”.
Depois de lutar como soldado na Primeira Guerra Mundial, abriu uma clínica, onde tentou ajudar trabalhadores que achavam que estavam trabalhando demais e recebendo muito pouco e por isso eram considerados loucos. Foi neste período – 1924-1930 – que entrou para o partido comunista.
Para provar que não era tão visionário assim, quando Hitler subiu ao poder se mandou para a Dinamarca, onde publicou Die Massenpsychologie des Faschismus (A Psicologia de Massa do Fascismo), denunciando o comunismo como outra forma de fascismo.
Levou pau de Freud, de Hitler e, finalmente, de Stalin. Tudo antes dos trinta e três anos. Nem Cristo conseguiu tantos milagres.
Em 1934, deu um jeito de ser expulso da Associação Psicanalítica Internacional, principalmente por causa do seu livro A Análise do Caráter.
Depois de ser posto para fora da Dinamarca e da Suécia, arranjou um emprego na Universidade de Oslo, mas, em 1937, começou a ser atacado pela imprensa norueguesa, razão pela qual fez as malas em 1939 e se mandou para New York, onde abriu uma clínica psiquiátrica e deu aulas na New York School for Social Research até 1941.
Freud (como a Xuxa, todo mundo conhece, mas poucos conhecem intimamente) achava que atrás das neuroses havia a repressão sexual e mais: que a personalidade de um homem é determinada pelas suas características sexuais. Reich, porém, ia além.
Ele achava que a energia sexual reprimida era venenosa e destrutiva. No seu livro A Função do Orgasmo, de 1942, ele diz: “É preciso gozar sem inibições; descarregar toda a excitação sexual através de agradáveis e involuntárias contrações dos músculos do corpo. Um orgasmo inadequado deixa um surplus de energia no corpo que pode causar doenças”.
Enfim, ele acreditava que, na hora do orgasmo, homens e mulheres deveriam se abandonar totalmente sem inibições com todos os músculos do corpo. Vai daí que, enquanto isso não fosse resolvido fisicamente, era besteira insistir em longas e caras sessões de análise.
Era contra a repressão sexual que os adultos impõem aos mais jovens e da luta contra a autoridade dentro da família passou à luta contra qualquer tipo de autoridade. Não é à-toa, portanto, que a garotada dos anos 60 viu nele o seu guru.
Pensava mais ou menos assim: se as coisas que têm que acontecer não acontecem no momento certo e não são liberadas, elas crescem como um câncer dentro do ser humano.
No princípio ele achava que esta energia não acumulada existia apenas em homens e mulheres. Com o tempo, porém, passou a acreditar que esta energia não liberada era universal e pré-atômica.
Batizou-a de orgone, uma mistura de orgasmo com organismo. Ela seria a força prisioneira que existe em qualquer matéria do universo e seria até mesmo responsável por fenómenos paranormais como os discos voadores.
Quando declarou, finalmente, que o orgone era Deus, foi considerado definitivamente esquizofrênico.
Em 1945, ele deixou New York e se isolou no Estado de Mayne, um pouco acima. Lá escreveu que a energia do orgone se irradia do corpo humano – uma espécie de energia psíquica –, mas apenas quando o corpo é saudável. Quando a energia está bloqueada, provoca câncer e outras doenças como sagitário, capricórnio e gêmeos.
Para corrigir isto, ele construiu umas caixas de metal e madeira. O paciente era colocado dentro delas e recebia a superabundância de energia de orgone existente no cosmo. Vendeu muitas dessas caixas, garantindo que elas curavam o câncer. E na época surgiram centenas de pessoas declarando-se curadas.
Em 1956, já tendo abandonado a psiquiatria há algum tempo, foi condenado a dois anos de prisão pela venda dos acumuladores de orgone. Morreu de um ataque de coração um dia antes de ser posto em liberdade.
Durante todo o tempo em que esteve nos Estados Unidos foi perseguido pela polícia, pelo FBI, pela Food and Drug Administration e, principalmente, pelos seus colegas, que insistiam que ele era louco. Queimaram os seus livros e destruíram os seus orgones, o último deles em 1957.
