domingo, 23 de agosto de 2015

Grigori Rasputin: louco e superdotado



De onde vinha o poder de Rasputin, o camponês místico e analfabeto que mandava e desmandava na Rússia do czar Nicolau II entre 1905 e 1916?

Desde abril de 2004, o primeiro Museu Erótico da Rússia exibe, como atração principal, uma das possíveis chaves desse mistério: o pênis de 28,5 centímetros do monge.

“Com ele, paramos de invejar os Estados Unidos, que guarda o órgão de Napoleão Bonaparte”, disse ao jornal Pravda Igor Knyazkin, diretor do museu, que comprou a relíquia por 8 mil dólares. “O membro de Napoleão parece uma vagem perto do nosso.”

Entre os pênis que entraram para a história, o de Rasputin é um dos que mais causaram estrago.

Enquanto Napoleão tinha fama de impotente, o monge russo arrasava (apesar da longa barba e do tipão Antônio Conselheiro).


Adepto da seita khlysty, que pregava o pecado como melhor forma de redenção, ele ganhou a confiança do czar Nicolau e da czarina Alexandra ao apresentar seus dotes de curandeiro. Quando o místico estava por perto, o pequeno príncipe Aleksey melhorava da hemofilia.

Com livre circulação pela corte, o monge passou a seduzir atrizes, mulheres de soldados e damas da sociedade – os nobres ofereciam suas mulheres em troca de favores. Suspeita-se até que, enquanto Nicolau II liderava batalhas da Primeira Guerra, a própria czarina Alexandra – neta da rainha Vitória, da Inglaterra – tenha caído em suas mãos.

Mas, em uma noite de dezembro de 1916, seu desejo por mulheres o trairia. Rasputin foi convidado pelo príncipe Felix a conhecer sua mulher Irina, a bela sobrinha do czar, e caiu numa armadilha. Foi envenenado, esfaqueado e jogado nas águas geladas do rio Neva. Seu pênis foi cortado e guardado por um serviçal.

“Ainda hoje, acredita-se que ajude a curar a impotência”, diz o diretor do museu, Igor Knyazkin.

A história do pervertido

A trajetória de Grigori Yefimovich Novykhn tem início na década de 1860. Mas há muitas incertezas em relação ao seu nascimento. Especula-se que tenha sido em 23 de janeiro de 1864, na pequena aldeia de Pokrovskoe, Sibéria. Outras fontes afirmam que o ano de seu nascimento está entre 1869 e 1872.

Pobre e parcialmente alfabetizado, o jovem Grigori atravessou sua infância e adolescência na região natal. Provavelmente, ajudando ao pai camponês nas tarefas diárias, e divertindo-se com mulheres, vodka e envolvendo-se em brigas com vizinhos. Por este motivo, logo ganhou o apelido de Rasputinik (Rasputin - equivalente à Pervertido).


Por outro lado, sua terra natal era de religiosidade e misticismo muito intensos. Principalmente porque ali próximo estavam depositados, numa igreja, os restos mortais de São Simão.

O jovem Rasputin cresceu influenciado por esta atmosfera. Conta-se que, em sua juventude, já dava alguns sinais de possuir uma percepção especial, ou capacidade de predizer fatos futuros.

Certa vez, um político chamado Stolypin passava de carruagem por uma estrada. O jovem Rasputin, que passava ao lado, acenou e gritou ao viajante: “A morte é para você. A morte está se aproximando!”. Incrivelmente, no dia seguinte, o político foi ferido por balas e morreu dias depois.

Aos 18 anos, Rasputin teve um encontro com o bispo de Barnaull, o qual reforça-lhe a tendência mística.


Casado com Praskovia, Rasputin teve um filho e duas filhas. Sempre em meio a uma atmosfera de mistérios, um dia Rasputin vê uma santa, que ele diz ser a Virgem Maria.

Depois do ocorrido, Rasputin é aconselhado por um homem místico, chamado Makaria, a fazer uma peregrinação ao monte Atos, na Grécia. Rasputin permaneceu em peregrinação durante dois anos.

Voltando a sua terra natal, Rasputin é recebido de braços abertos pelo bispo Theophan, que lhe abre várias portas.

Em 1902, Rasputin desloca-se para a cidade de São Petersburgo e Kazan, onde agregou alguns discípulos e criou um grupo místico denominado Polite Society, baseado nos princípios da Khlysty.

Sua imagem de camponês simples e sem ambição foi significativa para que conquistasse confiança e simpatia junto aos moradores da região. A influência que a Polite Society exercia e o poder de persuasão de Rasputin, amenizavam a fama que seu envolvimento com prostitutas e bebidas lhe atribuía.

Nesse mesmo momento, as autoridades clericais da Rússia procuravam por um líder que transitasse entre a alta classe da sociedade, a nobreza e as classes inferiores, e pudesse reunir todas elas sob a influência da Igreja. Rasputin trazia todas essas características.

Mas sua fama junto aos czares teve início em 1915, quando Anya Vyrubova, amiga próxima da czarina Alexandra Fedorovna, entrou em coma após ferir-se gravemente quando o trem em que viajava descarrilou.

Ana Vyrubova teve as pernas esmagadas e o crânio fraturado, após um acidente ferroviário. Os médicos já não viam chances da moça sobreviver, até que Rasputin chegou ao local e próximo da moça disse: "Anushka, abra os olhos". No mesmo momento ela os abre, e ele diz: "Ela irá viver, mas ficará aleijada".


Mesmo sendo um homem adorado por muitos, Rasputin também tinha os seus inimigos, os quais diziam que o místico se dedicava na maior parte do tempo a participar de orgias infernais.

Um de seus inimigos era o Monge Iliodor, que um dia mandou uma mulher até a casa de Rasputin o esfaquear. Rasputin foi esfaqueado no estomago, mas assim mesmo sobreviveu.

A despótica e mágica força de Rasputin devia-se, inegavelmente, a sua tremenda potência sexual. O czar e a czarina ajoelhavam-se diante dele. Acreditavam ver naquele monge fatal um santo vivente.

É óbvio que Rasputin encontrou o ânimo dos czares muito disposto, graças ao mago francês Papus (Dr. Encause), médico de cabeceira dos soberanos.

Sempre que o príncipe Aleksey sofria de uma crise hemofílica, Raspuntin era chamado, colocava-lhe a mão sobre a testa, rezava umas orações e a crise passava.

Para evitar a angústia da czarina Alexandra que temia pela vida do filho, Rasputin foi convidado a viver no palácio imperial. Deu no que deu.


A família imperial Romanov

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Passo Fundo (RS): Tarso de Castro



Diferentemente da maioria de nós, que descendemos dos macacos, o gaúcho Tarso de Castro parecia um descendente dos cavalos: cavalgava sobre os amigos, os inimigos, as mulheres e sobre si próprio, sem se importar com os estragos provocados pela força dos cascos a galope. Era brutal e sedutor. E, por mais que tentem apagá-lo dos registros, ficará na história e na lenda como o criador do Pasquim.

É verdade que mais na lenda do que na história – porque ele não o criou sozinho. Jaguar e Sérgio Cabral foram seus sócios na origem do jornal, em 1969, sem falar no brilho individual dos primeiros colaboradores, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Henfil, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis e o diretor de arte Carlos Prospéri.

Mas, com sua audácia e criatividade, Tarso foi o amálgama inicial para a imagem debochada do Pasquim, numa época em que o AI-5 acabara de fechar os canais políticos sérios. O sucesso foi incrível: dos 12 mil exemplares iniciais, o jornal passou a 200 mil por semana em apenas cinco meses.


Ele tinha a vocação para criar jornais e o talento para fazê-los, mas sua irresponsabilidade os condenava à vida curta. Sob sua administração, o Pasquim passou a levar uma feroz vida social fora da redação: fechava bares, alugava aviões e se instalava em hotéis de luxo. Um cartão de crédito em seu bolso era um foguete para Júpiter.

Nas boates, quando uma garrafa de uísque caía da mesa e começava a derramar, a ordem de Tarso aos garçons era deixá-la esvaziar-se. Quando se descobriu que, com menos de dois anos de vida, os lucros do jornal também tinham escorrido para a Escócia e o prejuízo já parecia impagável, os sócios o afastaram para que o Pasquim pudesse sobreviver.

O Tarso que chegara ao Rio em 1962, vindo do Rio Grande do Sul para trabalhar com Samuel Wainer na Última Hora, era irreconhecivelmente simples e moderado. Na verdade, levou anos vivendo completamente anônimo no Rio. Mas o sucesso o transformou e o estrondo do Pasquim investiu-o de um poder que poucos podiam disputar.

Tornou-se um personagem: em qualquer lugar em que estivesse, era o que bebia mais, o que falava mais alto e o que saía com a mulher mais bonita. E não economizava suas opiniões: seus ódios ou admirações eram proclamados por escrito ou, ao vivo, nos botequins. Tinha multidões de afetos e desafetos, mas ninguém podia negar-lhe a coragem.

Pode-se dizer que Tarso foi para a cama com todas as mulheres que quis. Era um frenesi erótico que fazia pipocar úlceras até em seus amigos mais bem-sucedidos nesse terreno. Os inimigos, então, queriam comer vidro moído ao saber de algumas de suas conquistas.

O estoque das mulheres de Tarso incluía as que ele acabara de conhecer; as que conhecera pouco antes e estava guardando para um dia de chuva; e as que já conhecia havia muito tempo, inclusive as dos amigos. As mulheres o achavam alegre, bonito e irresistível.

Ele também se achava. Quando declarou no Antonio’s (onde nunca pagou um uísque) que precisava de dinheiro para ir à Bahia encontrar a estrela Candice Bergen (então filmando por lá), os amigos cotizaram-se e forneceram o dinheiro, torcendo para que Candice lhe desse um chute que o devolvesse voando ao Rio.


Tarso foi – e teve com ela um caso que se prolongou por Búzios, pelo Rio e por várias cidades onde houvesse uma cama. Em sua autobiografia, ela descreveu Tarso como “um ex-guerrilheiro que entrou em Havana com Che Guevara”. Ou seja, a pateta acreditou em tudo que ele lhe disse.

Daí a tempos, de volta aos Estados Unidos, Candice escreveu a Tarso para dizer que não se veriam mais porque iria casar-se com o cineasta francês Louis Malle (famoso por ser baixinho). Tarso apenas comentou, resignado: “Dos Malles, o menor”.

Seus amigos eram Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Maciel, Hugo Carvana, José Lewgoy, Leila Diniz, Regina Rozemburgo, Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Ricardo Amaral, Julinho Rego, César Thedim, Leonel Brizola. Os inimigos eram todos os que falassem contra seus amigos, com ou sem motivo justo.

Para vingar-se de Jaguar, que o classificara como um “provinciano deslumbrado”, publicou o anúncio de “falecimento” do cartunista na Folha de S. Paulo. Quando ele próprio, Tarso, morreu, seus amigos escreveram obituários carinhosos, mas nem eles puderam esconder o quanto Tarso os incomodava. “Defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria por perto”, escreveu Otto Lara Resende na Folha.

Sua morte já estava anunciada desde pelo menos 1988, quando os quase trinta anos de álcool em quantidades industriais provocaram-lhe uma cirrose hepática. Otto escreveu também: “O riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. A vida jogada fora, num gesto de desdém e rebeldia. Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança?”.

