quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Por que os brasileiros gostam tanto de bunda de mulher?



Essa parece ser uma questão meio óbvia, mas o óbvio precisa ser dito: por que as bundas provocam tanto fascínio (para não dizer tesão) em nós, brasileiros?

Sabemos, por exemplo, que os americanos não se ligam tanto nas rechonchudas, arredondadas e proeminentes partes do corpo feminino.

Eles preferem os peitos. Grandes, de preferência. Uma das explicações é que a mulher americana não tem bunda. São planas, “flats”, na retaguarda. Assim, na ausência, prefere-se o que existe e está disponível.

Pode fazer sentido.


Já aqui no Brasil somos abundantes em bundas, sem intenção de trocadilhos.

Essa característica pode ser atribuída à miscigenação inigualável que tivemos com os africanos, normalmente bem dotados dessa qualidade única (e tão aproveitável). Azar dos americanos.

A bunda é atraente porque é graciosa, feminina e dá uma “quebra”, um suave desequilíbrio sensual à mulher.

Daí é que surge o rebolado, aquele movimento natural, despreocupado e altamente eletrizante que tanto nos enlouquece.

E como não enlouquecer?


Mas não só isso: bundas oferecem um contato físico insuperável por qualquer parte do corpo.

Sentir aquela massa uniforme, rígida e generosa em contato com o seu corpo é uma dádiva da natureza do sexo.

É uma questão de consistência e forma.

Por outro lado, nada é mais broxante do que uma bunda murcha.

Muitos homens se apaixonam por mulheres com doces e graciosas bundas e, ás vezes, só por isso.

Proliferam-se as Raimundas, feias de rosto e boas de bunda, satisfeitas por serem tão procuradas apesar de suas poucas qualidades a não ser essa.


E como evitar aquela conferida básica, fundamental, na franga que veio e agora vai, exibindo seus atributos posteriores.

Quem não confere a bunda da gostosa, levanta a mão.

Bundas são poemas sem palavras, arte sem cores e telas, música sem sons.

E, além de tudo tem esse nome, de poderosa sonoridade, evocando sonhos e ideias de noites profundas de prazer.

Bunda é a melhor coisa do mundo.


Afinal, quem é que não gosta de comer uma bunda fornida?

Vai me dizer que tem um tipo de homem, lá do Manchúria ou das ilhas da Polinésia, que não gosta tanto assim?

A bunda é a suprema manifestação da sexualidade.

Na sua forma perfeitamente arredondada e na sua projeção sútil e arrebitada estão guardados os melhores sonhos masculinos.

O prazer de possuir aquele pedaço de carne, em toda a sua plenitude, é o ponto mais alto do desejo masculino.

Não apenas de possuir.

De ver, admirar, observar e tocar.


Por que tanto assim?, me indaga a garota, ela mesma com caprichosos e suculentos glúteos. Ora, por que?...

A pergunta não é boa e a resposta não pode ser melhor. Porque sim.

Mas, por mais tivesse explicações inteligentes, a garota não mudaria o seu comportamento.

Sim, ela sabe que os homens enlouquecem com bundas em geral e, particularmente, a dela, já que a tem bela e bem dotada.

Por isso, todos os dias, sem exceção, a garota se veste pensando em valorizar seus mais valioso pertence.

A calça jeans dá formato arrebitado e consistente. Boa para situações diurnas, incluindo o trabalho.

A saia curta revela formas e inspira a imaginação. Boa para as baladas.

O shortinho promete surpresas e gestos ousados. Bom para os passeios no parque e na praça.


E assim a garota vai tecendo sua própria política do bumbum, como safadamente denomina e me revela.

Não, ela não está se oferecendo. Ela não precisa expor suas qualidades para ganhar adeptos.

Mas ela quer, sim, enlouquecer os homens, atiçar a imaginação dos incautos que observam aquele pedaço de pecado requebrar quando passa.

“Ela mexe com as cadeiras pra cá, ela mexe com as cadeiras pra lá. Ela mexe com o juízo do homem que vai trabalhar”, cantou Dorival Caymmi, explicando, com maestria essa questão.

Eu canto o trecho da música e a garota encerra o assunto, como se já tivesse revelado mais segredos do que deveria.

E se afasta, mantendo longamente, em meu campo de visão, aquele pequeno, harmonioso e delicioso pedaço de puro tesão.

Como não gostar de um diabo desse?!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Amor não é... (novas variações sobre o mesmo tema)




A série “Amar é…” foi criada nos anos 60 pela artista neozelandesa Kim Grove e atravessou várias décadas com seu humor refinado, sutil e, pra quem gosta do termo, simplesmente apaixonante!

O casal de jovens loucos de amor um pelo outro estavam sempre sem roupa, e em situações bastante divertidas.

Nos anos 70, as meninas colecionavam os cards da série para enfeitar seus relicários (alguém ainda se lembra desta peste?), que circulavam nas salas de aula em busca de depoimentos dos colegas de classe.


Nos anos 80, era fácil encontrar álbuns de figurinhas, livros, gibis, bottons, camisetas e tudo mais com as frases e desenhos da série.

A série tomou chá de sumiço nos anos 90, abatida em pleno voo pelos mangás e animes japoneses.

Há alguns anos, o jornalista e humorista Edson Aran, ex-diretor de redação da revista Playboy, resolveu tirar a série do armário com uma nova roupagem.

Invertendo a percepção de Kim Grove, Edson Aran passou a explicar o que o amor não é...

A estrutura das frases virou febre na internet e hoje há sites especializados na compilação das mesmas.

Escolhi algumas ao sabor do vento e estou transcrevendo abaixo.

Façam bom proveito.


O amor não é uma coisa que transborda do seu interior e que você não consegue segurar. O nome disso é incontinência urinária. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa profunda e difícil de ser alcançada. O nome disso é petróleo no Pré-Sal. O amor é outra é coisa.