Dele disse o Dr. Nic Waal, um dos poucos que não o perseguiram: “Ele estava em pedaços. Em parte por sua culpa, mas principalmente por causa dos outros. Ninguém pode suportar tanta crueldade e solidão sem se quebrar interiormente”.
Pessoalmente, creio que aconteceu com Reich o que aconteceu com os psicanalistas que tentaram usar o LSD como um acelerador do processo terapêutico. Foram desacreditados e impedidos de trabalhar.
Reich era um espírito anárquico que provavelmente descobriu antes do tempo a vacina contra o câncer. Ia tirar dinheiro do bolso de muitos laboratórios e acabar com a fraude dos psicanalistas, que se resume em anestesiar a consciência da burguesia.
Einstein acreditava nele, mas, mesmo assim, ninguém ousou prosseguir suas pesquisas.

REINO Animal – O protozoário paramectum amelia pode ser unicelular mas em compensação tem oito sexos. Não me perguntem como funcionam.
Algumas espécies de cobras na Índia lutam – macho e fêmea – durante horas até que ela dê o sinal de submissão, deitando a cabeça no solo. É o momento do macho introduzir seus dois pênis. A trepada pode durar de dois minutos a dois dias.
Kinsey garante que observou casos de homossexualismo entre macacos, cachorros, búfalos, bois, ratos, porcos-espinhos, antílopes, cavalos, burros, elefantes, hienas, camundongos e morcegos.
A bactéria unicelular trinchonynpha, que vive dentro dos intestinos do cupim, é completamente bissexual. O que determina quem desempenhará o papel do macho ou da fêmea é o número de manchas no corpo. Quem tiver mais manchas será a fêmea. Como as manchas aumentam e diminuem de número constantemente, o mesmo acontece com o sexo.
A fêmea do cavalo-marinho (égua-marinha?) tem uma espécie de pau que costuma introduzir numa abertura do saco abdominal do macho. Lá ela deposita os ovos fertilizados, que se desenvolvem dentro do abdômem do marido até a hora dele dar à luz.
O pulgo faz, com a piroquinha, um buraco nas costas da fêmea, onde ejacula. O esperma entra na corrente sanguínea até atingir os ovários, onde os embriões se desenvolvem até o nascimento, ocasião em que começam a morder o nosso saco.
O maior pau da terra e o do elefante, que tem cerca de metro e meio, um birrinho, comparado com o maior pau do mar, que é o do baleio, com mais de 3 metros.
Quando vocês virem dois escorpiões dançando, não se enganem. Não se trata de dança, mas de foda. Na hora de procriar o escorpião macho agarra a fêmea com suas pinças e em seguida ejacula no chão. A dança é para ter certeza de que os órgãos reprodutivos da fêmea entrarão em contato com o esperma.
Os paus de muitos insetos têm protuberâncias para evitar que saiam de dentro da fêmea, uma vez introduzidos. Se você separar dois insetos que estão trepando, poderá capar o macho e causar graves ferimentos à fêmea.
Ninguém sabe por que, mas a verdade é que a peça do touro, depois da trepada, ganha a forma de um saca-rolhas, o que impede que ele dê a segunda.
Um verme chamado platielmíntio tem o pau localizado na boca. Serve para reproduzir e para caçar vermezinhos menores, dos quais se alimenta.
O clitóris da fêmea do macaco-aranha é maior que o pênis do macho: 4 centímetros.
Agora, quem gosta de trepar mesmo é a chimpanzé. Quando está no cio, pode ser comida vinte vezes por dia. Aliás, de todos os primatas, o chimpanzé é o que mais curte. Além do ato em si, pratica masturbação e cunnilingus.
Os culhões de um elefante adulto pesam cerca de 2 quilos.
Amor entre rinocerontes é engraçadíssimo. Eles brigam durante cerca de duas horas. E não é briguinha boba. Imaginem que se chocam a uma velocidade de 30 quilômetros por hora. Tanto a fêmea quanto o macho às vezes pesam mais de 2 toneladas cada um. Se o macho perde a briga, nada feito. Se ganha, a fêmea se submete, ocasião em que é comida por trás durante cerca de duas horas. O macho, segundo voyeurs zoologistas, ejacula de dez em dez minutos.