O objeto da frase era Tarso, mas ela poderia igualmente aplicar-se a Zequinha Estelita, Roniquito de Chevalier, Hélio Oiticica, Cazuza e a outros personagens de Ipanema que nunca se pouparam para a vida – ou para a morte. Uma coisa é certa: Tarso nunca se arrependeu de nada.

Na verdade, Tarso de Castro (1941-1991) é um tempo que acabou. Não por culpa dele ou de alguém em particular, mas porque o tal curso da história parece ter fechado as portas para jornalistas combativos (no sentido de raivosos e parciais), polêmicos (de fato, não os caricatos), idiossincráticos (ele escrevia o que vinha na telha, normalmente umedecida pelo álcool) e apaixonados (atacava e ridicularizava os inimigos da hora, que podiam ser os amigos de ontem ou de amanhã).


Como tudo que o envolvia, a biografia “Tarso de Castro - 75 kg de Músculos e Fúria” é passional. Seu autor, o jornalista Tom Cardoso, considera esse adjetivo forte. Prefere dizer que procurou fazer justiça ao personagem, um dos homens de imprensa mais polêmicos do país entre os anos 60 e 80. “Apesar de ser um porra-louca, um homem de bar, Tarso era um profissional responsável, um fazedor de muitas coisas. Infelizmente, pouco se fala dele hoje”, diz Cardoso.

Gaúcho de Passo Fundo, filho de um dono de jornal e cacique trabalhista local, Tarso herdou do pai as paixões por jornalismo e Leonel Brizola - paixões que se fundiram mais de uma vez.

Adolescente, já incomodava com seu estilo sarcástico-abrasivo em O Nacional, jornal do pai. Passo Fundo ficou pequena, foi para Porto Alegre, para a Última Hora gaúcha. O Rio Grande ficou pequeno, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conquistou uma coluna na Última Hora em que ironizava ou atacava mesmo os militares. Em 1969, ajudou a criar o mais importante dos jornais de esquerda surgidos durante a ditadura.

“Quis fazer justiça, especialmente, quanto à criação do Pasquim. Tarso é quem foi convidado para substituir Sérgio Porto (editor de A Carapuça, que se transformou em O Pasquim), ele foi o grande catalisador. Hoje, até gente que teve participação pequena é mais associada ao jornal do que ele”, diz Cardoso.

Dos dois mais notórios desafetos de Tarso dessa época, o autor conseguiu entrevistar Ziraldo, mas não Millôr Fernandes, que não respondeu a seus pedidos. Millôr acaba saindo do livro como uma espécie de vilão, em especial por ter sido o único prócer do Pasquim a não ser preso pelos militares.


A carreira de Tarso teve outros grandes momentos na Folha, por onde passou três vezes: entre 1975 e 77, quando foi editor da Ilustrada e criou o Folhetim, suplemento dominical lançado em 23 de janeiro de 1977 e que foi revolucionário na época, com grandes entrevistas, perfis, reportagens e colunistas de peso, tratando de política, cultura e comportamento; entre 1982 e 85, quando assinou uma muito lida coluna na Ilustrada; e na Folha da Tarde, entre 1988 e 91.

Conquistou a admiração do dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira, e de Claudio Abramo, diretor de Redação, mas, durante sua segunda passagem, bateu de frente com as mudanças que vinham sendo implantadas. Perdeu sua coluna por “divergências com as concepções jornalísticas em prática na Folha”, conforme nota do jornal reproduzida no livro. Cardoso cita entreveros que culminaram com sua saída.

O autor veste, no livro, a camisa de seu (anti-)herói. Isso não significa que tenha omitido características fundamentais de Tarso. Estão lá o irascível, o incontrolável, o inconciliável, o intransigente, o inveterado alcoólatra que não admitia se tratar e morreu de cirrose hepática aos 49 anos (“Prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira a viver a vida inteira bebendo pela metade.”).

Também estão o bem-sucedido sedutor, que conquistou muitas e até inalcançáveis mulheres, como a atriz norte-americana Candice Bergen, e o dono de amizades fidelíssimas com Chico Buarque, Caetano Veloso, Glauber Rocha e outros.

“Eu gostaria de ter sido jornalista naquela época, quando havia uma cumplicidade entre artistas e jornalistas. Tarso ia a campo, conseguia muitas pautas e entrevistas no bar”, diz Cardoso.

Sua admiração pelo personagem permite que as versões de Tarso sobre os fatos sobressaiam, mesmo que às vezes haja um tanto de folclore nessas versões. Mas também confere paixão ao relato sobre um homem que sempre foi passional.

Com uma lista de amigos de fazer inveja, Tarso de Castro podia ser visto - no mesmo dia - debatendo com Glauber Rocha no Veloso; cantando baixinho com os bossanovistas no apartamento de Nara Leão; curtindo o desbunde com os tropicalistas nas Dunas da Gal (apesar de detestar praia); discutindo política econômica com Roniquito de Chevalier (e poesia com Carlinhos Oliveira) no Antonio’s...

Ninguém se iluda: Tarso de Castro foi um dos mais polêmicos e debochados jornalistas brasileiros. Passional, brigão e sedutor, valia-se do charme não apenas para conquistar mulheres, mas também chefes austeros como Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Octávio Frias.

Numa só tacada, por exemplo, conseguiu aumentar as vendas do jornal Zero Hora (RS) e arrumar casamento. Como? Estampando na capa do caderno de Cultura, que editava, Bárbara Oppenheimer, uma das mulheres mais bonitas da cidade e, de quebra, bisneta do fundador do Correio do Povo, principal concorrente do ZH. Pouco depois, em 1968, os dois se casaram e partiram de fusca para o Rio de Janeiro, onde Tarso iria começar uma aventura jornalística mais profícua.

Tarso, que nas palavras de Otto Lara Resende era o menos convencional dos homens e parecia ter um pacto com a felicidade, foi responsável pelo surgimento do único sopro criativo da imprensa brasileira na virada dos anos 60, O Pasquim.

Recrutados praticamente todos em mesas de bar, Jaguar, Sergio Cabral, Ziraldo, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis, Paulo Rangel e Millôr Fernandes fizeram o que seria “a piada do ano”, na previsão furada de Millôr: um jornal feito só por jornalistas, e de humor, em pleno AI-5, “que se fosse independente não duraria seis meses”. Durou mais de 20 anos.

“O Pasquim era a revolução dentro da revolução. Ali se deflagram todos os movimentos. A revolução do jornalismo, a libertação do coloquial, a viabilização do esquerdismo, a libertação do humor e do feminismo, a explosão da contracultura, o desatamento do movimento gay. Era a imagem e semelhança de seu criador, Tarso de Castro”, compara Tom Cardoso.

As presepadas desse autêntico espada matador eram hilárias. Em agosto de 1961,Tarso de Castro foi mandado pelo Jornal do Dia (da Igreja Católica) a Punta del Este cobrir a Conferência Econômica e Social da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ele mandava carradas e mais carradas de matérias por telex para o jornal, que aparentemente custavam os olhos da cara pros padres de Porto Alegre.

Na Conferência estava o Ministro da Indústria e Economia de Cuba, Ernesto Che Guevara. O editor de política do Jornal do Dia - que segundo os maldosos pagava os funcionários 15 dias em dinheiro e 15 dias em indulgências plenárias - Carlos Fehlberg mandou dizer a Tarso que não se esmerasse tanto porque o material, evidentemente, não seria publicado (o que é a maior frustração para um repórter).


Restou para Tarso a compensação de mais tarde usar essa foto que fez ao lado do comandante Che para conquistar a atriz norte-americana Candice Bergen. Ele disse a Bergen que a foto fora feita assim que desceram de Sierra Maestra e que ele era um dos revolucionários que haviam combatido a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba. Prontamente conquistou a ingênua norte-americana.

Tarso de Castro morreu em 20 de maio de 1991 e foi enterrado em Passo Fundo. Quando chegou lá, o corpo foi recepcionado no aeroporto local por uma turma muito grande de pessoas. O delegado Romeo Tuma, então diretor da Polícia Federal, estava no aeroporto e perguntou de quem se tratava. Disseram que era do Tarso, filho do dono do jornal O Nacional:

- Ah, já sei, era aquele boca suja da muléstia! – disse Tuma

Numa das ocasiões em que se comemorava a Semana Nacional de Literatura, em Passo Fundo, os irmãos Chico e Paulo Caruso estavam na cidade e foram comemorar no túmulo de Tarso. Quase se desidrataram de tanto chorar, segundo relato de Ana Luiz, editora-chefe do jornal O Nacional. Parece que o cartunista Edgar Vasques também esteve nesta ocasião junto dos irmãos Caruso, que eram amigos íntimos de Tarso (o primeiro a publicar suas charges e cartuns). E dizem que os três visitantes passaram a noite tomando uísque em dose industrial e relembrando causos à beira do túmulo do falecido amigo.

Quando morava em Porto Alegre, segundo Cesar Tasca, que foi garçom da churrascaria Barranco, nos anos 70, Tarso de Castro freqüentou o local quase diariamente sempre na companhia de Paulo Odone, atual deputado estadual do PPS e presidente do Grêmio. Tarso também costumava aparecer no recinto com belas companhias femininas, como uma vez em que quase matou os homens de inveja ao entrar na churrascaria com a então exuberante cantora Fafá de Belém. O cara era um autêntico bode de caatinga: comia tudo que via pela frente e, ainda por cima – dizem –, tinha uma jeba descomunal.

Tarso de Castro teve um único filho (e seu relacionamento com ele foi dissecado no comovente “Pai solteiro e outras histórias”, único livro escrito pelo jornalista), que parece estar seguindo as pegadas do pai, conforme relato da jornalista Bárbara Gancia em seu blog, no último dia 18 de maio:

“Não tem nada de misterioso o publicitário João Vicente Castro, que foi fotografado com Daniela Cicarelli numa festa qualquer no sábado passado. Eu, por exemplo, o conheço desde o dia (ou perto disso, vá) em que ele deixou a maternidade. Talentoso, urbano e lindo, João Vicente puxou a inteligência do pai, o jornalista Tarso de Castro, morto em 1991, e a curiosidade da mãe, a designer cultesiméssima, Gilda Barbosa. Trata-se de um pedaço de rapaz, maduro, sério, viajado e que sabe de tudo um pouco e a Cicarelli deveria levantar as mãos aos céus apenas por respirar o mesmo ar que ele. E tenho dito.”

Corram atrás do livro do Tom Cardoso para recordar esse jornalista genial, homeboys! Eu recomendo.

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Vitória (ES): José Carlos Oliveira


José Carlos Oliveira, entre Rubem Braga e Vinícius de Moraes. Atrás, Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto. Ao Lado, Fernando Sabino.

Nos primeiros dias após o golpe militar de 31 de março de 1964, Ferreira Gullar se escondeu da repressão com os jornalistas Newton Carlos e Jânio de Freitas no sítio de outro jornalista, Reynaldo Jardim, perto de Nova Friburgo, estado do Rio. O jornalista Carlinhos Oliveira já estava lá desde 28 de março, mas escondendo-se do marido de sua amante.

Carlinhos estava com 30 anos e já era endeusado, na época, como o melhor cronista do Brasil. Ele também tinha o hábito, desde os 14 anos, de escrever uma espécie de diário íntimo em dezenas de cadernos e, dessa vez, sem nenhuma maldade, escreveu no seu diário que alguns amigos haviam chegado ao sítio e citou os nomes.