O amor não é uma coisa que o atinge quando você menos espera. O nome disso é bala perdida. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que faz de você uma pessoa mais rica. O nome disso é dinheiro. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que coloca as coisas em perspectiva. O nome disso é esquadro. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa capaz de transformar você em outra pessoa. O nome disso é roupa de drag queen. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que muda o seu interior. O nome disso é comida contaminada com salmonela. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que faz você ver o mundo de forma mais nítida. O nome disso é óculos. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa difícil de se expressar. O nome disso é Xuxa no Twitter. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que você não pode perder porque nunca possuiu de fato. O nome disso é caminho de casa. O amor é outra coisa.

O amor não é uma chama que não se apaga. O nome disso é incêndio no cerrado. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa cinza que lançou uma luz sobre você, o levou para ver as estrelas e o trouxe de volta com algo dele dentro de você. O nome disso é alienígena. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que desapareceu e que, se encontrado, poderia mudar o que está diante de você. O nome disso é controle remoto. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que cai do céu quando você menos espera. O nome disso é avião. O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que o deixa em chamas e sem conseguir respirar. O nome disso é gripe suína. O amor é outra coisa.

O amor não é algo que pode ser esquecido na gaveta para ser usado em momentos de solidão. O nome disso é vibrador. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz teu coração palpitar. O nome disso é taquicardia. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você ver a vida com outros olhos. O nome disso é transplante de córnea. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que ilumina o seu caminho. O nome disso é poste. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te ajuda a segurar a barra. O nome disso é instrutor de academia. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz brotar uma energia dentro de você. O nome disso é hadouken. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te traz segurança para continuar vivendo. O nome disso é Serviço de Proteção à Testemunha. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz os olhos se atraírem como mágica. O nome disso é estrabismo. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você viver intensamente hoje como se não houvesse amanhã. O nome disso é réveillon. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que tenta juntar duas partes para sempre. O nome disso é cola Super Bonder. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te surpreende com declarações apaixonadas no meio da madrugada. O nome disso é embriaguez. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você sempre olhar pra pessoa amada como se fosse a primeira vez. O nome disso é amnésia crônica. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que deixa teu coração cheio de buraquinhos na frente dos outros. O nome disso é fuzilamento em praça pública. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você quebrar a cara de uma hora pra outra. O nome disso é falta de cinto de segurança. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que queima por dentro e depois te faz perder a razão. O nome disso é tequila. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que quando toma conta de você não dá mais pra disfarçar. O nome disso é gordura localizada. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você dar suspiros o tempo todo. O nome disso é Dia de São Cosme e Damião. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que torna inseparáveis as duas metades da laranja. O nome disso é faca cega. O amor é outra coisa.

O amor não é aquela coisa gostosinha que, sem mais nem menos, arrebenta de vez com o teu coração. O nome disso é torresmo. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que você define como um contentamento descontente. O nome disso é transtorno bipolar. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz de você uma pessoa melhor. O nome disso é clínica de reabilitação. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz de você uma nova pessoa, sem que os seus amigos saibam. O nome disso é falsidade ideológica. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que foi feito pra durar pra sempre, e, sem que você perceba, vai desaparecendo aos poucos. O nome disso é tatuagem de henna. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que a qualquer momento pode te matar de prazer. O nome disso é overdose. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz perder a cabeça, o controle das pernas e o próprio equilíbrio. O nome disso é labirintite aguda. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te enche de expectativas e no final só te deixa puto da vida. O nome disso é seleção brasileira. O amor é outra cosia.

O amor não é aquilo que te envolve completamente até te deixar simplesmente sem fôlego. O nome disso é cobra sucuri. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que deixa uma pessoa caidinha pela outra. O nome disso é combate no UFC. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que mexe contigo. O nome disso é peão de obra. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que dá sentido à tua vida. O nome disso é placa de trânsito. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que nasce quando os lábios se tocam pela primeira vez. O nome disso é herpes. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te prende por pouco tempo quando deveria ser pra sempre. O nome disso é justiça brasileira. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que um dia vai deixar o teu coração partido. O nome disso é cirurgia de ponte safena. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz olhar uma foto, cair em si e reconhecer o erro. O nome disso é multa de trânsito. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você enfrentar heroicamente caminhos longos e tortuosos. O nome disso é trio elétrico no carnaval baiano. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que apesar de te sugar faz você se sentir melhor. O nome disso é lipoaspiração. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você entrar de cabeça sem medo de machucar. O nome disso é vaselina. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que está sempre aberto para o que der e vier. O nome disso é defesa vascaína. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que por mais distante que esteja acerta o teu coração. O nome disso é macumba. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te devolve o sentido de respirar. O nome disso é Sorine. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo incrivelmente brega, mas que sempre te dá um certo conforto. O nome disso é sandália Rider. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que cresce loucamente sem que você perceba. O nome disso é juros do cheque especial. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te impressiona com loucuras em público. O nome disso é esquizofrenia. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz ver estrelinhas no teto e borboletas nas paredes. O nome disso é decoração de quarto infantil. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz arder em chamas diante da pessoa amada. O nome disso é combustão espontânea. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que deixa o teu peito mais seguro. O nome disso é sutiã. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te invade a alma e faz você cometer os maiores desatinos. O nome disso é encosto. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz brotar uma nova pessoa dentro de você. O nome disso é gravidez. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que bate à sua porta quando você menos espera. O nome disso é Testemunha de Jeová. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que invade o teu interior e te deixa completamente feliz. O nome disso é Prozac. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que o homem faz na cama e leva uma mulher à loucura. O nome disso é esquecer a toalha molhada. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te ensina a aprender com os erros. O nome disso é cartilha do MEC na gestão Fernando Haddad. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa saltitante e cada vez mais feliz. O nome disso é cama elástica. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz acreditar em falsas promessas. O nome disso é campanha eleitoral. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo muito pequeno pra quem vê de fora, mas muito grande quando visto por dentro. O nome disso é casa do Snoopy. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz você viajar por entre as nuvens. O nome disso é avião. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que vai diminuindo com os erros. O nome disso é borracha escolar. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que realiza todas as tuas fantasias. O nome disso é costureira de escola de samba. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que quando acaba te deixa na maior merda. O nome disso é papel higiênico. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que subitamente rouba teu coração. O nome disso é mercado negro de órgãos. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo de mais doloroso que alguém um dia pode sentir. O nome disso é bater o mindinho do pé na quina do móvel. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te lava a alma. O nome disso é sessão descarrego na IURD. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz estar junto na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. O nome disso é irmão siamês. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz esquecer tudo de uma hora para outra. O nome disso é amnésia aguda. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz perder a articulação das palavras de repente. O nome disso é AVC. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz sentir borboletas no estômago. O nome disso é fome tirana. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa completamente paralisado no meio da rua. O nome disso é engarrafamento no trânsito. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa molinho e manhoso. O nome disso é Rivotril. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo te deixa temporariamente cego. O nome disso é spray de pimenta. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa quente e depois te leva pra cama. O nome disso é dengue. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz olhar pro céu e ver tudo colorido. O nome disso é queima de fogos de artifício. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que subitamente te faz ficar simpático, carinhoso e amoroso. O nome disso é Dia de Natal. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te devolve a liberdade perdida. O nome disso é alvará de soltura. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa inteiramente à mercê da vontade alheia. O nome disso é Boa Noite, Cinderela. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz ver o mundo cor-de-rosa. O nome disso é viadagem. O amor é outra coisa.