A lampreia só tem um culhão.
Desinteressadíssima por sexo é a girafa fêmea. Enquanto machos rivais brigam por sua posse, ela se limita a olhar entediada. Quando pinta o vencedor, ela dá uma mijada que ele, imediatamente, cheira, para ver se ela está no cio. Mesmo estando no cio, às vezes ela se chateia, interrompe a trepada no meio e vai passear.
Sem problemas freudianos, a grande maioria dos mamíferos, apenas colocados em contato com a fêmea, tem eração imediata. Menos de cinco segundos entre a total flacidez e uma ereção vítrea.
Entre castores, é a fêmea quem provoca. Depois de encontrar o cara que lhe agrada, ela expele uma substância amarelada chamada castoreum, de uma glândula localizada entre o ânus e a vagina. Sentindo o cheiro, o castor entende que ela está a fim e se aproxima. Trepam nadando lado a lado e a união geralmente é para toda a vida.
Cetáceos, de um modo geral, são chegados a uma suruba. É muito comum baleias dançarem um baião de três: dois machos e uma fêmea. Há quem diga que o segundo macho serve apenas para ajudar o parceiro a colocar sua piroca colossal na não menos colossal xota da fêmea.
E os leões-marinhos que são voyeurs? Se excitam vendo os mais velhos treparem. Desconfio, porém, que esta afirmação não tenha base científica. O que ocorre, provavelmente, é que os mais moços vêem os mais velhos trepando, se excitam e partem para as fêmeas, ocasião em que levam uma surra dos veteranos. É que os leões-marinhos têm haréns e só quando são derrotados pela nova geração é que passam o mulherio adiante.
Os polvos fodem de frente, pelo menos esta é a impressão. Em verdade o que acontece é que o macho ejacula sobre um dos seus tentáculos e em seguida introduz, com a ajuda dele, o esperma dentro da vagina da fêmea. Em verdade os órgãos reprodutores não chegam a se tocar.
Imaginem um homem e uma mulher frente a frente fazendo sinais afirmativos e negativos com a cabeça, silenciosa e lentamente, durante algumas horas. De repente, sem ninguém compreender por que, o homem passa a chupar os pés da mulher bem devagar. Depois de algumas horas deste exercício, ele come a mulher por trás e a morde na nuca para não cair. Pois é assim que as tartarugas trepam.
A jacaré fêmea passa três semanas sem comer antes de ser comida metaforicamente pelo jacaré macho. Tudo isso para uma fodinha muito barulhenta que não dura mais de três minutos. Só perdem para os pinguins, que fodem uma vez por ano por não mais de dois minutos.
E os zangões, que depois de fertilizarem as rainhas são expulsos para morrerem de fome fora da colmeia?
Temo que dentro de alguns séculos ninguém acreditará no que escrevi sobre a vida sexual dos animais, pois, com a capacidade de destruir do homo sapiens (rar! rir! riri!), até lá existirão apenas vacas, galinhas e cães. E pensar que uma ameba — como criatura — é muito mais perfeita que o homem, pois vive inteiramente o seu potencial, enquanto que nós, provavelmente, nos destruiremos em plena pré-história do que poderíamos vir a ser.

RESTIF De La Bretonne, Nicolás Edmé (1734-1806) – Escritor de histórias de sacanagens, conhecido por seu apetite singular. Desconfio um pouco desse seu apetite, porque escreveu um livro autobiográfico chamado Monsieur Nicolás. Se o seu apetite fosse mesmo fora do comum, ele não teria tempo de escrever uma obra de dezesseis volumes e comer as mulheres do tempo de Luís XVI, Robespierre, Danton, Marat e as mais jovens dos primeiros anos do império de Napoleão.
Diz Havelock Ellis – que como se sabe, se casou com uma representante da Sapataria Polar e gostava de ser mijado –, que Monsieur Nicolás é um precioso documento de psicologia erótica e usou muitos elementos do livro em seu A Psicologia do Sexo.