Um dia foi a Friburgo fazer compras e ao voltar viu no caderno que as cinco linhas sobre a chegada do grupo haviam sido cortadas com gilete. Carlinhos sentiu-se humilhado, esbravejou e foi embora. Nunca mais voltou a falar com Ferreira Gullar com quem, dez anos antes, havia dividido um quarto de pensão no Catete.

Em 1981, quando publicou seu romance à clef intitulado “Um novo animal na floresta”, que versava sobre a guerrilha urbana, Carlinhos deu o troco: ele usou os pseudônimos de João Ribas e Dolores para descrever e avacalhar o poeta Ferreira Gullar e sua esposa, a atriz Teresa Aragão.

No mesmo ano, inconformado com a crítica desfavorável ao livro publicada na revista IstoÉ pelo jornalista Geraldo Galvão Ferraz (ele acreditava que Ferreira Gullar é quem havia escrito o artigo), ele vociferou, por meio da crônica que escrevia diariamente no Jornal do Brasil: “Não serei assassinado por esses comunistas que mataram Glauber Rocha, João do Rio e Lima Barreto!”

Carlinhos imaginava injustamente que a resenha que espinafrava o livro era parte de um complô contra ele. Não era. Morreria em 1986, aos 51 anos, vitimado pela pancreatite e pela diabete. Desde então, mesmo sem complô, sua obra foi praticamente enterrada.

Tratamento inexplicável para um estilista da crônica que durante 23 anos escreveu cinco vezes por semana para o Jornal do Brasil, além de colaborar em outras publicações como a revista Homem, que depois virou a Playboy, com qualidade comparável à de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Rubem Braga.


Esse lapso começou a ser reparado com o relançamento de seus livros pela editora Civilização Brasileira, por iniciativa do jornalista Jason Tércio, que em 1999 escreveu a sua biografia (“Órfão da Tempestade”).

Na semana passada, o livreiro e poeta Celestino Neto, o “Lé”, passou aqui em casa e me deixou de presente o livro “Diário Selvagem” (um catatau de 518 pp), editado postumamente, que li em menos de 48 horas e já vou emprestar para o poeta Aldisio Filgueiras porque tem tudo a ver com a gente.

A primeira vez que li alguma coisa do cronista foi por meio de uma entrevista que ele deu ao Pasquinzão de Natal, em 1976. Pelo que Carlinhos Oliveira disse na entrevista, ele já havia comido metade das socialites do Rio de Janeiro – e a outra metade seria questão de tempo. Feio que nem um cão chupando manga, ou o cronista tinha uma conversa de derrubar avião ou era um ficcionista do cacete.

Comprei seu segundo romance “Terror e Êxtase”, editado pela Codecri, e achei uma merda. Mas aí o poeta João Bosco Ladislau me emprestou dois livros dele, de crônicas (“O saltimbanco azul” e “A revolução das bonecas”), e tive de rever meus conceitos. O sacana escrevia bem pra burro.

Mais tarde, li seu terceiro romance (“Um novo animal da floresta”) e também gostei muito, apesar de continuar achando que suas crônicas – pelo retrato de época e pela boemia carioca, que ele soube retratar como poucos – eram infinitamente superiores aos romances. Mas esse seu livro póstumo foi um autêntico uppercut no fígado.

No “Diário Selvagem”, o charme e a tensão da época ficam em segundo plano. Aparece o drama pessoal do autor, que lutava contra a doença para tentar inscrever seu nome entre os maiores ficcionistas da literatura.

No relato dessa busca, revela a alma poética, solitária, egocêntrica e sacana. Um texto visceral como não se faz mais nesses tempos em que até as confissões íntimas são copidescadas ao gosto do mercado.

É essa uma das maiores qualidades do diário: a exposição do autor por inteiro, sem pudores morais ou físicos. Em vários trechos, o capixaba franzino, de óculos e cabelos ralos, lamenta ter que escrever por dinheiro. “O pior é não ter mais ânimo para escrever baboseiras de revista ‘masculina’. Que farei da minha vida? Vem aí uma crise econômica medonha.”

Ele queria se dedicar ao fazer literário, caminhar para onde seu ego apontava. Comparava-se a Hemingway, considerava elogios que o igualavam a Faulkner. Inflava-se assim, talvez, para seguir escrevendo em meio às brutais dores no pâncreas, e à hemorragia, que o obrigavam a um coquetel de remédios.

Maltratado pela doença e pela luta para curar-se, mesmo assim conseguia priorizar a criação. “Escuto o pensamento: está silente, no vestíbulo do murmúrio, antes do som e da sílaba. Me agradaria viver, dia e noite, nesta região.” Apesar de assíduo no burburinho dos bares, mal sabia lidar com os que o cercavam. “O mundo real me parece impenetrável. Ainda não sou meu contemporâneo.”

Era humanista, mas não marcou posição política nos anos de chumbo da ditadura. Temia, por isso, que os intelectuais de esquerda o boicotassem, como fizeram com Glauber Rocha, seu amigo.

Entre esses “comunas”, como dizia, incluiu o poeta Ferreira Gullar, com quem se indispôs. Cunhou então os verbos “glauberizar”, como sinônimo de perseguição, e “caetanizar”, como sinônimo de alienação.

A trajetória de um outsider

Em 1952, vindo do Espírito Santo, José Carlos Oliveira, com 18 anos, pisava nas pedras polidas da Guanabara. Duro, sem contatos em uma cidade de dois milhões e meio de habitantes e sem pouso certo, foi direto ao que interessava: o bar Vermelhinho, meca dos intelectuais, boêmios, artistas, jornalistas e políticos no coração da capital, na rua Araújo Porto Alegre. Em pouco tempo, era tão íntimo do bar quanto as mesas e cadeiras.

José Carlos Oliveira, rapidamente, passa a escrever na revista Manchete e no Jornal do Brasil (onde escreveria por 23 anos ininterruptos), além de Cigarra e do lendário Diário Carioca. Passa a escrever crônicas, estilo que, durante sua formação, não vislumbrava. Porque Carlinhos de Oliveira projetara sua maldita e bêbada trajetória para ser romancista – dos bons.

Mas sua vida facilitava a nova frente de trabalho: observador dos bares e das ruas, pensador franco atirador, olho-míssel nas cocotas e nos desvãos da vida urbana. Cronista da linhagem de Bastos Tigres, Emilio de Meneses, Lima Barreto (seu santo protetor), Marques de Rebelo e muitos outros.

Após morar com Ferreira Gullar em pensões no Catete, José Carlos Oliveira mergulha de cabeça no eixo Copacabana-Ipanema-Leblon e nunca mais volta. Os bares do Beco das Garrafas, os porres com cheiro de mar no Alcazar e no Castelinho, as bocas e bundas liberadas da nova Ipanema do Veloso, do Mau-cheiro, do Zeppelin e do Jangadeiros, abraços e ódios com os maiores heróis da cidade, tudo filtrado em suas crônicas.

Tornou-se um dos primeiros colaboradores fixos do antológico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil – o SDJB. Tornou-se, para o mundo todo, Carlinhos Oliveira, porque era baixo (1,68 cm), franzino (52 kg) e possuía uma alma de passarinho.

A década de sessenta adentra o ventre do país e rasga as cabeças dos malucos de botecos e revolucionários artistas do Centro Popular de Cultura (CPC). Carlinhos Oliveira, na varanda do Antônio’s (Bartolomeu Mitre com Ataulfo), torna-se o cronista perplexo com a radicalização do homem brasileiro.

O pensamento boêmio não casa com a ditadura ou a guerrilha. As crônicas tornam-se contundentes, diretas, comportamentais, agonizantes, os temas e a linguagem ficam cada vez mais elaborados. O cronista passa, finalmente, a dar lugar ao romancista. Talvez, tarde demais.

O romancista José Carlos de Oliveira torna-se refém do cronista Carlinhos Oliveira. O cronista publica dois livros antes do romancista: Os olhos dourados do ódio (1962) e A revolução das bonecas (1967). Seu primeiro romance foi O Pavão desiludido (1972). Em 1978, seu grande – e único – best seller: Terror e Êxtase. O livro narra como saga urbana, ágil e alucinada, a relação entre o bandido assassino 1001 e Heleninha, filha de família rica de Ipanema. O livro vende mais de 15 mil cópias. O romancista José Carlos Oliveira, porém, continua sendo Carlinhos Oliveira.

A vida de José Carlos e Carlinhos é extensa demais para descrever aqui. O que não pode deixar de ser lido para se entender algumas das premissas do Brasil como frustração é o seu “Diário Selvagem”, publicado postumamente pelo seu biógrafo Jason Tércio.


O “Diário” é simplesmente uma das peças literárias mais fortes, diretas e fundamentais da literatura anos-70 em Pindorama. As entranhas de um escritor classe-média se contorcendo literalmente (Carlinhos sofria de pancreatite crônica e falência do fígado) em meio a uma ditadura militar que o envolvia e o enojava.

Muitos dos trabalhos sobre esse período não conseguem dar conta da vivência cotidiana de alguém que nem foi guerrilheiro, nem foi exilado. Carlinhos Oliveira / José Carlos Oliveira era um escritor torturado não só pela situação política como pelo seu embate com a Literatura, sua sina de ser um romancista “menor”, sem um grande livro, sem conseguir escrever o “romance brasileiro moderno”, algo que ele buscava em suas visões alcoolizadas.

Seus romances não ganharam a amplidão que ele buscava, seu grande sucesso fora um folhetim (“Terror e Êxtase” foi publicado em capítulos no JB). Falências, vergonhas, paranóias e sucessos que não o bastavam iam consumindo sua vida no início dos anos oitenta. Morre em Vitória, sua cidade natal, desiludido com o Rio de Janeiro, com o Brasil e com o Homem.

Em seu Diário, a frustração plena pelo estágio decrépito e carcomido que seu corpo, suas idéias, sua trajetória e o Brasil atingiam vem à tona sem filtros. A frustração de José Carlos Oliveira é a utopia realizada de Carlinhos. O romancista cerebral sucumbe frente ao cronista frívolo, o intelectual disciplinado é engolido pelo bêbado do Antonio’s. O cronista Carlinhos Oliveira afaga e afoga o romancista, dia-a-dia, até sua morte.


Trechos do diário:

29 de março de 1977

“Teoricamente bem. Melhor seria controlar o consumo de cigarros, mas me privo de tanta coisa no momento que seria uma injustiça. Ontem estive com Bruno, filho de Marcos de Vasconcellos, que com sua gatinha Kátia veio me procurar. Bom menino, escreve poemas ainda neuróticos, sem pé nem cabeça, mas se tiver um grão do talento do pai será algum dia um verdadeiro escritor. Está com 19 anos, Kátia é jovem, bela, e também escreve. Fiquei com inveja. Eu tão só e aquele boboca, feioso, meio debilóide, que conheço desde criancinha, namorando firme uma bela garota calma e carinhosa... Merda!”

21 de dezembro, 1977

“A propósito de Terror e êxtase: Mesmo com arma na mão, mesmo massacrando, torturando, humilhando o outro, o brasileiro encontra uma brecha pela qual manifesta sua alegria de viver. Assim, o homem cordial seria a besta feroz por definição, por ser o único animal que continua rindo enquanto esfola o seu semelhante. Ainda mais horrível e, ai de nós, maravilhoso: a vítima, sendo brasileira, também encontra jeito de soltar uma gargalhada enquanto a esfolam”.