O amor não é aquela coisa brega que te remexe todo. O nome disso é banda Calypso. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que tira completamente as suas defesas. O nome disso é HIV. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te pega desprevenido e te impulsiona para frente. O nome disso é topada. O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que faz o seu coração bater mais rápido. O nome disso é arritmia. O amor é outra coisa.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Recordando os famosos Reis do Ringue



O “Telecatch Montilla” era a versão brasileira das lutas-livres e foi um dos programas responsáveis por alavancar a audiência da TV Globo na década de 1960.

No programa, aproveitando a distração do juiz, o vilão batia covardemente no mocinho, e o público, com raiva, gritava e jogava sapatos e guarda-chuvas no ringue.

Na luta encenada, valia tudo: mordida, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça, limões espremidos nos olhos, supercílios cortados com gilete e até bater no juiz.

Quando tudo parecia perdido, o bonzinho recuperava as forças, aplicava uma série de tesouras voadoras no malvado e vencia a luta.


O programa foi originalmente criado na TV Excelsior e passou a ser exibido pela Globo em 1967. Era transmitido ao vivo do auditório da emissora, aos sábados, inicialmente às 20h. Dois anos depois, o programa passou a ser exibido na TV Tupi. Saiu do ar em 1972.

O principal personagem do programa era Mario Marino, um italiano que desembarcou em Buenos Aires aos 12 anos e veio para o Brasil com 24. De cabelos loiros e porte atlético, consagrou-se como Ted Boy Marino.

O galã loiro tinha muita popularidade entre as crianças e o público feminino. Ele conta que, na época, chegou a receber mais de duas mil cartas por semana e que precisava entrar com seguranças na TV Globo devido ao assédio dos fãs.

Mas os bons tempos foram interrompidos pela censura, que tirou a luta-livre do horário nobre e, depois, da programação. O espetáculo-marmelada fazia muito sucesso e ainda voltou em várias versões nas décadas de 1970 e 1980 em outras emissoras.


Ted Boy conta que para lutar era preciso habilidade e muito treino, para saber cair. Mas, apesar do seu know-how, ele se acidentou diversas vezes: quebrou joelho, tornozelo, braço, ombro e costelas.

Depois que o gênero saiu de moda, o lutador passou a se apresentar em clubes e teatros do interior. Participou também de programas humorísticos, como “Os Trapalhões” e a “Escolinha do Professor Raimundo”.

Os outros personagens conhecidos como os reis do ringue eram o traiçoeiro Mongol, o exótico Leopardo, o extraordinário Tigre Paraguaio, o misterioso Verdugo, o impagável Tony Videla, o irritante Rudy Pamias, o violento Rasputin Barba Vermelha, o campeão Caruso e os irmãos estilistas Beto e Sergio.


Na verdade, os lutadores eram divididos em três grupos. O primeiro era formado pelos galãs Tigre Paraguaio (foto) e Ted Boy Marino.

O segundo grupo era composto pelos lutadores Fantomas, Hércules, Aquiles e Bala de Prata, os mocinhos.

O terceiro grupo era formado pelos vilões Rasputin, Verdugo, Mongol, Barba Negra e Diabo Branco, todos muito gordos e bem feios.

As lutas colocavam frente a frente um “bonzinho” contra um “malvado”. Havia o “cruzamento de espadas”, golpe em que o lutador forçava o oponente no tablado encostando peito a peito. Se o lutador de baixo não se livrasse em três segundos, perdia o combate.


Havia também a “tesoura voadora”, o golpe em que se “voava” com os dois pés no peito do adversário, mandando-o para a lona.

E havia também o “soco-inglês” – uma peça metálica que se encaixa nos quatro dedos da mão, com exceção do polegar, para desferir golpes violentos no adversário.

Só os malvados usavam soco-inglês. Os bonzinhos apenas se defendiam. Os malvados batiam até “tirar sangue” dos bonzinhos.

Mas Ted Boy Marino, o galã, não colocaria a cara para bater até sangrar. É que a telinha não mostrava, mas o vilão pegava no corner saquinhos de plástico com groselha. Ele fechava a mão com o soco-inglês e quando desferia o golpe na cara do bonzinho, espremia a groselha que explodia “em sangue”.