Como vocês vêem, nesta vida nada se cria, tudo se plagia, inclusive este meu ABC. Mais ou menos como o pecado original, que, no dizer de Millôr Fernandes, de original só tem o estilo de cada um.
É claro que para não ser processado por nenhum idiota que passou a vida inteira medindo o clitóris das pulgas, eu uso o meu famoso molho Wolfenbuttel, o preferido das donas-de-casa da Tijuca e adjacências.
Mas, voltando ao Nicolás Edmé. Ao contrário do Frank Harris ou do Casanova, que foi seu contemporâneo (o Casa, não o Francisco), ele era um detalhista. Sua descrição de uma mulher se masturbando: “Depois de passar o dedo médio no clitóris durante uns quinze minutos, abrindo e fechando as pernas o tempo todo, ela parou subitamente. Ficou imóvel como se sentisse dor por uns dois minutos e depois começou a sorrir.”
Diz Nicolás que começou a vida sexual aos quatro anos brincando com suas amiguinhas e amiguinhos. Aos onze teve sua primeira relação sexual completa e desde então não teria parado mais. Por sua cama teriam passado empregadas domésticas, camponesas, prostitutas e damas da aristocracia.
Precisava ter muito apetite mesmo, pois na época não haviam inventado ainda o desodorante, o mulherio tomava banho uma vez por mês e usava peruca para esconder os piolhos. Pela rainha Maria Antonieta, que só tinha três dentes, vocês podem bem imaginar o resto.
Vocês já viram que as moças que o rapaz apanhava não deviam ser lá essas coisas e acabou acontecendo com ele o que costuma acontecer nesses casos (principalmente quase cem anos antes do nascimento de Alexander Flemming e da penicilina): apanhou uma gonorréia de gancho e pelo resto de sua vida não conseguiu mijar direito.
O negócio de Nicolás era trepar e trepar com mulheres. Não fora por dois pequenos detalhes confessados em seu livro, era um cara razoavelmente normal se é que alguém consegue definir o que é normalidade a esta altura do terceiro tempo – num lugar chamado Brasil.
Em primeiro lugar, tinha fantasias incestuosas e gostava de imaginar que a moça que estava jantando, eventuamente era sua filha. Explicava essa mania dizendo que, afinal de contas, tivera tantas filhas ilegítimas que era natural que, cedo ou tarde, uma delas aparecesse na sua cama.
Em segundo lugar, era meio fetichista e na sua novela Le Pied de Franchette (não pensem que fanchette quer dizer fanchona anã) expicou a coisa: “Eu gosto de limpeza e os sapatos e os pés são difíceis de se manterem limpos. Por isso, quando encontro uma mulher de pés limpos, calçando um par de sapatos limpos, tenho que trepar com ela”.

De qualquer modo, nunca substituiu a mulher por sapatos, como um conhecido meu que se diz fetichista só porque tem a mania de levar sapatões para a cama.

terça-feira, 3 de março de 2015

ABC do Fausto Wolff (Parte 62)


RABELAIS, François (1484?-1553) – Dois caras que quanto mais investigo menos descubro sobre suas vidas, são Rabelais e Hieronymus Bosch. Não fosse pelos livros do primeiro e pelos quadros do segundo daria para desconfiar que nunca existiram.
De Rabelais, por exemplo, se sabe que foi um monge franciscano que virou beneditino. Se foi expulso pelos franciscanos ou se preferiu beneditar a franciscar, a História não registra.
Dizem que perto do fim da vida estudou medicina, mas se desconhece o nome de qualquer pessoa que tenha curado. Está aqui porque escrevia histórias de sacanagem e foi protagonista – embora não confesso – de muitas das suas narrativas.
Se o marquês de Sade houvesse lido Rabelais com maior atenção, certamente não se levaria tão a sério, substituiria a dor pelo humor e não acabaria a vida entre os malucos do hospício de Charenton.
Rabelais sacaneou muita gente e seguramente teria acabado em cana não fosse um cara tão cheio de charme a ponto de se tornar chapinha do rei Francisco I e da rainha Margarida de Valois.