6 de janeiro de 1978

“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário”

26 de agosto de 1978

“Agora vem Danusia Bárbara me entrevistar a mando de M.P. Esse aí não sossega: quer me derrubar de qualquer jeito; indivíduo perigoso por estar friamente cônscio de ser movido por forças irracionais / inconscientes. Não tenho dúvida que M.P. é psicopata. E eu tenho que conviver com essa gentalha, essa merdalhada humana. Os brasileiros me dão asco (Trêmulo de cólera, não posso continuar a escrever)”.

3 de dezembro de 1978

“Tenho que guardar os diários numa caixa, cuidando que traças e outros bichos não os destruam. Posteriormente serão datilografados. Se minha situação financeira estiver boa ano que vem, posso contratar uma secretária. O fato de ser escritor faz de meus cadernos fonte permanente de consulta. Por isso convém que sejam divididos Em assuntos (na medida do possível), tempo e lugar. Por necessidade de progresso espiritual, seriam inúteis se ao me debruçar neles eu não fosse a posteridade mesma”.

12 de janeiro de 1981

“O Otto escreveu sobre homicídios, ontem no Globo. Sustentou a tese de que o assassino, dentro de si (no foro íntimo) já está devida e severamente punido. O advogado Otto, o procurador do Estado Otto Lara Resende considera o julgamento de criminosos mera formalidade... E se diz escritor, e católico, e humanista, e liberal, e todo mundo acredita nisso. Compreendo minha solidão e meu estigma: outro dia vislumbrei um olhar de inveja mortal no rosto de Paulinho Mendes Campos. Eu posso falar de qualquer pessoa porque li o livro, porque sou escritor, porque não trapaceio. Mas o sucesso é do Otto, a seriedade existencial é do Paulinho, o estilo é do Fernando Sabino, o gênio é de Ferreira Gullar. Não há mais tempo para fugir à minha vocação e ao meu destino. É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.”

12 de dezembro de 1984

“Vargas Llosa: Contra ventos e marés. Comovido, humilhado, ciente da injustiça que me esmaga, nessas páginas me encontro com um José Carlos Oliveira peruano. A semelhança é ofuscante. Mas nesse nível de grandeza ingênua não haveria justificativa social para um boicote inarticulado. A mediocridade brasileira, todavia, faz de mim um escritor maldito. Eles me malditizam por imitação.”

10 de novembro de 1985

“No Rio. Hoje de manhã, acordando de um sono tranqüilo, compreendi que o romance brasileiro não foi escrito nem houve avanço na arte narrativa. Admiti uma falha trágica: de tanto procurar um romance popular, cuja produção me asseguraria prosperidade, menosprezei o movimento popular transformador, mas me tornei um funcionário aplicado na profissão literária, preso aos formatos preexistentes, não ousando quebrar as estruturas petrificadas. Meu sonho de romancista era um sonho modesto, sem fundamento. Comigo morre um anseio. Há que viver agora modestamente, apegado aos salários que me venham, ao vil metal que me permita sobreviver – sem rancor, mas com espanto.”

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Atendendo a uma solicitação pungente de uma menina de fino trato


Alô, Chris Braga? Há quanto tempo, gata! O que você manda dessa vez? O que? O signo da mulherada? Jura que isso não vai dar encrenca? Pois bem, então aí vai a versão soft (página 191 do livro Alô, Doçura!). A versão hard (pág. 251) fica para uma outra oportunidade. Você pode encontrar esse e outros livros de minha autoria no Sebão de Manaus, ali na Joaquim Sarmento canto com a Saldanha Marinho. Beijão!

Condenados pela Igreja Católica e perseguidos pela Inquisição durante toda a Idade Média, hoje em dia ninguém duvida mais da influência dos astros em nossa vida. Quem foi que um dia não deixou os cabelos crescerem por causa dos Beatles, não tentou imitar o rebolado sexy do James Brown, não quis ter a pinta de drogado do Keith Richards e não quis comer a mulher do George Harrison como o Eric Clapton?

Ao que parece, somente astrônomos famosos com cara de nerd, como Carl Sagan e Rogério Mourão, não se deixam influenciar por outros astros mais famosos ainda, como Michael Jordan, o rei da enterrada, Pelé, que sempre colocava o bicho na mão da patroa, Mike Tyson, que batia antes de entrar e Tiger Woods, que até hoje não pode ver um buraco dando sopa.

Para esses astrônomos com cara de nerd, a influência da lua em oposição a Vênus, com Saturno fazendo conjunção com Marte na quarta casa de Mercúrio sob a regência de Plutão, não passa de fantasia de escola de samba do segundo grupo.

Por uma questão de bom senso (27% menos nicotina e alcatrão), indisciplina e preguiça, e também porque todo mundo já está careca de saber o seu signo ascendente e descendente (e se não souber, bem-feito!), deixamos de escrever as datas e os períodos lunares a que eles se referem. Vamos explicar apenas a personalidade de cada uma das mulheres dentro do vasto inferno zodiacal bolado pelos gregos.

Áries – São mulheres ativas, ardentes, espontâneas e impulsivas. Também costumam ser sensuais e realistas. Começam entusiasmadas com um novo relacionamento, mas se aborrecem naturalmente. Gostam de tomar a iniciativa, são caprichosas e não é recomendável dar uma de boa praça pra cima delas. Fria, determinada e calculista, a ariana é bastante ambiciosa e seu projeto de vida se resume a fazer bons negócios, se realizar profissionalmente e ganhar muito dinheiro. Entre outras virtudes, são muito perspicazes e capazes de penetrar no lado oculto das coisas. Dica: mulher ariana não tem desejo, tem tara, passa o dia na siririca e de noite levando vara.

Touro – São teimosas, mas pacientes, possessivas e fiéis. Sossegadas, embora possam aborrecer-se terrivelmente. São ciumentas, mas não gostam de ser vigiadas. Gostam de comodidade e conforto, de elegância e luxo. Têm sentido prático e são gulosas, sendo esta a maior de suas fraquezas. As taurinas normalmente têm uma saúde de ferro, ou melhor, de vaca holandesa premiada em exposição, mas seu destino é dividir seu parceiro com alguém, talvez para justificar os chifres. Apesar de esforçadas, ainda vão ter de comer muita grama para subir na vida. Dica: toda mulher taurina é doida por pau rombudo, mas só chupa pica no claro e só goza no escuro.

Gêmeos – Para conquistar as mulheres deste signo tem-se de levar em conta que elas gostam de mudanças, que lhes atrai conhecer coisas novas e que são aficionadas de tarefas intelectuais, embora de forma superficial. Apesar de terem instinto caseiro, não gostam de pagar boquete, porque às geminianas falta o sentido maternal. Sua necessidade de aconchego e intimidade faz com que os momentos passados calmamente em casa sejam ainda mais gratificantes. São tolerantes com todos, não exigem muito dos outros nem valorizam a imperfeição alheia. Dica: a mulher geminiana chupa pica e não enjoa, só tira a pica da boca quando engole a gala toda.

Câncer – Com mulheres desse signo é recomendável discrição, uma vez que são susceptíveis e bastante sensíveis, ofendendo-se com tudo, principalmente com as suspeita de estarem sendo traídas. São muito sentimentais e têm a intuição e a imaginação muito desenvolvidas. São bem-intencionadas, mas caprichosas e o mesmo que a agrada agora, pode enfurecê-la mais tarde. Não tente mudanças com elas, pois são tradicionais e conservadoras. Os cuidados com a imagem são favorecidos pelo seu forte magnetismo pessoal, que está sempre em alta. Dica: a mulher canceriana não pode ver homem nu que pega o caralho dele e atocha logo no cu.

Leão – Com as mulheres de leão deve ser explorado o seu orgulho, o seu gosto pelo inusitado e a sua vontade de correr perigo. Gostam de fazer amor nos lugares mais incríveis, como guichês de banco 24 horas e estacionamento de estádios de futebol em dia de jogo. São egocêntricas, orgulhosas, amam o luxo e detestam as falsificações. Apesar de tudo, são tradicionalistas e têm bem desenvolvido o instinto maternal, razão pela qual gostam de uma mamadeira. Quando estão na cama, são uma fera: mordem a fronha, riscam a parede e roem o colchão, principalmente quando estão dando a bunda. Dica: a mulher leonina gosta muito de trepar, mas prefere casar com fresco que ver seu macho brochar.

Virgem – Com estas é aconselhável ser precavido, dar-lhes proteção, estabilidade, mas com cuidado, pois são minuciosas, analistas e maliciosas. São fiéis e devotadas, e não suportam uma infidelidade, mesmo que, para isso, lhes apresentem boas razões. Têm medo de quase tudo, principalmente de ratos, baratas e de trocar fusível. Apesar de parecerem maternais e carentes, também sabem ser terrivelmente cruéis e aproveitadoras. Em geral, precisam apenas praticar mais esportes, tais como jogar tênis, andar de bicicleta, praticar natação e sobretudo correr atrás de um homem, para perder o cabaço. Dica: toda mulher virginiana tem tendência pra piranha, quando põe pica na boca chupa quase uma semana.

Libra – Com estas não há necessidade de ser tão escrupuloso, porque amam a paz, e não aprovam a violência. Amam a serenidade, a beleza e o luxo sem ostentação, gostam de cooperar em quase tudo, são egoístas, mas não procuram complicações. É obrigatório, forçoso, explorar seu instinto maternal. Fazer-se passar por um ser desprotegido e temeroso. Agindo assim, a mulher de libra o tomará nos braços, para protegê-lo e atendê-lo. Sua capacidade de cooperação facilita as parceiras e associações amorosas, e faz com que ela se alie aos outros em torno de interesses comuns. Dica: toda mulher de libra possui a xana apertada, mas quando fode a noite inteira de manhã acorda assada.

Escorpião – São mulheres perigosas em muitos aspectos. São agressivas, ciumentas, possessivas, pouco fiéis, solitárias e não se importam com as demais pessoas. São mais emotivas e passionais no amor que as mulheres de qualquer outro signo. Conhecem a angústia e desfrutam dela como ninguém. Têm bem desenvolvido o instinto maternal, mas pode tornar-se perigoso provocá-las nesse sentido, pois são dominadoras em extremo. Se bobear, a mulher de escorpião o subjugará totalmente, sem apelação. Amar alguém assim pode ser o fim da picada. Dica: mulher de escorpião é peituda e boazuda, mas só goza de verdade quando a pica é cabeçuda.

Sagitário – Com estas é necessário ser audaz, pois elas são tímidas, joviais, calorosas, francas e honestas. São muito crédulas, conservadoras e burguesas, e é preciso usar o luxo para impressioná-las. São mulheres muito receptivas e fazem o que lhes pedem, mas também são independentes. Por isso é necessário saber como pedir. Não dê uma de bom-moço pra cima delas, pois odeiam os débeis mentais. Elas preferem os cafajestes. Cuidado com as que se aproximam de você com um imenso sorriso nos lábios: elas podem estar apenas querendo vender um carnê do Baú. Dica: mulher sagitariana é fingida e mentirosa, se queixa que ainda é virgem mas se amarra em dar o toba.