No dia seguinte, o bom rapaz aparecia sem nenhuma cicatriz no rosto.


No ringue, os personagens se digladiavam sob as marcações de uma luta ensaiada. A encenação era marcada pelo tom caricatural e cômico dos golpes e dos estilos de seus protagonistas.

O programa chegou a despertar protestos de lutadores, empresários de boxe, jornalistas esportivos e pugilistas, que acreditavam que as lutas-livres ensaiadas da TV, com golpes combinados e o final previamente decidido, desmoralizavam o boxe brasileiro.

Em Manaus, os radialistas Arnaldo Santos e Luiz Saraiva criaram um programa semelhante, que era exibido na TV Ajuricaba.


O grupo dos mocinhos incluía Silva (foto), Argos, Demolidor, Ulisses, Gato, Aquiles, Viking, Targus, Falcão Dourado, Oder, Spartacus e Bala Ligeira.


Os malvados, capitaneados por Lobo Selvagem (foto), incluíam Cabeleira, Lotar, Tigre, Dom Kimura, El Tcholo, El Touro, Atlas, Múmia, Rasputin, Carrasco Cearense, Ramires Toledo, Killing, Linhares da Amazônia, Corisco e Mini-Maciste.

Na luta australina, uma das mais animadas, dois bonzinhos enfrentavam dois malvados, mas era comum outros malvados se juntarem à dupla inicial para detonar os bonzinhos.


Voadora de Argos no Carrasco Cearense enquanto Silva imobiliza Atlas

A briga entre Silva e Lobo Selvagem era considerada o grande clássico do gênero, o “Rio-Nal” do tele-ringue.

Silva fazia o galã boa praça que lutava limpo porque possuía uma excelente técnica. Era o favorito da mulherada.

Lobo Selvagem, que gostava de fazer caretas para intimidar os adversários, apelava para tudo quanto é golpe baixo. Era o favorito dos homens.

Em média, Silva vencia três de cada cinco lutas, enquanto Lobo Selvagem vencia as outras duas. Nenhuma luta entre eles dois terminava em empate.


Mestre em aikidô e proprietário de uma academia no centro da cidade, Alberto Silva conta que sempre foi amigo do hoje advogado José Carlos Sena Dantas, o famoso Lobo Selvagem, e que as lutas entre os dois eram previamente ensaiadas.

“Eu estava em alguma festa e o Lobo Selvagem aparecia na porta de uma hora pra outra. Tudo previamente combinado. A gente começava a discutir, era aquela confusão. Um jurava o outro de morte e lá mesmo já marcávamos um combate. Quando chegava na hora da luta não tinha mais onde colocar gente”, revelou Silva em entrevista ao jornalista Adan Garantizado, de A Crítica.

A idolatria dos torcedores também rendeu boas histórias.

“Nós estávamos lutando no Lago do Janauacá e eu parti o supercílio do Silva com uma cabeçada involuntária. Na mesma hora, um rapaz apareceu com um facão dizendo que ia me matar. Eu saí correndo, pulei em uma canoa e me mandei. A turma dos lutadores só foi me achar no outro dia”, relembrou Lobo Selvagem, com bom humor.


Segundo Arnaldo Santos, as lutas eram previamente ensaiadas por causa da censura que existia no país.

“Em 1972, o AI-5 ainda estava vigente e tudo tinha que ser examinado previamente pela Polícia Federal. Nós fazíamos um roteiro detalhado e entregávamos a eles, inclusive dizendo quem ia ganhar. Se acontecesse algo que não estivesse no script, o programa seria censurado e sairia do ar”, diz ele.

A primeira luta organizada por Arnaldo Santos e Luiz Saraiva aconteceu em um terreno baldio que ficava ao lado da televisão e foi um desastre.

“O povo se revoltou com o resultado da luta e jogou pedras, garrafas e pedaços de pau no ringue. O jeito foi levar para dentro do estúdio da TV, onde era mais seguro. Mesmo assim, lotava. Vez ou outra as lutas aconteciam em clubes como o Olímpico e até no Parque Amazonense”, recorda o radialista.

A audiência do programa era grande e se transformou em uma verdadeira febre.

Dezenas de academias de luta livre foram abertas na cidade.


Depois da TV Ajuricaba, onde permaneceu por dois anos, o programa “Tele-ringue” foi exibido nas tevês Baré, Educativa e Amazonas e os lutadores chegaram a fazer combate em cidades do interior e nos estados e países vizinhos.

Nessas lutas, eles enfrentavam os lutadores locais (se houvessem academias na cidade em que estavam se apresentando) ou lutavam entre si.


Atualmente proprietário de um restaurante na Feira Coberta do Japiim, o ex-lutador Ulisses recorda de um episódio ocorrido durante uma luta realizada em Porto Velho (RO), quando enfrentou seu compadre Lobo Selvagem.

Faltando cinco minutos para começar o combate, Lobo Selvagem foi subitamente acometido de um tremendo desarranjo intestinal. Ele correu para o sanitário e deixou a natureza seguir seu curso.

Ocorre que no referido sanitário não havia papel higiênico. Lobo Selvagem não deu a mínima e vestiu a sunga assim mesmo, sem ter limpado o brioco.

Assim que começou o combate, Lobo Selvagem derrubou Ulisses no chão e se sentou na cara do lutador.

– O cheiro de merda foi bater no meu pulmão! – diz Ulisses. “Eu tratei de bater rapidinho, antes que desmaiasse com aquela fedentina. O público desconfiou que era marmelada, tentou invadir o ringue e deu uma confusão dos diabos!”

Um dos lutadores mais marcantes do tele-ringue se chamava Demolidor.


