quarta-feira, 7 de março de 2012

Alecsandro é o verdadeiro Palermo do futebol brasileiro


Ele comemora gols como um débil mental.

Ele perde gols como um débil mental.

Ele fica em impedimento como um débil mental.

Ele bate pênaltis como um débil mental.

Se não bastasse isso, ele tem um irmão gay especial, Richarlyson, jogador do Atlético Mineiro.

Esse é o retrato falado do atacante Alecsandro, que até agora vem sendo a grande arma secreta do Vasco da Gama para matar seus torcedores de raiva.

Nesta terça-feira, no jogo em que o Vasco da Gama ganhou de 3 a 2 do Alianza Lima, em São Januário, Alecsandro quase saiu consagrado: além de ficar de impedimento 14 vezes, ainda perdeu dois pênaltis.

“Eu queria me igualar ao meu grande ídolo Palermo, do Boca Juniors, que perdeu três pênaltis no jogo entre Argentina e Colômbia, pela Copa América de 1999”, explicou Alecsandro. “Fiz exatamente igual a ele. Meti o primeiro penâlti no travessão, o segundo na trave e quando me preparava para meter o terceiro na bandeirinha de escanteio apareceu o Juninho Pernambucano e acabou com a festa.”


Alecsandro não está nem aí para os protestos da torcida organizada Força Jovem do Vasco (FJV), que fez um abaixo-assinado com 270 mil assinaturas para que ele seja emprestado de graça para o FC Lokomotiv Astana, do Cazaquistão.

“Um gol perdido que nem aquele do Deivid é simplesmente uma obra de arte”, filosofa o atacante vascaíno. “Eu estou assistindo diariamente aquele gol perdido para fazer igualzinho em um jogo contra o Flamengo, mas por enquanto estou dando azar: como minha coordenação motora é muito ruim, a bola acaba batendo nas minhas pernas e entrando. De qualquer forma, como sou muito esforçado e dedicado nos treinamentos, tenho certeza de que um dia eu acerto, quer dizer, um dia eu perco um gol daqueles. A Força Jovem do Vasco também não perde por esperar!”

Agora é que são elas!


No nosso mundo tudo é oco (“oco do mundo”) e colorido, não tem lugar pra essa gente indecente, gente que já era: morcegos velhos, bang-bang de mentiras – vocês já eram, o nosso papo é alegria.

Pois é. Depois de dez anos de batalha, eis que colocamos nas bancas o primeiro jornal de humor da cidade.

Candiru, aquele que vai fundo, é penetrante e não provoca aids.

Se vai ser um jornal de oposição, não sabemos.

Sabemos que ele está meio surrealista, na linha Planeta Diário, Papa-Figão, Casseta Popular ou troncha que o valha.

O rei está nu, a corte está pelada e nós temos que levar a sério? Mas nem moooorta!

Viemos para bagunçar o coreto e as coincidências são meras semelhanças propositais.

Não se assustem com o tom ligeiramente depravado deste editorial: não pedi aos outros editores para participar desta inglória tarefa.

Ora, os últimos acontecimentos na cidade dão conta de que rir ainda é o melhor remédio: está de volta o mais puro caudilhismo, se tornando paradigma deste renascimento pombalino onde todos são déspotas, ninguém esclarecido.

Estamos assistindo a um gigantesco processo de emasculação e castração.

Poderosas brocas e esmeris estão lapidando todas as saliências de rebeldia, todas as calosidades individuais.

Valha a pena o arbítrio do mais forte.

A disciplina foi convertida num fóssil.

O modelo colarinho verde foi implantado como um padrão moral para os vivaldinos de esquina e os espertalhões de quina de guichê.


O Candiru veio para combater essas mazelas.

Nós ainda não somos um povo feliz, mas também não perdemos ainda a capacidade de rir.

Inclusive da nossa miséria, da megalomania dos governantes, da desfaçatez de alguns políticos.

E sabemos de antemão que os autoritários só ficarão mudos quando o povo cantar, sambar e rir pelas avenidas.

Impossível, pois, continuar falando destes cemitérios de arlequins.

No mausoléu de palhaços em que se converteu este Estado, o mais triste é vê-los sem poesia exibindo seus números com fúria e terror.