Capricórnio – São mulheres frias, graves, sérias e lógicas. Detestam o superficial e gostam de sofrer de vez em quando. São ambiciosas e se deslumbram se são cortejadas por um homem perverso, sem finura, mas como elas ambicioso. Contentam-se com o pouco que lhes dêem, porque são avaras e gostam de economizar. São duras e pouco carinhosas, mas ao mesmo tempo responsáveis. Não dizem ou fazem nada impulsivamente e estão sempre alertas para não provocar situações indesejáveis. São insuportavelmente secas. Dica: mulher de Capricórnio tem um amante felizardo, todo dia, toda hora, agüenta vara no rabo.

Aquário – São anticonformistas, revolucionárias, aprovam todas as mudanças. Se você é um artista ou um guerreiro, dela obterá tudo. São fiéis e vivem para um só homem. Detestam as aventuras fugazes, mas proponha-lhes todas as mudanças que desejar, que elas concordarão. Costumam ter grandes habilidades nas relações afetivas, evitando sempre situações confusas. Medem as palavras e valorizam o silêncio, para refletir. Provocadas, esquecem a diplomacia e compram qualquer briga. Às vezes se deixam levar pela franqueza excessiva, provocando ressentimentos à sua volta. Dica: a mulher aquariana tem uma xana profunda, agüenta dois palmos de pica e mais três dedos na bunda.

Peixes – São as mulheres mais difíceis, não tanto para conquistar, mas compreender. Têm conflitos internos graves, e como nunca abrem o jogo, não sabe como enfrentá-los. São muito emotivas, sonhadoras, passivas e preguiçosas, embora muito boas e criativas. Procuram, pelos menos, compreender as pessoas, mas são muito orgulhosas. Nada que faça as impressionará. Nada que diga as ajudará. São elas que escolhem o homem que desejam. Odeiam o auto-suficiente e protegem o débil e desamparado, mas o principal problema delas é que têm o rabo cheio de espinhas. Dica: a mulher nascida em Peixes quando cresce vai pra zona, pois além de fingir que goza se torna grande chupona.

Que tipo de indie você é?


Lucio Ribeiro

Teve uma época, não faz muito tempo, que o indie (abreviatura de “independent” para os mais chegados) era um ser bizarro, esquisito, de gostos estranhos, mas ainda assim um ser etéreo, que alguns até sabiam que existia, mas nunca tinham visto um. Ninguém, a não ser a turminha próxima, o conhecia e reconhecia como tal.

Tempos depois, há uns dez anos, o indie foi parar até na “Veja” (acho que a SP), que fez um daqueles toscos e estúpidos “o que é”, apontando o que vestia, calçava, quantos bottons precisava usar, onde ia, o que comia. O ser indie passava a ser real, ganhava uma cara perante as pessoas “normais”.

Hoje em dia, populoso e multiforme, tipo um monstrinho de vários tentáculos, nem eu entendo mais exatamente “o que é” o indie.

A cada ano que tem passado ele me impressiona. Sempre gostei do papo indie x mainstream e de perder tempo com isso. Só que hoje temos tantas vertentes para botar na roda que a discussão fica muito mais interessante. Sou só eu ou vocês também acham que em 2015 o indie NÃO morreu (como se previa)? É impressão minha ou ele passou por umas metamorfoses estranhas e…

Bom, sem querer abusar da manjada pauta antropológica “tribos”, mas já abusando, o “conselho Popload” listou aqui toscamente alguns do vários tentáculos indies que surgiram e/ou se fortaleceram neste ano. Você deve se encaixar em um deles. Ou não. Mas avisa aí qual é a sua para eu atualizar a lista. E claro, estamos de olho em 2016 para ver onde tudo isso vai dar:

* o indie-fenômeno: do tipo Mallu Magalhães. Não preciso nem resumir a história, essa você já cansou de ler. Quem será o indie-fenômeno nacional de 2015? A sua sobrinha de 6 anos? Ou vai ser aquela banda que acabou de se formar via Facebook, postou os links do MySpace no twitter e daí…

* o indie-folk: é só checar qualquer lista de melhores do ano e o neo-folk vai estar lá. O cara indie-folk é intelectual. Acha que festa em clubinho não está com nada. O que pega mesmo são as festas nas casas, com a turminha, (pouca) cerveja, (pouco) ‘clima de paquera’ e muita música. Além do novíssimo folk dos Fleet Foxes, ele também curte um indie-clássico (Pavement no máááximo), algumas obscuridades da MPB e barulhos experimentais e matemáticos.

Tem um violão, escreve melodias e tem uma banda folk, mas também um projeto solo. Curte o visual lenhador: barba e camisa xadrez. Freqüenta as casas dos amigos e a festa quinzenal Folk This Town, no Bar B (Santa Cecília). Olha só o release da festa: “A Folk This Town abre espaço para os violões, sussurros e um clima mais intimista – nada de “pista fervendo”, o negócio é gente sentada, boa companhia e ótimo som.” Este sábado é a sua grande chance de engrossar o movimento. A turma indie-folk se apresenta na ótima festa La Pastie de la Bourgeoisie.

* o indie-de-boa: aquele que tanto faz como tanto fez. Pode ser um cantor folk de quem ele nunca ouviu falar, uma banda qualquer de Pernambuco ou um trio sueco. Ele está em todas. Quer conhecer coisas diferentes e está aberto a novidades. Freqüenta o Studio SP, escuta a Oi FM e de dia veste a roupa de firma, mas à noite tira o All Star do armário.

* o indie-Global: é o fã da “banda da Capitu” (Beirut, para os íntimos). Ou da “banda do assobio da novela” (coitados dos Peter Bjorn & John). O indie que não sabia que era indie até ficar fissurado pela trilha do “Grey’s Anatomy”.

Digamos que esse tipo de indie global, democrático e das massas, por assim dizer, chegou onde não se podia sonhar. Dos bombados seriados de TV internacionais, a reality shows culinários, passando pelas novelas globais, novelas não globais, trilha do “Fantástico”, comerciais e games.

* o indie-do-indie: de todas as “tribos” (ops, escapou) do indie, talvez a mais antiga delas seja a dos indie-do-indie, ou, os indie xiitas. E talvez seja também a mais confusa. Não querem ficar famosos, não querem reconhecimento, não querem virar capa de revista, não querem entrar em nenhuma lista de  “Melhores do Ano” e muito menos ganharem resenha no Pitchfork.

Pense na festa Albatroz do Milo, na noite da Peligro no Neu e na Festa Mágica da Livraria da Esquina. Nada de música para cantarolar, ou aquela que você ouviu na rádio, ou aquele remix bombado… Nem pense em pedir Kings of Leon, por exemplo. E, se chamar o lugar de “baladinha rock”, não entra.

* o indie-contestador: adora reclamar. Acha que sua missão na Terra é exterminar o lado negro da força: o HYPE. Tal banda é fabricada, tal CD é mais do mesmo, leu na “Uncut” a “verdadeira” história da banda X, tal show é presunçoso, essa banda não vai durar um mês, a música não é mais como era antigamente, a molecada não sabe de nada, no meu tempo blablá…

Esse é o cara que, entre o show do Jesus & Mary Chain e do Foals, escolheu o primeiro. Não sabe quem é Foals, não quer saber e cospe em quem sabe.

Ele lê blogs de música, mas diz que é só para falar mal. Prefere comprar CD nas lojas, mas na verdade ainda não aprendeu a baixar mp3. Freqüenta shows de bandas ressuscitadas ou vai a discotecagens de integrantes de bandas ressuscitadas.

De tão contra o indie, o indie-contestador acaba virando um indie-mor, um outro tipo de indie xiita (percebe para onde vão os tentáculos do indie?). Gosta de hip hop africano, metal árabe, e rádios neo-zeolandesas.

* o indie-publiça: galera publicitária e cheia da grana que dá (quase) a volta ao mundo correndo atrás de shows. Porque eles podem. E porque entre um cruzeiro nas Ilhas Gregas e uma passagem para ver Franz Ferdinand no clubinho The End em Londres, o último é muito mais interessante. A festa quinzenal Party Intima (no bar Audio Delicatessen) está cheio deles. É indie-coisa-fina.

* o indie-geek: ele sabe de todas as baladas, de todas as festas, de todas as estréias no cinema e de todos os novos torrents do dia. Assina todos os blogs que vê pela frente e é um poço de links: de vídeos bizarros no YouTube a links em primeira mão para todos os CDs que vazaram no minuto.

Apesar de tudo isso, ou por causa de tudo isso, sai pouco. Quando sai. Bem mais “humilde” que o indie-publiça, na maioria das vezes não tem dinheiro para tanto festival acumulado, mas se contenta em ver tudo pelo YouTube alheio ou pelas coberturas do Twitter.

É aquele que só faz mixtape para namorada se for via Rapidshare. Aliás, os dois só se encontram no MSN. Mesmo que trabalhem na mesma sala. O indie-geek adora com a mesma intensidade o seriado “Battlestar Galactica” e o DJ Yoda.

* o indie-fashionista: nem só de eletrônico vive o povo da moda, Brasil! Das trilhas dos desfiles às pistas fervidas, o indie bombou remixado. A pista só não vira passarela porque não tem espaço. Os indies-fashionistas se produzem como se cada passo fosse um flash. Como se cada DJ fosse um paparazzo. Carão, cabelão, glamour, montação, salto alto e pegação. A festa VAI, no Gloria, que o diga. O pretinho básico não é recomendado.

* o indie-carimbó: ele abomina a lambada, mas requebra o quadril ao som da banda indie Do Amor, que faz uma mistura nonsense de rock + lambada + technobrega + MPB. É carimbó distorcido, quase que um Calypso encontra Los Hermanos.

E atenção! O Rio de Janeiro tomou pra si o movimento e migrou “a parada” para as pistas de rock. O culpado disso tudo é o DJ hype carioca João Brasil. Dizem que a deliciosa versão lambada (aka, “Tropical Remix”) que ele fez para “Left Behind” do CSS coloca fogo na pista. Já foi nas explosivas Festa Calzone, que costuma rolar em Botafogo?

* o indie-festa: é trabalhador, responsável, mas… bebe até cair, sai todos os dias, vai para o trampo direto da balada, se joga no karaokê rock, adora bancar o DJ nas festas dos amigos, abraça geral e adora demonstrações públicas de afeto. Um fanfarrão. Dá uma espiada na festa Funhell da Funhouse ou na picape da festa CREW do Gloria. Sim, a festa pega dentro da picape mesmo.

* o indie-porra-lôca: ele simplesmente extrapolou na fase indie-festa. Faz todas as coisas acima, mas nunca sabe quando parar. Adora palavrões, barraco e rock & rolllll garageiro. Dança fazendo chifrinho com as mãos, fazendo air guitar. Desceu a Augusta, passou pelo Inferno, caiu na OUTS, entalou no banheiro e por aí vai. Lê o blog do Finatti.

* o indie-celebrity-stalker: não costuma sair muito de casa, mas se ele souber do menor boato que a banda X vai ao lugar Y, ele corre. Atravessa a cidade para encontrar o Michael Stipe na pista e fingir que não sabe que é o Michael Stipe na pista.