O personagem vivido por Edgar Monteiro de Paula (o quarto da esquerda pra direita, em pé) surgiu a partir de uma ideia dos organizadores para ser a grande estrela do programa de tevê.

Faixa-preta em karatê e um dos melhores jogadores de vôlei da época, Edgar não era praticante de luta livre, mas acabou se transformando no lutador mais admirado pelos telespectadores. 

Lutando sempre mascarado, com uma roupa negra que cobria o corpo da cabeça aos pés, ele tinha o desafio de se manter “anônimo”.

As entrevistas na tevê eram limitadas a gestos e nenhuma palavra. Nem mesmo os outros lutadores sabiam quem era o misterioso lutador, já que Edgar também treinava fantasiado de Demolidor.

Algumas características como a luta em pé e a finalização com um golpe de karatê na cabeça do adversário contribuíram, ainda mais para a criação do mito.

Mas a fama também obrigou Edgar a fazer verdadeiros malabarismos para manter o disfarce.


“Eu tinha que me trocar dentro do carro. Uma vez o comandante geral da PM entrou no vestiário e queria que mostrassem quem era o Demolidor. Ele dizia que o personagem podia ser um foragido da Justiça, mas na verdade ele queria mesmo era descobrir o mistério. Outra vez a torcida do Rio Negro seguiu o carro onde eu ia pra tentar me desmascarar”, revelou. 

Em casa, só os irmãos sabiam que Edgar era o Demolidor (conta-se que Eduardo Monteiro de Paula, atualmente um festejado radialista esportivo da TV Amazonas, que também era faixa-preta de karatê, chegou a substituir o irmão em algumas lutas, mas Dudu nega veementemente).

“Meus pais desconfiavam. Os amigos dele começaram a suspeitar de que eu era o lutador mascarado. Uma vez, eles tentaram tirar a prova: tive que assistir a uma luta do Demolidor em casa, ao lado deles. Só que armei com o Silva, que tinha um porte físico parecido com o meu e ele foi o Demolidor naquela noite. Consegui me livrar”, diz Edgar, que, atualmente, vive com a esposa e filhos em Ciudad Bolivar, na Venezuela.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Apocalipse macho: o fim do homem-alfa cada vez mais perto!


Sean Connery antecipa a inominável sunga-colete de Borat em Zardoz

Ronaldo Bressane

Os boatos sobre a derrocada do homem-alfa têm sido apressados. Mas atenção: há inquietantes sinais de fumaça. É fato: o cromossomo Y, que determina o sexo masculino, está com os dias contados. As más notícias foram trazidas por cientistas australianos. “O cromossomo Y tem uma larga faixa de DNA, mas está cheio de ‘lixo’, e há apenas 45 genes nele. Não dá para comparar com o os 1345 genes do cromossomo X“, despreza a doutora Jenny Graves, da Universidade de Canberra.

Observando a fauna australiana – incluindo cangurus –, o laboratório australiano descobriu que a cada milhão de anos 7.8 genes Y são perdidos. “Há 166 milhões de anos, o cromossomo Y também tinha 1345 genes“, explica. Ou seja – o crepúsculo do macho está em pleno processo. Mas vocês não vão se livrar de nós tão cedo, garotas: “A essa velocidade, o cromossomo Y vai desaparecer em 6 milhões de anos“, sentencia a australiana.

Antes que eu jogasse pedra na doutora Jenny por seu catastrofismo, o bioquímico Franklin Rumjanek, da UFRJ, refletia: uma vez que o cromossomo Y se especializou em determinar o sexo masculino, se esse ajuste foi aprovado pela seleção natural o Y pode permanecer entre nós por muito tempo. “O que sabemos é que o cromossomo Y já não tem mais origem exclusiva das gônadas masculinas e, além disso, corre o risco de desaparecer“, diz Franklin, lembrando de um experimento da Universidade de Newcastle que criou espermatozóides humanos a partir de células-tronco originárias de um embrião feminino. “Essa bifurcação evolutiva pode significar o fim da hegemonia masculina. Mas também pode ser o arauto da extinção da espécie“, afirma o bioquímico.


Os sinais da derrocada macha se demonstram em estudos biológicos e também em narrativas contemporâneas – como a sensacional graphic novel Y: O Último Homem (Vertigo), de Brian Vaughn e Pia Guerra, que enquadra um mundo em que uma catástrofe exterminou todos os homens do planeta à exceção de um, o perseguido Yorick Brown.

Pobre Yorick: enquanto a macharia teima em largar a toalha molhada na cama, berrar palavrões na arquibancada e encerar o capô do carro, a trilha evolutiva desdenha e olha para o outro lado da rua. O deus-nos-acuda agora vem de um estudo comportamental publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society: mulheres de sociedades mais civilizadas se interessam por homens que não pareçam tão homens assim.

Usando o site faceresearch.org como base, Ben Jones e Lisa DeBruine, da Universidade Aberdeen, na Escócia, mostraram 20 pares de rostos masculinos a 4.800 mulheres de 20 países. No frigir dos ovos, o par de especialistas constata que “em ambientes onde doença e alta mortalidade infantil são altas, as mulheres preferem tipos mais masculinos. Nos EUA ou na Inglaterra, onde analisar planos de saúde é mais importante do que brigar contra uma infecção, homens efeminados são mais competitivos“.


Ainda suspeito se essa pesquisa funcionaria em países latinos como o Brasil – mas, a julgar pela nova tendência emogótica, as moças estão mais para Robert “alérgico a vaginas” Pattinson que para Clint Eastwood. É a evolução, estúpido!

A queda é tão iminente que, além do decantado metrossexual e do homem-fofoleto do estudo acima, a revista Slate reportou a tendência: o macho ômega. O herói-broxa é o pesadelo de consumo de mulheres que se desinteressaram tanto pelo ultracompetitivo alfa quanto pelo confortável beta e partiram para o fim da fila – a raspa do tacho, onde ainda sobrou alguma rebeldia recendendo a testosterona.