Parece que a dupla real fazia pipi nas calças ouvindo as histórias desse monge do qual o descendente mais moderno é o fradinho baixinho do Henfil, talento assassinado em 1988 pelo governo brasileiro, que lhe vendeu sangue infectado com o vírus da AIDS.
O trabalho mais conhecido de Rabelais, escrito em estilo idiossincrático e debochado, são os cinco volumes que compõem As Grandes e Heróicas Aventuras de Gargantua e Pantagruel, que – está na cara – foram condenadas pela Sorbonne e pelo papa de plantão.
Ao narrar escatologicamente os bodes que criaram o gigante Gargantua, seu filho Pantagruel e o companheiro de farra, Panurge, Rabelais usou o sexo para desmascarar a mesquinhez e a hipocrisia dos poderosos; os mesmos poderosos que assariam, quase cinquenta anos depois, numa fogueira em Roma, outro frade, este dominicano, chamado Giordano Bruno, pelo crime de dizer que a terra girar em torno do sol era mais natural que a Santíssima Trindade.
Vou dar um trailer rabelaisiano. Panurge, um grande gozador (desconfio que Shakespeare bebeu no vinho de Rabelais para criar o seu Falstaf), tem um ataque de TG (tesão galopante) ao ver uma senhora da alta sociedade parisiense sair da missa. Aproxima-se galantemente e informa:
– Madame, seria de grande benefício para a humanidade, delicioso para a senhora, honroso para a sua descendência e, principalmente, necessário para mim, que eu a cobrisse a fim de propagar a minha raça.
A dondoca, completamente despida de senso de humor, manda o bom Panu procurar a turma dele. Ele, porém, não desiste:
– Garanto-lhe, madame, que bastaria olhar uma única vez para a minha magnífica mortadela...
Não consegue terminar a frase, pois leva um tapa na cara. Não perde entretanto a postura:
– Deusas e deuses celestiais, como seria feliz o homem que a tivesse em seus braços e pudesse tocar, mesmo que de leve, o seu presunto na sua presunta...
A esta altura a mulher começa a berrar e o sacana dá no pé. Domingo seguinte, porém, disposto a demonstrar a paixão que sente, chama a mulher para um canto. Ela, pensando que ele irá se desculpar, se aproxima. É quando Panurge abre o seu casaco e lhe mostra a peça duríssima:
– Olhe como a senhora me deixa.
Ela recomeça o berreiro e Panurge finalmente se convence de que a sua paixão não é correspondida. Foge e planeja a vingança.
Primeiramente mata uma cadela no cio. Depois faz das chamadas partes pudendas da bichinha uma espécie de pó.
No domingo seguinte, na igreja, joga o pó sobre a mulher que o desprezara, apesar dos seus bons modos. O cheiro do pó atrai para dentro do templo quase todos os cachorros de Paris, que se jogam sobre a madame.
Os que fizeram menos cheiraram e lamberam, os que fizeram mais a mijaram, isso para não falar dos que tentaram conhecê-la literalmente. Antes que a grã-fina pudesse se trancar em casa, ela havia atraído 600.014 cachorros.
Certamente, um exagero de Rabelais. Provavelmente não foram mais que uns quatrocentos cães.
Atenção e muito respeito, senhoras da alta sociedade carioca: Nataniel Jebão tem a receita do pó de Rabelais.

RAIS, Gilles de (1404-1440) – Barão, marechal de França, riquíssimo senhor feudal. Se distinguiu aos dezoito anos como soldado corajoso e leal, lutando primeiro nas guerras pela sucessão no ducado da Bretanha e, posteriormente, a favor da duquesa de Anjou, contra os ingleses. Foi designado para assessorar Joana d'Arc e lutou heroicamente em muitas batalhas ao lado dela. Libertou Orleans junto da camponesa de Dorémy (que virou Santa) e consagrou Carlos VII, que o promoveu a marechal aos trinta anos.
Continuou servindo como guarda-costas de Joana quando Paris foi atacada. Depois da prisão dela ele ainda tentou libertá-la inutilmente. Como todos sabem, ela acabou assada pela Igreja.