Que o Candiru consiga assustar esses zumbis, através da ironia, do sarcasmo e do humor.

Já será um bom começo.




(publicado na 2ª página do Candiru nº 1, em junho de 1986)

Aedes Aegypti já está em Manaus!


Vindo de uma temporada bem sucedida pelo sul do País, onde deixou de quatro, literalmente, todos aqueles que foram contaminados por sua alegre presença, encontra-se em Manaus para um turnê pela periferia o consagrado saxofonista africano Aedes Aegypti, conhecido como “o ferrão de ouro da Tanzânia”.

Ele não chega a ser tão revolucionário quanto seu confrade de métier, o clarinetista Anopheles, conhecido como “o agulhão de diamante da Namíbia”, responsável por introduzir o ritmo bebop (“batida de queixo”) na febre terçã que dizimou os trabalhadores da ferrovia Madeira Mamoré no início do século passado (e milhares de corpos estão lá enterrados em homenagem aos seus shows performáticos em plena selva amazônica),

De qualquer forma, o Aedes Aegypti traz na sua bagagem um feito nada desprezível: desmoralizou publicamente tanto o Ministro da Saúde (que afirmou várias vezes que ele já havia sido erradicado do páis) quanto a Sucam (que vendia o detefon comprado para a campanha contra a dengue para fazendeiros matarem saúvas).

O fabuloso Aedes Aegypti é acompanhado de perto por um batalhão de epidemiologistas ávidos de lhe destruir, mas seu modo sincopado e tenso de se reproduzir (águas paradas, poças de lama, pneus velhos, etc) faz a delícia da geração punk da periferia, da qual é um dos ídolos mais cultuados: seus fã costumam vomitar e permanecer em estado febril até uma semana após a performance do mesmo.

As primeiras apresentações do Aedes Aegypti estão sendo confirmadas nos mocambos da Compensa, Alvorada e Redenção, mas todos torcem pra que ele também dê uma esticadinha no gabinete do Secretário Estadual de Saúde pra ele saber o que é bom pra tosse. E pra diarreia, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares, dores nas juntas, prostração e vermelhidão no corpo.


(publicado na 2ª página do Candiru nº 1, em junho de 1986)

terça-feira, 6 de março de 2012

As rainhas esquecidas

Aldine Müller, Helena Ramos e Zaira Bueno

Nestor Tipa Junior, de Porto Alegre

O nosso cinema é lembrado, em parte, até hoje por um de seus gêneros que marcaram uma geração: a pornochanchada. Muitos dos artistas que hoje brilham na TV brasileira passaram por essa fase. Nomes como o de Vera Fischer, Sônia Braga e Lucélia Santos chegaram a fazer este tipo de filme. Muitas outras tiveram algum relativo sucesso ou nenhum depois que este estilo de cinema acabou.

Alguns críticos dizem que boa parte dos artistas da época não teve sucesso depois por uma falta de capacidade de articulação para conseguir bons papéis. Ocorre que muitos deles também decidiram encerrar a carreira depois da experiência. Abaixo, relembramos 10 musas da época que poucos talvez lembrem.


Aldine Müller
O que poucos sabem é que Aldine Müller chegou a ser rainha da Festa da Uva. Portuguesa, mas registrada em Bom Jesus, foi para São Paulo trabalhar como modelo. Um de seus filmes, A Boneca Cobiçada, foi o primeiro a ser liberado com cenas de sexo explícito. Fez trabalhos em minisséries e novelas pela televisão brasileira depois do fim das pornochanchadas. Aos 47 anos, chegou a fazer um ensaio para a revista Sexy.


Helena Ramos
Uma das rainhas da pornochanchada brasileira. Helena Ramos participou de mais de 20 produções nacionais, entre elas O Bem Dotado Homem de Itu e Mulher Objeto. Seu trabalho na TV foi curto, com apenas destaque para uma participação na novela Guerra dos Sexos.