Seu símbolo é o Ben Stiller do filme Greenberg (inédito no Brasil). O quarentão Greenberg xaveca uma gracinha de 25 anos dizendo que, quando criança, sonhava ser astronauta; hoje, mal dirige. Desistiu de ser músico e agora abraça a causa de carpinteiro, mas nada sério: como diz aos amigos, “está fazendo nada por um tempo“. A Slate toma Greenberg como estereótipo do homem que, no começo dos anos 2000, sentiu o baque da recessão econômica e, confuso com as mudanças no comportamento feminino, reinventou-se num tipo charmosamente desajustado, loser. Segundo a ótima matéria da jornalista Jessica Grose, eis os subtipos ômega:

• Brejeiro. Bobo-alegre, quando habita os comerciais de cerveja, no caso de ser boa-pinta ou acreditar em seu ideal de solidariedade masculina selada por um tintim. Ou triste, quando percebe a roubada em que se meteu: gosta dos amigos, é leal à esposa e aos filhos, mas sente que a vida poderia ser muito melhor – caso tivesse a mínima idéia de como;

• Gameboy. Nerd que não toma uma atitude adulta na vida a não ser que, como em um game, seja obrigado. Se trabalha, é com videogames ou em sites pornôs;

• Inútil Paisagem. Veste-se bem, parece gay, mas não é: ao se contentar com a própria beleza, não carrega a menor expectativa em relação às mulheres. Narcisista que habita academias, clubes, bares descolês e espelhos – principalmente na hora do sexo;

• Gênio em Crise. Tipo o Caio Blat no recente filme Histórias de Amor Não Duram 90 Minutos, em que interpreta um escritor que não consegue escrever nem se decidir entre a mulher autosuficiente e uma perigosa peguete (que aliás está pegando a sua mulher);

O homem é a nova mulher


Pobres homens. Sua confusão é tão generalizada que existe até um Movimento Anti-Xoxotização do Homem Ocidental, MAXHO (o manifesto é de rolar de rir). O demônio do movimento é a mulher solteira chefe-de-família. É a principal responsável pela fixação dos homens contemporâneos em raspar os pêlos, cuidar da casa e doar seu esperma para bancos que fertilizam… mulheres solteiras chefes-de-família.

Reza o MAXHO: “Há poucos homens de verdade… um homem que pode trabalhar com seu próprio carro; que sabe dirigir e gosta de carros velozes; que sabe atirar, montar, desmontar e limpar sua própria arma; que sabe os princípios básicos da medicina; que sabe selar e montar um cavalo; que sabe ler e escrever em ao menos duas línguas; que conhece defesa pessoal; que se vira na matemática e na gramática; que sabe ler, discutir e escrever ensaios sobre política, filosofia e literatura; que se mantém em boa condição física; que se mantém na linha, é heterossexual, não mente, trapaceaia nem rouba; que sabe tratar uma mulher e cuidar de uma família“. Bom, eu sei controlar o nunchuk do meu Wii, mas isso talvez não baste aos simpatizantes do movimento.

O que faz de um homem um homem?

Segundo as pesquisas do Ibope, o homem brasileiro de 2010 “sente-se mais companheiro e presente na família; quando casado, realiza tarefas domésticas e faz compras; quando solteiro, mesmo financeiramente independente, não deixa a casa dos pais; preocupa-se com a aparência, a alimentação, usa produtos de beleza e já pensa em cirurgia plástica; é grande consumidor de mídia; quer fazer tudo de uma forma diferente“, determina Flavio Ferrari, CEO do Ibope.


O que faz de um homem um homem?

Uma dica do MAXHO, “que sabe como tratar uma mulher“, ou, como cantaria o Robertão, “Todo ama que sabe o que quer/ sabe dar/ e querer da mulher“, pode ser uma trilha para que cavalguem os novos pensadores da macheza contemporânea. A fim de manter uma saudável equidistância entre os escribas, necessária mesmo entre as quatro linhas destas elegantes páginas, escolhemos como normanmailers tupiniquins um carioca, um gaúcho e um cearense. É preciso solidariedade para com esses cabras machos que se debruçam sobre tão tenebroso tema.


Em recente crônica n’O Globo, o argentino-carioca João Paulo Cuenca aventa: “Que o homem é a nova mulher até o cinema norte-americano já descobriu“. O autor de O Único Final Feliz de uma História de Amor é um Acidente (Cia. das Letras) compara o priapismo de Porky’s, clássico cafajeste de 1982, com 500 Dias Com Ela, de 2009, “fita que leva o macho em crise ao paroxismo, com seu protagonista indie-genérico prometendo amor eterno entre choramingos e muxoxos“, e com Crepúsculo (2009), em que o herói “seduzido pela mocinha da fita passará pelo menos dois longa-metragens e meio evitando mordê-la ou levá-la para a cama“.

O “vampiro-fofo” de Cuenca nasce de uma demanda feminina, cristalizada no cinema e materializado no “galã-amélia, cozinheiro de mão cheia, companheiro para todas as horas, conselheiro para tardes de compras no shopping e futuro ex-namorado-melhor-amigo“. O viagra Van Helsing para esse draculette estaria embutido no appetite appeal de estrelas pornôs como Belladonna, em atrizes de cinema como Angelina Jolie ou musas do funk como Deise Tigrona. Para Cuenca, somente essas poderosas mulheres teriam a capacidade de mostrar de volta o caminho de casa aos novos Bogart, Peréio, Sinatra, Valadão – se é que eles existem (e se é que ainda existe o caminho de casa).