O jovem marechal voltou para o seu condado, onde fundou a capela de Machecoul e com seus soldados encenou para a população a batalha de Orléans. Sua bela mulher, Catherine de Thouars, o esperava em seu fabuloso Castelo na Britânia.
Era dono de uma quinta parte das terras de França, que havia herdado de seu pai e do seu avô materno. Sua corte era mais esplendorosa que a do rei e gastava dinheiro a rodo com a manutenção de centenas de criados, soldados e padres.
Além disso, era um mecenas da música, da literatura e das artes plásticas. Se dava ao luxo de ser um senhor feudal justo, boa-pinta, inteligente e amado por todos os moradores do seu domínio.
Agora eu pergunto: como que o dono de tão belíssima biografia foi condenado à morte e enforcado? Eu mesmo respondo: parece que era um mau entendido, ou seja, uma bicha muito ruim.
Aliás, botem ruim nisso: a bicha mais ruim da história da humanidade.
Assim que se retirou para o seu castelo, crianças de cinco a quinze anos, de ambos os sexos, começaram a desaparecer das redondezas. E continuaram desaparecendo durante mais de cinco anos (1435-1440).
No princípio, por incrível que pareça, ninguém reclamou. O sacana raptava, violentava e depois desmembrava os corpos dos infantes. Dava, evidentemente, preferência aos meninos, cujos pauzinhos comia como churrasquinho depois de matá-los.
Ficou impressionado com a vida dos imperadores romanos e quis superá-los, coisa que conseguiu, pois era infanticida, necrófilo, pederasta, satanista e sacrílego.
O pessoal podia adorar o seu senhor mas não era tão burro a ponto de aceitar calmamente o desaparecimento de mais de oitocentas crianças, sempre nos arredores do castelo.
Acabou sendo preso em 1440, julgado perante o tribunal eclesiástico de Nantes e, posteriormente, pela corte civil.
A princípio o monstrão sabia do seu poder – ele se recusou a tomar conhecimento das denúncias.
Quando porém, foi ameaçado com a excomunhão – vai ver que tinha medo de ir para o inferno, pois era um bom católico, que rezava e comungava todos os dias em sua capela particular com seus padres particulares –, reconheceu a autoridade da Corte, mas se declarou inocente.
Foi condenado por heresia pelo tribunal da Igreja e sentenciado à forca pelo tribunal civil.
Sua confissão, seu arrependimento e a resignação com que deixou que lhe enfiassem o laço do carrasco no pescoço fez com que fosse aclamado como um exemplo de ovelha perdida que volta ao rebanho de Cristo.
Antes de morrer se proclamou católico temente a Deus e o que é mais incrível: a população feminina, principalmente, dos seus domínios implorou que não o matassem!
Há quem diga, porém, que o duque de Bretanha estava interessado na sua ruína financeira e que ele só confessou debaixo de tortura. E o pessoal torturava para valer naquela época!
Só não torturava tanto quanto os gorilas do DOI-CODI, no Brasil, porque ainda não haviam descoberto a eletricidade. Em suma, não levou choque nos culhões. Mas, porra, que fim levaram as oitocentas crianças?

RASPUTIN, Grigori Jefimoviteh (1871? - 1916) – Deste se pode dizer tudo, menos que fosse hipócrita ou que jogasse água fora da bacia. Era metido a mágico, mas não escondia. Aliás, comparado com ele, o Tartufo, de Molière (boa a tradução do Guilherme de Figueiredo, devo dizer), não passa de um sacaninha pé-de-chinelo. A começar pelo seu nome: Rasputin, em russo, quer dizei debochado. Em português, rasputinha, provavelmente, quer dizer amante do ditador de plantão.
Aos vinte anos de idade e quase dois metros de altura, decidiu que queria ser santo. Escolheu uma religião à altura do seu talento: uma seita chamada Khistly, cujo lema era “Peque porque você talvez seja perdoado”.
Ué,o Gilles de Rais, depois de matar oitocentas criancinhas, não medrou na hora de ser excomungado por temor de não ir para o céu? Antônio Carlos Magalhães, Roberto Campos, Delfim Netto, Newton Cruz, Celso Furtado, Moreira Franco, Saulo Ramos, Rubem Medina, Paulo Maluf, Ernesto Geisel, João Figueiredo, Walter Pires, Brilhante Ustra, entre outros, não são todos bons cristãos? Qual é o espanto? Mas rasputearei.