Música aqui é o de menos. O que vale é dançar com a Madonna, dividir a champagne com o MGMT ou segurar a porta do banheiro pro Michel Gondry. O indie-stalker se deslumbra, mas mantém a pose. Não tira fotos e prefere fazer a íntima. Solta um “bye Michael!” no final. Freqüenta - se estiver na lista, claro - o “Bar Secreto”, o bar que continua “sem nome”, mas já não é mais secreto.

Você deve estar perguntando onde eu entro no meio disso tudo?... Ah, foda-se, eu não tenho nada a ver com isso!

sábado, 15 de agosto de 2015

Os Grandes Mestres da AMOAL – Antonio Maria (10)


Pernambucano do Recife, onde nasceu a 17 de março de 1921, Antônio Maria de Araújo Morais, ou simplesmente Antônio Maria, foi um dos maiores cronistas brasileiros do seu tempo e também um respeitado grande mestre da AMOAL.

Compositor de sucessos inesquecíveis como “Ninguém me ama” ou “Se eu morresse amanhã”, ele foi locutor esportivo, poeta e radialista. Mas, para companheiros de farras como Vinícius de Moraes, Fernando Lobo e outros, sua marca maior foi, sem dúvida, a boemia.

E foi como boêmio que Maria morreu, na noite de 15 de outubro de 1964, no Rio de Janeiro, ao entrar no bar Red Point, perto de sua casa, para trocar um cheque. Ele se sentou a uma mesa e, enquanto esperava o dinheiro, passou mal. Emborcou sobre a mesa e ali mesmo o coração parou. Enfarte fulminante.

Neto e filho de usineiros, antes da glória de ver suas músicas nas paradas de sucesso (interpretadas por Dolores Duran, Nora Ney ou Maysa), Antônio Maria viveu dias um tanto difíceis. Primeiro, no Recife, em meados da década de 30, quando os negócios da família decaíram e ele, ainda adolescente, teve que arranjar um emprego na Rádio Clube de Pernambuco, para bancar as já freqüentes noitadas no bar Gambrínus e no Cabaré Imperial.

Depois, a dureza continuou no Rio de Janeiro, para onde viajou em 1939, com Fernando Lobo, para “tentar a vida”: seu trabalho, como locutor esportivo na Rádio Ipanema, não agradou e ele chegou a passar fome. Frustrada a primeira tentativa de morar no Rio, Antônio Maria retornou ao Recife, onde gostava de narrar, sobretudo, os jogos do seu clube, o Sport.

Em seguida, convidado por Assis Chateaubriand (chefe dos Diários e Emissoras Associados), aceitou o cargo de diretor da Rádio Clube do Ceará e, já casado com sua primeira mulher, seguiu para Fortaleza. Depois, mudou-se para Salvador, também convidado para a direção das Emissoras Associadas da Bahia. Antonio Maria permaneceu no Nordeste até 1948 quando, mais uma vez, embarcou para o Rio de Janeiro.

Foi a viagem definitiva para a cidade maravilhosa, onde iria conhecer o sucesso e viver mil aventuras. Antonio Maria passou a dividir um apartamento com Fernando Lobo na rua do Passeio, no Centro, onde seguidamente o também pernambucano Abelardo Barbosa (futuro Chacrinha) ia se convidar para o jantar. O “velho guereiro” sempre ganhava comida, mas antes passava por alguma sacanagem da dupla, como ter que tomar banho gelado.

Em 1949, Maria já era diretor da Tupi, cargo em que se manteve até sair da emissora. Continuava à frente do microfone, onde narrava e produzia O Tempo e a Música, às quintas, às 21h.

Ainda em 1949, ele foi convidado por Ary Barroso para inaugurar um novo tipo de narração de futebol: dois locutores, cada um narrando a posse de bola de uma das equipes. Por exemplo: num Flamengo x Vasco, Ary narraria bola com o Flamengo e Maria, bola com o Vasco. A idéia funcionou bem e foi aplicada na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil.

A decepção de Maria e Ary com a derrota do Brasil na Copa de 50 foi total. Ary largou a narração esportiva (só retornou após quase 10 anos), enquanto Maria continuou, para cumprir seu contrato, embora não sentisse mais nenhum prazer na atividade. Há indícios de que Maria era vascaíno.

Sendo amigo de Fernando Lobo, Antonio Maria começou logo de cara a freqüentar os grandes pontos da boemia carioca, como o Vilariño e o Clube da Chave, onde sempre estavam Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Sérgio Porto (com quem disputou o amor de várias vedetes), Millôr Fernandes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Aracy de Almeida e Dolores Duran.

Já assinando uma coluna no O Jornal, Antônio Maria torna-se, a 20 de janeiro de 1951, o primeiro diretor da primeira emissora de televisão instalada no Brasil, a TV Tupi do Rio. Mas graças ao dinheiro que o governo Getúlio Vargas despejou em troca de apoio político, no final de 1952 a rádio Mayrink Veiga partiu para o ataque contra a Tupi e passou a contratar seus grandes nomes.

Antônio Maria foi um dos primeiros contratados, por 50 mil cruzeiros, o mais alto salário do rádio no Brasil. Logo comprou seu primeiro Cadillac, símbolo de status entre os reis do rádio naquela época.

Vida financeira organizada, é também a partir de 1951 que ele dá partida à carreira de compositor, compondo “Frevo n° 1 do Recife”, gravado pelo Trio de Ouro. E, apesar de ter como atividade principal o jornalismo, foi justamente com a música que ele ganhou fama. Durante 15 anos de trabalho, só ou em parceria com Fernando Lobo, Luís Bonfá, Vinícius de Moraes, Ismael Neto e outros, compôs um total de 63 músicas.

Como cronista, Maria atuou em vários jornais e revistas, entre os quais Diário Carioca, O Globo, Manchete. Mas foi no Última Hora, segundo Paulo Francis (um dos seus companheiros de noitadas), que ele teve a sua melhor fase. Poético, gozador, Maria escreveu sobre tudo: mulheres, política, boemia, solidão.

Homem de muitas atividades, Antônio Maria foi também produtor e diretor de shows e programas de televisão. Por conta da boemia, sempre trocava o dia pela noite, mas dava conta de tudo. Teve época em que fazia, simultaneamente, três programas semanais na Rádio Mayrink Veiga, um programa na Rádio Nacional, uma crônica para a revista Manchete, uma para O Globo e seis para o Diário Carioca e, de quebra, ainda arrumava tempo para compor, enchera cara de birita e correr atrás dos rabos de saias.

Na televisão era famoso o programa “Preto no Branco”, de Oswaldo Sargentelli, onde sempre aparecia uma “pergunta de Antônio Maria, da produção do programa”, geralmente muito embaraçosa. A câmera focalizava em plano fechado o rosto tenso do entrevistado e em seguida ecoava a voz do apresentador, em off: “Pergunta de Antônio Maria para Alziro Zarur, da Legião da Boa Vontade: Senhor Alziro Zarur, se Jesus está chamando, porque o senhor não vai logo?”.

Um dia perguntou a Sandra Cavalcanti, candidata a deputada: “Quer dizer, dona Sandra, que a senhora é mal-amada?” A resposta de Sandra, dizem os espectadores da cena, assegurou-lhe a eleição. “Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música Ninguém me ama”.

Nos últimos meses de vida, já doente do coração e um pouco afastado das madrugadas, montou com Ivan Lessa, no Rio de Janeiro, um escritório de produções para TV. Do seu primeiro casamento (com a pernambucana Maria Gonçalves Ferreira), teve dois filhos: Maria Rita e Antônio Maria Filho. E, como todo boêmio, amou muitas mulheres, milhares delas.

Segundo José Aparecido, a última grande paixão de Antônio Maria foi Danusa Leão, que ele roubou do proprietário do jornal Última Hora, Samuel Wainer, e por isso foi demitido, passando cinco meses desempregado.

Quando conseguiu um novo emprego, a primeira crônica que Maria escreveu tinha o título “O bom caráter” e começava assim: “Aqueles que dizem que mulher de amigo meu pra mim é homem estão enganados; porque mulher de amigo meu é mulher mesmo.”

Quando sofreu o enfarte, Antônio Maria já estava separado de Danusa Leão, que se reconciliaria, em Paris, com Samuel Wainer. E José Aparecido, que seis meses antes havia dividido um apartamento com o cronista, depois contaria: “Estávamos numa situação muito difícil. Eu, cassado e o Antônio Maria vivendo a sua mais profunda crise sentimental. Foi o único homem que vi morrer de amor”.

Mesmo sendo uma pessoa extrovertida e de muitos amigos (e inimigos), Maria, como era chamado por eles, sempre teve a solidão dentro de si. Um exemplo está em sua crônica “Oração”, escrita em março de 1954:

“Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins — isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci — raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e “Navio Negreiro”, de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho — de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: “oh!...comment allez vous? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja (...)”

Aracy de Almeida foi uma de suas grandes amigas. Sabia tudo sobre Antônio Maria e, mesmo assim, como dizia brincando, continuava a gostar dele. Era desprovido de qualquer cerimônia: uma vez pediu a ela ajuda para colocar um supositório (“Já tentei todas as posições e não consegui nada.”).

Em outra oportunidade, ele e Vinícius de Morais tentavam cumprir um compromisso assumido: fazer um jingle para o lançamento de um... regulador feminino. Estavam com inúmeros outros trabalhos e foram pedir ajuda a Aracy. Ela, sem pensar muito, tomando emprestada a melodia de O orvalho vem caindo, de Noel, atacou de pronto: “O ovário vem caindo...”.

Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal. É Cony que conta: “Um dia, Maria me telefona: – Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou! Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica leitora apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. “– Mas, Maria...” era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. “– Fica tranqüilo, Cony, fica tranqüilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama.” E Cony, curioso: “– E ai?” “– E aí foi que aconteceu o problema” – gargalhava Maria. “– E ai você broxou, Cony, você broxou!”

Certa ocasião, estava em cima da hora de um programa entrar no ar e, enquanto Chico Anísio e todo o elenco aguardavam ansiosos, Antônio Maria datilografava feito louco para terminar o texto a tempo. Nesse instante, entra uma senhora na redação e diz: “Olhe, eu sou da Campanha Contra o Câncer...” Preocupado em cumprir sua tarefa, sem levantar os olhos da máquina, Antônio Maria, responde: “Eu sou a favor”.

Antônio Maria costumava ir do Rio a São Paulo, em companhia de Vinícius de Moraes, para encontrar companheiros de farras. Numa dessas viagens, combinaram o encontro no apartamento de um deles e, quando chegaram ao edifício, notaram um princípio de incêndio. Da portaria, Antônio Maria telefonou: “Olha, desçam logo, mas não avisem a ninguém, porque senão vocês vão ter de dar preferência aos velhos e às crianças.”

Por causa de Elis Regina, Ronaldo Bôscoli apelidou Maria de “Eminência Parda” e “Galak”, numa gozação com a pele mulata do rival. Mas talvez não soubesse das suas dimensões: Antonio Maria media 1,85m e pesava 130 kg. Certa noite, Maria procurou Bôscoli no Beco das Garrafas, em Copacabana, para brigar. O diretor da gravadora Elenco, Aloysio de Oliveira, amigo dos dois, divertia-se com a cena, mas, quando o conflito parecia inevitável, Aloysio urinou no sapato de Maria. Este parou de discutir, os três caíram na gargalhada e foram beber juntos.