Por sua vez, o poeta gaúcho Carpinejar aposta na canalhice. Segundo aprendi na Caras, via Deonísio da Silva, canalha vem do italiano canaglia, da raça dos cães, radicado em cane, cão, mais sufixo depreciativo, designando o que é infame, vil. O aprendizado da macheza, para o poeta, estaria no retorno às origens como vira-latas, cão sem dono sempre disposto a fuçar no lixo, entrar no cio ou uivar para a lua.

Pistoleiro solitário, este espécime contemporâneo de canalha, “quando domesticado, acaba revelando que não era canalha… A canalhice é um excesso de imaginação. A saída é desejá-lo! O canalha procura uma mulher capaz de entendê-lo e que não tente ajustá-lo“, filosofa o poeta. Este novo canalha é um animal nascido na geração do divórcio, “de quem foi criado pela mãe e tem mais intimidade com o mundo feminino. Nunca vai ser um coitado: ri de si mesmo e tem capacidade camaleônica de se adaptar“, fecha o autor de, claro, Canalha (BertrandBrasil). Ele faz questão de distinguir o canalha do cafajeste e do pilantra. “O canalha não coleciona mulheres; realmente as ama. As mulheres se apaixonam porque se descobrem nele, se enxergam nele. Na verdade, a mulher se apaixona por si mesma…“, se safa Carpinejar.


A metáfora canina também é mordida pelo cearense Xico Sá em seu novo CHA-BA-DA-BA-DÁ – Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que Se Acha (Record). Mas aqui, como negativo: “Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais (aqueles que só usam roupas com encosto de brechó). Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa, uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras“, escreve Xico.

E aí, como registra este canalha lírico, são as mesmíssimas mulheres que pedem uma esmola do coração dos mesmíssimos homens. Ironicamente, os mesmos que, afirma o Movimento Anti-Xoxotização do Homem Ocidental, teriam sido corrompidos pelos desejos das mulheres modernas demais. Para ilustrar, o seguinte diálogo pescado por Xico entre duas moças espertas num bar de São Paulo:

“– Antes um bom canalha de ressaca do que um saudável bom moço perfumado com a boca sempre cheirando a antisséptico! – Guta vai mais longe ainda.

– Nesses tempos de homens frouxos, quando não se pede mais ninguém em namoro, a canalhice é o nosso parque de diversões! – Lu ataca novamente.”


O que faz de um homem um homem? Prefiro lembrar de uma imagem simples, criada por Cormac McCarthy em sua obra-prima A estrada (Alfaguara). Não que ele esteja exatamente respondendo à minha pergunta; McCarthy é um contador de histórias, e esta é sua narrativa mais seca, precisa e emocionante, portanto sua fábula mais poderosa no oco deixado pela sugestão de inquietações. No romance, que se passa um cenário pós-apocalíptico, um pai e um filho atravessam seu devastado país do norte gélido ao esperançoso sul. Um diálogo entre os dois (que remete também ao final de outro livro de McCarthy, Onde os Fracos Não Têm Vez):

“Nós vamos ficar bem, né, pai?

Sim. Vamos.

E nada de mau vai nos acontecer.

Isso mesmo.

Porque estamos carregando o fogo.

Sim, porque estamos carregando o fogo.”

O que faz de um homem um homem? Quando o bicho pegar, sempre vai ser necessário um homem que carregue o fogo. Para acender o cigarro da dama, para aquecer o rango de todos – ou simplesmente para tocar fogo no circo.


Era uma vez um homem

Bela – e necessária – tese sobre o espécime em extinção, escrita por Millôr Fernandes e publicada n’O Pif-Paf/O Cruzeiro em 1953, com a colaboração de Luís Lopes Coelho e Antonio Maria

Decálogo do Machão

1. Machão vai à caça, passa seis meses na floresta, quando volta a mulher telefona, ele diz: “Não”.

2. Machão não come mel, come abelha.

3. Machão, na hora da morte, não confessa: vai pro inferno logo.

4. Entre um sorvete de creme e um uísque, o machão não hesita: mistura.

5. Machão não tem automóvel: faz ligação direta no primeiro que encontra.

6. Machão não se deixa levar pelo destino: segue enredo próprio.

7. Machão jamais é encurralado no apartamento pelo marido inesperado: anda sempre de pára-quedas.

8. Machão não fuma, não bebe, não joga: usa maconha.

9. Machão não casa: cumpre pena.

10. Machão, ao ir pra cama, não se descalça. Trepa de chuteira e tudo.

O livro de cabeceira do verdadeiro macho


Para a molecas de hoje, fascinadas pela celebridade instantânea daquelas vagabundas siliconadas e imbecilizadas do Big Brother Brasil, o nome Maria Augusta Thurman Nielsen deve soar tão vazio quanto saber o nome do volante de contenção do fabuloso Peñarol, de Itacoatiara.

Tudo bem.

E se eu falar em Socila?

Sim, as molecas de hoje vão continuar boiando no assunto.

Pra quem ainda não associou a criadora à criatura, Socila eram as iniciais da Sociedade Civil pela Integração Literária e Artística, uma escola de modelos localizada no Rio de Janeiro, que tinha como sócias Maria Augusta Nielsen e Ligia Carrato.


A escola foi fundada em 1954, sendo que elegância e etiquetas eram os principais assuntos ali ensinados.

Quem quisesse ser chique e elegante bastava somente dizer “eu estudei na Socila” e o mundo inteiro desabava aos seus pés.

É claro que essas celebridades instantâneas do BBB não passariam no exame de admissão da Socila (e tenho sérias dúvidas se elas fariam sucesso numa sexta-feira à noite na boate Remulo’s...)

A Socila fechou as portas em meados dos anos 70.

Foi vencida pelo tsunami dos chamados novos-ricos, uma barbárie yuppie que se locupletou nas tetas da ditadura militar e transformou os bons modos, a cultura e a civilidade em artigos de quinta categoria.