Os maluquetes da seita Khistly passavam os dias e as noites dançando e se chicoteando. Depois de bem dançados e chicoteados iniciavam os negócios sérios: tremendos bacanais que duravam semanas. Bons bacanos.
Como Rasputin dava cinco sem tirar e podia escalar várias mulheres numa só noite, logo se tomou líder do grupo e passou a ser conhecido como “o monge grande, porém, duro”.
Sua primeira providência foi expulsar todos os homens da seita a porradas. Em seguida perambulou anos pela Rússia acompanhado de algumas dezenas de mulheres. Ele pregava, curava e organizava surubas monumentais, tudo em nome de Deus.
Eu disse que ele curava porque, aparentemente, tinha um poder energético tão grande que bastava pousar a mão sobre a parte doente do corpo do cara que pedia o seu socorro para curá-lo. Parece, também, que não cobrava nada dos pobres e havia muitos pobres na Rússia do seu tempo.
Em 1903, ele pintou com o seu mulherio em São Petersburgo, onde foi apresenta-do a uma grã-fina doidinha (as pobres têm seu valor, mas uma ricaça boa, cheirosa e limpinha vale muito mais), dessas que vivem em cartomantes, sessões espíritas, consultam horóscopos, búzios, cuidam do biorritmo e hoje em dia dividem seu tempo entre o psicanalista e o pai-de-santo quando não estão corneando o marido.
De cara ele curou a caganeira do cachorro da duquesa Militsa (este o nome da grã-fina) e daí por diante se colocou na posição que o diabo gosta. Passava os dias enchendo a cara, trepando e curando, não necessariamente nesta ordem.
Acabou sendo apresentado ao czar (vem de César, que, por sua vez, quer dizer tesoura em inglês) Nicolau e à mulher Alexandra, que recém havia dado à luz um menino hemofílico que os melhores médicos da Corte haviam desenganado. Pois não é que o Rasputin fez com que o garoto melhorasse a ponto de convencer a czarina que ele era o único homem do mundo que podia manter o filho dela vivo?
Mal-educado, bêbado, sujo, barba longa e ensebada, fedendo, ele fazia o que queria numa corte corrompida e decadente que logo logo, com Lênin, veria o que era bom para a tosse, bronquite, rouquidão.
Sua influência sobre Alexandra era tamanha – uma vez, de porre, ele disse que a havia comido – que em 1900 ela lhe escreveu numa carta: “Meu amado mestre, redentor e mentor, eu gostaria de morrer dormindo sobre seus ombros”. E não era pelo tamanho dos ombros que Rasputin era conhecido.
Comeu metaforicamente quase todas as mulheres comíveis de corte, que lhe lambiam os dedos após ele haver comido literalmente, como sempre fazia, seus alimentos com as mãos. A polícia secreta, por ordem de membros moles e invejosos do governo, passou a vigiá-lo e reportou que em sua casa viviam entrando e saindo princesas e prostitutas.
Deduraram Rasputin para Alexandra, mas ela os chamou de detratores e os mandou ler os apóstolos, que “também beijavam as pessoas como forma de cumprimento”.
Um belo dia, porém, o príncipe Yusipov decidiu matá-lo. Não de homem para homem, pois o bicho era mais forte que um cavalo.
O príncipe e mais um bando de canalhas da extrema-direita russa o convidaram para um jantar à base de vinho Madeira e tortas recheadas de cianureto. Rasputin comeu e bebeu veneno suficiente para matar cinco elefantes e pediu mais. Deram-lhe cinco tiros. Ele não pediu mais. Limitou-se a cair sem perder os sentidos. Mas não morreu. Tiveram que botá-lo num saco, ainda com vida, e afogá-lo no rio.

Era casado e tinha três filhos medíocres. Quem morreu logo depois dele foi o príncipe, filho de Nicolau e Alexandra. 
O que se passou em seguida, em 1917, todo mundo sabe.