Conta Stanislaw Ponte Preta que, certa vez, Maria recebeu o pedido do diretor da TV Rio Péricles do Amaral para reescrever um texto humorístico. O programa era horrível, e a emissora mantinha outro redator só para piorar os textos. Ao saber do pedido, Maria entrou na sala do diretor com cara de mau, jogou seu texto em cima da mesa e disse: “Está aqui minha parte do programa. Eu sinto muito, mas pior do que isso eu não sei fazer”.

Em 1990, Paulo Francis escreveu que, na véspera do infarto fulminante, Maria “detonara muito” com cocaína, porque Vinicius lhe dissera que Danuza estava muito feliz na França, podendo ser vista na garupa da moto de um príncipe dinamarquês.

Em 94, Ronaldo Bôscoli, pouco antes de morrer, também afirmou que Maria usava cocaína e mostrou que continuava ressentido com o antigo rival, tratando-o por canalhão e babaca em suas memórias (livro “Eles e Eu”). Já o cineasta Paulo César Saraceni, que em 61 convivera com Maria porque namorava Nara Leão, irmã de Danuza, escreveu em 1993, no livro “Por Dentro do Cinema Novo”: “Antônio Maria tinha fama de cheirar pó, mas nunca vi, se fazia era um profissional, discretíssimo”.

No dia 15 novembro de 1964, Vinicius de Moraes publicou a crônica “Morrer num Bar”, escrita no dia da morte do amigo:

“Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer.

Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não agüentava mais de saudades – aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte.

Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone – eram nove da manhã – eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: “É o Maria!” E ao descer correndo para a pensão fazia planos : “Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos…” E ainda a caminho fiquei pensando: “Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?...” Mas você, há uma semana – quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta – me tinha tranqüilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia.

Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: “Você tem medo de morrer, Poesia?” “Medo normal, meu Maria”, respondi. “Pois olhe: eu não tenho nenhum” retorquiu você sem qualquer bravata na voz. “Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza.”

Mas como eu descesse – dizia – para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: “Você sabe, Antônio Maria está muito mal...” e eu instantaneamente soubesse... – justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: “Sabe, meu filho, seu pai está muito mal…”, o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? – onde?

Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer…

Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: “Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?” “Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar...”

Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápído e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu “Jornal de Antônio Maria” o seu “Romance dos pequenos anúncios”, que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou...

Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na idéia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. “E Rubem Braga…”, acrescentou você depois, brincando com ternura, “Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha...”

Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorrne ainda, meu Maria...) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.”

No Amazonas, atualmente, existem apenas 33 grandes mestres da AMOAL, em graus variados de evolução. Eles todos, invariavelmente, são pessoas bem-sucedidas profissionalmente, amigos dos amigo, companheiros camaradas, fervorosos incentivadores das artes e da cultura e que, por isso mesmo, constituem uma pequena elite dentro da intelligentzia baré.

Portanto, os únicos que podem abrir novas tascas da AMOAL, falar em seu nome, presidir os encontros da ordem e batizar novos cavaleiros templários sãos os seguintes:
Simão Pessoa (engenheiro), Mário Dantas (jornalista), Orlando Farias (jornalista), Simas Pessoa (analista de sistemas), Edmilson Bandeira (empresário), Fares Abinader (pró-reitor da UEA), Marcílio Freitas (secretário estadual de Tecnologia), Marcus Barros (cientista do INPA), Marcos Rotta (deputado federal), Stones Machado (empresário), Sidônio Gonçalves (ex-prefeito de Tefé), Marco Antonio Chico Preto (ex-deputado estadual), Raimundo Geraldo (empresário), Wilson Périco (empresário), Mariolino Brito (delegado da Polícia Civil), Sergio Roberto Marques (empresário), Felix Valois (advogado), Carlos Lacerda (sindicalista), Rogelio Casado (psiquiatra), Rubem Fonseca (médico), Adalberto de Melo Franco (empresário), Francisco Avilar (empresário), Raul Andrade (empresário), Carlos Tadeu Barretos (empresário), Eliezer Gonzales (advogado), Ângelus Figueira (ex-prefeito de Manacapuru), Joaquim Marinho (radialista), Zemaria Pinto (poeta), Marco Antonio Ribeiro (crítico musical), Sergio Bastos (designer gráfico), Marcos Gomes (poeta), Aldisio Filgueiras (poeta) e Sergio Luiz Pereira (poeta). O resto é coisa de viado.

Os Grandes Mestres da AMOAL – Sergio Porto (9)


Sérgio Porto e suas três filhas

O cenário é um café. Um alemão “forte pra cachorro” está tomando umas e outras. De repente, ele provoca: “Aqui dentro não tem homem pra mim!” Um turco, igualmente forte, se apresenta, leva um murro e vai ao chão. Então um português, ainda mais forte, parte pra cima do alemão. A mesma coisa: um murro e o lusitano tomba sem sentidos.

Depois foi a vez do inglês, do francês, do norueguês apanharem. E sempre depois de nocautear um desafiante, o alemão repetia que ali não tinha homem pra ele. Até que um brasileiro magrinho levantou-se lá no fundo, perguntou “é comigo?”, o alemão disse “pode ser”, e o brasileiro foi chegando cheio de ginga pro lado do teutônico, parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma traulitada na cabeça que o deixou arrebentado.

A história acaba aí “que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros”. Este é um resumo da crônica “Vamos acabar com esta folga”, do Stanislaw, a fina flor dos Ponte Preta, publicada em Tia Zulmira e Eu, seu primeiro livro. Ele não suportava esse defeito do brasileiro de ser assim tão folgado.

Pois é, gafanhoto, se existem coisas que contando ninguém acredita, o carioca Stanislaw Ponte Preta é uma delas. Ele nasceu robusto de zombaria e irreverência em 1951, na redação do Diário Carioca. Jacinto de Thormes deixara vaga a coluna social do jornal e Sérgio Porto foi convidado a ocupá-la. Sérgio não aceitou, mas criou (com a ajuda de Rubem Braga, dizem) o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (inspirado no Serafim Ponte Grande, livro de Oswald de Andrade), para que “Stan não prejudicasse o Sérgio. Isto é, eu, Sérgio, queria escrever coisas sérias; o Stanislaw deveria abordar assuntos inconseqüentes”. A apresentação de Stanislaw ficou assim:

Tremei, cronistas menores, moçoilas que volitais em nossas ribaltas, regozijai-vos! Eis que cá está o mais vivo dos Ponte Preta, o mais fero dos colunistas, o mais noticioso dos noticiadores. Nada puderam contra mim as manobras golpistas que tramavam a derrubada daquele que representa a vontade popular. Stanislaw, exilado em si mesmo, para evitar despesas de viagem, esperou o momento oportuno e aqui está, para gáudio de seus leitores, empunhando sempre em defesa do interesse comum, a sua intemerata e brilhante pena: uma intimorata Remington semiportátil! E após esse intróito tão impregnado de modéstia, no estilo dos colunistas modernos, Stanislaw passa, muito a contragosto, a falar dos outros!

E como falou! Desancou todo mundo. O Lalau era fogo na jacutinga. Ele se dizia um “humorista a sério” e definia seu estilo como “lírico-espinafrativo”. Falava tudo na bucha e não fazia prisioneiros. Gozava até dos “coleguinhas” de imprensa. O colunista social Ibrahim Sued era seu alvo favorito e Lalau não perdia a chance de espinafrar o “famoso escritor líbano-carioca”:

Imaginem vocês que Ibrahim – agora em viagem pela Europa, para desmentir definitivamente a máxima "quem viaja aprende" – vem de publicar uma notinha das mais importantes. Diz o mestre de Jeff Thomas, o inspirador de Pouchard, que andou conversando com o Duque de Windsor. Para castigar um pouco de modéstia no seu escrito, o famoso "dramaturco" explicou que não conversou em português, o que, aliás, deve ser verdade, pois o duque fala um pouquinho de português, mas Ibrahim não.

O Festival de Besteira que Assola o País – FEBEAPÁ, para os íntimos – começou a ser anotado no livro Garoto Linha Dura, de 1964, o ano da “redentora”, que era como Stanislaw chamava a revolução militar, que deu um grande impulso ao Festival. Dois anos depois, o febeapá ganhava um livro próprio. As notas foram recolhidas da sua coluna “Fofocalizando”, na Última Hora, e editados “na base da bagunça, pra respeitar a atual conjuntura”, como ele explicou no prefácio. Eis alguns tópicos:

Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava um programa de televisão e avisava ao público: "Estarei aqui diariamente às terças e quintas”.

Em Belo Horizonte, um delegado espalhou espiões pelas arquibancadas dos estádios porque "daqui pra frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso".

Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: "Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas".

Em sua luta contra a burrice reinante, Stanislaw combatia entrincheirado nas areias de Copacabana, que ainda era a “Princesinha do Mar”. Era onde lia os jornais, pescando notícias para comentar em sua coluna. Enquanto teve fôlego, foi o goleiro do Lá Vai Bola, time da praia que na linha tinha João Saldanha e Heleno de Freitas. Adorava futebol, inclusive o de botão, e torcia pelo Fluminense. Na Copa do Mundo de 1962 a Fatos & Fotos queria matérias “diferentes” e mandou Stanislaw para o Chile. O embate é contra o México. Sente o drama:

Começa o pega. (...) O Brasil está nervoso. Tá parecendo o misto do Campo Grande em dia de treino. (...) Só no segundo tempo Pelé se lembrou que era Pelé: apanhou a leonor no meio do campo, puxou todos os mexicanos para a direita (vieram todos, de Juarez ao Trio Los Panchos) e deu um passe a Zagalo lá na esquerda, que só teve o trabalho de testar para o véu da noiva. Depois Pelé dava outro passeio pela vereda tropical e da entrada da área venceu o goleiro Carbajal. E foi só.

Que delícia, heim? Vamos então relembrar, com narração do Lalau, os melhores momentos desta conquista, pois vale a pena:

Brasil 2x1 Espanha
Os espanhóis (estão) encolhidos, e não é por causa do frio, é tática mesmo. Do lado da equipe brasileira a bola só vai no fim do mês, pra receber o ordenado. Mas o que a gente pensava que ia ser um carnaval carioca virou uma fiesta brava. (...) Bola no peito de Zagalo, que estica, o lotação Vavá-Largo da Abolição entra no seu itinerário e atropela um pedestre com a camisa da Espanha. O major Puskas dá uma cipoada em Mauro e é advertido. Mas estava escrito e o major apanha a bola, estica pelo meio, Mauro ainda estava pensando numa bobeada anterior e deixa o número 18 deles entrar livre e abrir a contagem. Foi chato. (...) Os nossos estão fazendo o possível, mas pra ganhar este jogo melhor seria fazer o impossível... e é gol! Zagalo foi genial. Depois eu explico, agora de jeito nenhum. Melhorou o Brasil, até Mauro faz uma jogada certa. (...) Garrincha vai devagarzinho, de repente vira foguete, é João pra tudo quanto é lado. Ele centra, Amarildo dá de testinha. É gol, meninada!

Brasil 3x1 Inglaterra
Bate Zagalo, pula seu Mané, pequenino, no meio de diversas Torres de Londres. E é gol dele! (...) Didi come Norman por cima, à la Dominguin, e dá o melhor passe do campeonato para Amarildo. (...) Garrincha oferece um cocktail party no meio da área deles e por pouco não coloca a leonor lá dentro. (...) Greaves dá de balãozinho para dentro da janela de Gilmar, a bola bate na veneziana, volta para Hitchins e é gol. Deles. (...) No segundo tempo, Garrincha continuou garrinchando e deu um gol pra Vavá fazer e parar de gritar pedindo a bola. O jogo tá tão fácil que vovô Nilton Santos sai passeando com os netinhos pela alameda de Sausalito.