A diva Maria Augusta Nielsen (aí na foto, ladeada por Vera Fischer, Miss Santa Catarina e Miss Brasil 1969, e Eliane Fialho Thompson, Miss Guanabara e Miss Brasil 1970.) bateu as botas em 2009, no Dia dos Finados, no Rio de Janeiro, vítima de parada cardíaca.

Sinônimo de glamour e elegância no seu tempo, Maria Augusta morreu cega e numa cadeira de rodas, abandonada pela família aos 86 anos de idade, num quartinho de Copacabana.

Ela foi casada durante cinco anos com o ator Jardel Filho, mas nunca teve filhos.

O certo é que desde que a Socila foi criada, manuais de etiqueta e elegância começaram a brotar por aí, como cogumelos em bosta de vaca depois de uma chuva torrencial.

Nenhum deles, no entanto, teve o impacto do best-seller “Na sala com Danuza”, lançado originalmente em 1992.


O livro passou meses na lista dos mais vendidos e a explicação era simples: ali não se encontravam regras dogmáticas, exageros, modismos.

O que Danuza apresentava era quase uma crônica da vida em sociedade: os pequenos gestos que melhoram nosso dia-a-dia, o detalhe que faltava para um jantar perfeito entre amigos, a gafe que podemos evitar.

Comentando o livro com o publicitário Sérgio Bastos, com quem eu fazia dupla de criação na G&F Comunicações, apontei os pontos fracos da obra: apesar de ter feito o cronista Antônio Maria se apaixonar perdidamente até morrer do coração, Danuza não falava porra nenhuma sobre sexo.

Ela não ensinava, por exemplo, o protocolo a ser seguido no caso de o macho querer experimentar o outro lado do disco da patroa.

Tampouco mostrava como o macho deve pedir para uma mulher cair de boca no bráulio sem que aquilo significasse o fim do mundo.

Não explicava claramente se, após o boquete, a mulher deveria cuspir, engolir ou gargarejar.

Muito menos dava dicas sobre como carcar uma mulher de bode sem emporcalhar o lençol da cama.


Paulo Higino, Luiz Alberto, Alberto Castelo Branco, Sergio Bastos e esse vosso escriba, durante um coquetel na Saga Publicidade. Essa careca, salvo engano, é do redator Bagaço.

Sergio Bastos sugeriu que eu escrevesse um livro sobre o assunto

Em outras palavras, o Manual do Canalha era um passo a frente na etiqueta sexual moderna e servia como complemento à importante obra da Danusa Leão.

O próprio Sergio Bastos diagramou o livro, bolou a capa, com ilustração em branco sobre um fundo vermelho, e fez a arte do convite, que era uma variação em P&B da própria capa.

O Manual do Canalha foi lançado na noite de uma sexta-feira, 3 de dezembro de 1993, no Bar do Armando, numa festa do arromba (sem duplo sentido).



Na realidade, o vivente comprava o livro na Livraria Brasileira, do saudoso Wagner Cristiano, e depois, se quisesse o meu autógrafo, levava no boteco do português, localizado ao lado da livraria.

O hoje consagrado publicitário e poeta Ricardo Cruz, que na época era assistente de direção de arte do Sergio Bastos, bolou a arte de uma camiseta exclusivamente para a ocasião, mandou fazer a aplicação em uma Hering branca e me deu de presente.

Escrita em letras garrafais, a frase “Eu sou foda!” era quase uma provocação machista.

O chapéu de palha da velha malandragem e os óculos estilo Waldick Soriano serviam para compor um cafajeste em potencial.


Os repórteres de televisão que foram cobrir o evento tiveram que cortar um dobrado pra presepada não aparecer na telinha durante os telejornais do horário nobre.


Colhendo as impressões da jornalista Rosângela Alanis

Usando um pau de miratinga como se fosse um microfone, comecei a entrevistar o mulherio sobre suas preferências sexuais na cama, fingindo que era pesquisa de campo para meu futuro livro, “Manual do Espada”, que seria lançado em 1998.


Colhendo as impressões da jornalista Lucia Cordeiro

A ala feminina do boteco criou um monte de cartazes de protestos bem-humorados e a fuzarca, animada pelo DJ Marcos Tubarão, ficou simplesmente fora de controle.


Uma zona federal, que estremeceu o centro da cidade!

Não lembro em que gráfica o Manual do Canalha foi rodado, mas a edição de mil exemplares esgotou-se em menos de três meses.

O título do livro me foi sugerido pelo livreiro e escritor anarquista Plinio Augusto, dono da editora Imaginário, depois que conversamos por telefone sobre o assunto.


O escritor Antônio Paulo Graça emprestou seu exemplar para o livreiro e ensaísta José Mário Pereira, dono da editora Topbooks, ele resolveu lançar uma nova edição, em 1996, e os 3 mil exemplares também se esgotaram em pouco tempo.

Com a morte do Paulinho, em 1998, eu praticamente parei de manter contato com o José Mário Pereira e continuei lançando meus livros apenas aqui na taba.


Aí, há dois anos, o Millor Fernandes voltou a elogiar o livro publicamente (na revista Veja, porra, na revista Veja, e não no jornal mimeografado do DCE da Faculdade de Enfermagem de Miracema do Norte...) e o José Mário Pereira fez uma segunda edição pela Topbooks, mais grossa, vibrante e encorpada.

O resto é história.


Ocorre que muita gente boa não conseguiu comprar o livro – principalmente meus amigos de Manacapuru, Parintins, Itacoatiara, Borba, Maués, Manicoré, Coari, Benjamin Constant e Tabatinga.

Para conter o avanço das milícias talibãs do povo GLBTS, que estão cada vez mais organizadas, eu resolvi disponibilizar o livro no formato PDF para que os últimos dinossauros masculinos que ainda gostam de mulheres possam reagir.

É isso aí, cachorrada!