Brasil 2x1 Tcheco-Eslováquia
Os tchecos não chegaram à final por acaso, eles dominam a leonor com a mesma facilidade com que o Cartola da Mangueira domina o telecoteco. (...) E lá vai Manuel, o Venturoso. Tem quatro cercando ele, mas é pouco. (...) Mauro bobeou e Masoputz botou o camarada do placar pra trabalhar. E é gol, Amarildo, nem bem eu tinha acabado de escrever a frase acima e Amarildo... ah, menino bom! (...) Zito de vez em quando diz pro Didi güenta aí que vou ali mas já volto e seu Mané dá o primeiro grito de carnaval da tarde. Chutou raspando. (...) Seu Mané escorregou e caiu. Nervoso não é, porque Garrincha só fica nervoso nas peladas de Pau Grande. (...) Amarildo foi à linha de fundo e com calma impressionante esperou que um se colocasse. Quando Zito chegou foi só alçar a infiel por cima da muralha eslava. O sol atrapalhou e o lotação Vavá-Largo da Abolição botou a juriti pra cantar. (...) Os chilenos vinham vaiando o maior craque deste campeonato do mundo, mas agora seu Mané ficou com a bola no pé uns 30 segundos. Palmas do estádio inteiro. E acabou. O Brasil é bicampeão mundial de futebol!
(Entra a musiquinha do Canal 100: “Que bonito é...”)

Como todo grande mestre da AMOAL, Stanislaw atacava em todas: rádio, televisão, teatro, cinema. É dele o roteiro e os diálogos da chanchada E o Bicho Não Deu, de 1959. Mais tarde, histórias do livro As Cariocas (assinado por Sérgio Porto) também viraram filme. No rádio, escrevia humorísticos para a Mayrink Veiga, como Miss Campeonato, sobre futebol. Os livros com coletâneas de suas crônicas eram best-sellers instantâneos. Acima de tudo, era um mulherólogo. Mulherengo, também. Mulher era sua principal motivação.

Quando Jacinto de Thormes, “no tempo em que se dedicava a essa bobagem de escriba de soçaite, defeito que ele felizmente já corrigiu”, publicou na Manchete sua lista das Dez Mais Bem Vestidas do Ano, Stanislaw, também colaborador da revista – cobrindo (modo de dizer) o teatro rebolado –, pra não ficar por baixo inventou as Dez Mais Bem Despidas. Depois, quando seu pai Aurélio, com ele certo dia no ponto de ônibus, comentou “olha que moça mais certa”, as Mais Bem Despidas viraram As Certinhas do Lalau, que elegia, a cada temporada, as moças mais quentes.

Normalmente, as eleitas eram vedetes do teatro rebolado, como Aizita Nascimento, Gina Le Feu, Rose Rondelli, Esmeralda Barros, Zélia Martins, Carmem Verônica, Wilza Carla, Ilka Soares, Anilza Leoni, Íris Bruzzi, Angelita Martinez, Brigitte Blair, Mara Rúbia, Miriam Pérsia e Virgínia Lane. Eram lindas, mas de um jeito diferente das misses, porque eram bem mais desinibidas. Ao longo de 14 anos, foram 142 certinhas. Sergio Porto comeu quase todas.

Em 1956, Sérgio Porto ficou famoso em São Paulo ao participar, por 16 semanas, do programa O Céu é o Limite, da TV Tupi, respondendo – absolutamente certo! – as complicadas perguntas de Aurélio Campos sobre música brasileira. O homem era uma enciclopédia musical. Faturou o maior prêmio dado pelo programa até então: 300 mil cruzeiros (quanto isso valeria hoje?). Tinha adoração por Pixinguinha. Sua discoteca era imensa, falava-se em 30 mil discos, entre LPs e 78 rotações. Foi ele quem inventou o termo bossa-nova. O jazz era sua outra grande paixão musical, até escreveu um livreto sobre sua história. Gostava de trabalhar ouvindo música e de vez em quando tocava um trombone imaginário.

O filho da dona Dulce era um “boêmio que adorava ficar em casa” e trabalhava feito louco, o que, segundo os médicos, provocou seu primeiro infarto em 1959, aos 36 anos. Dois anos mais tarde, em carta à mulher Dirce, temporariamente ausente do Rio, ele listava o que andava fazendo:

Hoje fui gravar na televisão e antes foi aquela batalha contra as teclas. Estou trabalhando demais, outra vez. Só para esta semana: seis Stanislaws, um Fatos & Fotos, um final apoteótico para o novo programa do Chico Anísio, roteiro e script para aquela bosta chamada Espetáculos Tonelux, depois quadros humorísticos para a TV Rio, Miss Campeonato, Da Boca Pra Fora, o programa de rádio Atrações A-9, além da revisão do livro O Homem ao Lado que será reeditado no próximo mês e da gravação do programa Qual É o Assunto.

Detalhe: Sérgio ainda era funcionário do Banco do Brasil (Jaguar, que ilustrava seus livros, era outro). Pegava às 7 da manhã, tinha um expediente especial, sem obrigação de horário integral – quanto mais rápido ele terminasse sua tarefa, mais cedo saía. Demitiu-se em 1965, depois de 23 anos de serviço, dizem que por perseguição da “redentora”.

Perto do fim da vida, afastou-se da televisão e foi escrever revistas para o teatro rebolado. Numa delas – Pussy Pussy Cats, produzida por Carlos Machado –, Lalau perpetrou um “Samba do Crioulo Doido”, uma magistral paródia de samba-enredo. A gozação era em cima do Departamento de Turismo da Guanabara, que obrigava as escolas de samba a desfilarem apenas enredos baseados em fatos históricos. O samba extrapolou a ribalta e fez o maior sucesso na gravação do Quarteto em Cy. Sintetiza como a chamada “cultura carnavalesca” entende a nossa história:

Foi em Diamantina onde nasceu JK/ que a Princesa Leopoldina arresorveu se casá/ Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes/ e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes/ Lá iá lá iá lá iá... O bode que deu vou te contá/ Joaquim José, que também é da Silva Xavié/ Queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo/ Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo/ e falou com Anchieta/ O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro/ e acabou com a falseta/ Da união deles dois ficou resolvida a questão/ e foi proclamada a escravidão!/ Assim se conta essa história/ Que é dos dois a maior glória/ A Leopoldina virou trem/ e Dom Pedro é uma estação também / Ô-ô-ô-ô-ô-ô/ O trem tá atrasado ou já passou!

O samba originou o Show do Crioulo Doido, uma palestra musical que estreou no início de 1968 e teve mais de uma centena de apresentações pelo País, com um desinibido Stanislaw no palco, contando casos apoiado pelo Quarteto em Cy. Mas isso foi muito depois de ele dar um vexame daqueles na tevê. Foi quando o Brasil estava sendo atropelado pela modernidade e embora a televisão ainda fosse apenas um eletrodoméstico presente em poucas casas, já primava pelo mínimo denominador comum. Stanislaw a chamava de “máquina de fazer doido”. E exemplifica: certa vez assistia ao ensaio de um programa cuja música-tema começava assim: “Times Square é uma esquina...” Ele alertou o diretor que Times Square era uma praça. Mas isso não tinha qualquer importância.

Foi na máquina de fazer doido que Stanislaw teve seu único e retumbante fracasso. Isso em 1961. O programa que estreava na TV Rio chamava-se Noite de Gala, era ao vivo, e Stan era seu mestre-de-cerimônias. Acontece que ele morria de medo de encarar uma câmera de televisão e quando chegou a hora agá ele simplesmente travou, emudeceu de tanto nervosismo. Dizem que foi um dos maiores desastres da história televisiva brasileira. Mas Noite de Gala foi em frente e fez tanto sucesso que acabou levando alguns cinemas do Rio a cancelarem as sessões nas noites de segunda-feira, quando o programa ia ao ar.

Lalau, claro, não era mais o apresentador. Devido a este trauma de câmera surgiu a idéia de ele ser focalizado apenas por trás, eliminando assim a causa do problema – e então nasceu o segmento Stanislaw Ponte Preta de Costas para a Fama, com ele batucando uma “datilográfica” e tendo uma “Certinha” de maiô ao fundo, fazendo poses sensuais enquanto ele fazia seus comentários sarcásticos.

Stanislaw escreveu alguns episódios para a série de tevê “Alô, Doçura!”, com John Herbert e Eva Wilma, e participou do Jornal de Vanguarda (que estreou na TV Excelsior, depois foi para a Tupi e em 1965 estava na Globo), comentando as notícias lidas por Cid Moreira ou Luiz Jatobá, comentários que invariavelmente levavam todos no estúdio a dar risada. Depois teve seu próprio programa, o Stanislaw Ponte Preta Show, na TV Tupi.

É provável que seu peculiar senso de humor tenha sido herdado de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, cuja revista A Manha foi fechada pelo presidente-marechal Dutra em 1947 (fazer humor no Brasil sempre foi perigoso). Que frasista excepcional era o Barão: “O mundo é redondo, mas está ficando chato”, “O tambor faz barulho, mas é vazio por dentro”, “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”. Torelly tentou recomeçar com o Jornal do Povo, e foi lá que Sérgio Porto deu início a sua carreira, fazendo crítica de cinema.

Sua última peripécia foi o “semanário hepático-filosófico” A Carapuça, tablóide lançado em agosto de 1968. No título do editorial de primeira página, um cacófato proposital: “Fé de Ofício”. No rodapé, o pensamento da semana: “Se Pilatos usasse luvas não teria lavado as mãos”. Na seção “O bicho que está dando”, ele comentava opiniões alheias. Seu amigo Paulo Francis havia dito que um tal político, que conseguiu seis milhões de votos, não se elegeria nem vereador, e isso só Freud explicaria. Lalau: “Não é só isso, Francis. Qualquer espiroqueta entendido em democracia explica isso com a mesma facilidade com que o Ibrahim gagueja nas proparoxítonas”. O jornaleco morreu na quinta edição, em setembro, junto com Stanislaw, pouco antes do AI-5 dar o pontapé inicial nos anos de chumbo. Foi de infarto, o terceiro, aos 45 anos. Conta a lenda que morreu flertando com a enfermeira. “Tunica, eu tô apagando” foram suas últimas palavras.

O Pasquim, legítimo herdeiro de A Carapuça, foi para as bancas em junho de 1969. Seu primeiro número era dedicado à memória de Sérgio Porto, “o santo maior do nosso altar particular”. O resto, como se diz, é história...
Stanislaw Ponte Preta foi um inovador na imprensa brasileira. Sua prosa era cômica, concisa e popular, sem pedantismo ou empolação e sem concessões à mediocridade. Suas crônicas retratavam os hábitos e costumes de um Rio de Janeiro que não mais existe, de um tempo em que a favela ainda estava em processo de romantização, aquela demagogia do “barracão de zinco sem telhado, sem pintura, sinfonia de pardais anunciando o alvorecer”. Era um Rio mais carioca, gozador, “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”, como dizia a marchinha carnavalesca. Em sua breve vida, Lalau veio para nos divertir.