Kate Lyra
A norte-americana Katherine Lee Riddell Caughey de Barbosa Lyra fez sua carreira na pornochanchada. Casada com o cantor e compositor Carlos Lyra, chegou a participar de programas humorísticos na TV brasileira, mas fez sucesso na companhia do diretor Walter Hugo Khoury em filmes como O Prisioneiro do Sexo, Convite ao Prazer e Eros, O Deus do Amor. Chegou a participar do filme Bossa Nova, em 2000.


Matilde Mastrangi
Iniciou a carreira como dançarina de Silvio Santos, mas foi marcada pelos seus filmes. Participou de filmes como Já Não se Faz Amor Como Antigamente, Amor Estranho Amor e As Cangaceiras Eróticas. Nos anos 80, chegou a participar da novela Vereda Tropical. É casada com o ator Oscar Magrini. O casal tem uma filha, Isabella.


Monique Lafond
Monique começou a carreira cedo. Além de fazer comerciais, fez peças de teatro como Música Divina Música, inspirado em A Noviça Rebelde. Manequim e modelo, também foi uma das musas de Walter Hugo Khoury. Participou de filmes como Giselle, Eros, O Deus do Amor e Eu. A diferença é que Monique participou de filmes como Eu Matei Lúcio Flávio, no qual ganhou o prêmio de melhor atriz e de filmes dos Trapalhões. Participou também de novelas nos anos 80. Hoje, a atriz dá aulas de teatro no bairro de Copacabana, na Oficina de Teatro na Idade da Sabedoria.


Nádia Lippi
Estreou criança ainda na TV brasileira, participando de novelas. Com o advento das pornochanchadas nos anos 70, participou de filmes como A Árvore dos Sexos e A Virgem. Nos anos 80 chegou a participar de filmes dos Trapalhões. Chegou a se retirar da carreira artística, mas participou de novelas na extinta Manchete e, mais recentemente, na Record. É mãe da Thalita Lippi, que participou do BBB8, e é dona de um salão de beleza em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro.


Nicole Puzzi
Um dos nomes mais expressivos do cinema brasileiro da época. Entre os destaques da filmografia de Nicole estão O Prisioneiro do Sexo, Retrato Falado de Uma Mulher Sem Pudor e Eu. Nos anos 80 e 90, participou de novelas da Globo como Perigosas Peruas, mas ficou marcada como a médica Luíza em Barriga de Aluguel. A atriz chegou a escrever livros de auto-ajuda como De Bem com a Vida e Inveja: Saiba Como Tratar e se Defender Desse Mal.


Sandra Barsotti
De peças infantis do teatro amador, Sandra atuou em vários filmes do gênero, a maioria não conhecidos do grande público. Os de maior destaques são Eu Transo, Ela Transa e O Marido Virgem. Participou da primeira versão de Roque Santeiro e também de Pecado Capital. Atualmente vive a personagem Yolanda, na novela da Globo Viver a Vida.


Sandra Bréa
Sex symbol dos anos 70, Sandra Bréa foi uma das atrizes de mais destaques mesmo na época das pornochanchadas. Além de atuar neste tipo de filme, atuava em novelas nos anos 70 e 80 e posou invariavelmente para revistas como Status e Playboy. Morreu em 2000 vítima de um câncer de pulmão. Era soropositiva e chegou a fazer campanhas contra discriminação aos portadores do vírus HIV. Uma vez declarou: "Não morrerei de Aids. Vou morrer como qualquer um, atropelada".


Zaira Bueno
A portoalegrense Zaira Bueno foi uma das principais atrizes da época. Atuou em filmes como A Noite dos Bacanais, Excitação Diabólica e Aqui, Tarados!. Zaira também se formou em balé, onde deu aula, e chegou a fazer peças de teatro.

Berlim é uma festa


Ivan Pé de Mesa, de Berlim

Da primeira vez que vim a Berlim, apesar de não ser Marco Maciel, passei o reveillon em cima do muro. Literalmente. Estávamos bebemorando o fim da divisão de uma das cidades mais interessantes do planeta. Divisão esta imposta pelos comunistas no ano da desgraça de 1961.

Esse reveillon da reunificação foi o de 89/90. E foi uma farra só. Champanhe da melhor procedência sorvido no gargalo. Oferecido por gentes as mais diversas. A lambada brasileira animando os foliões. O famigerado Muro sendo destroçado e seu reboco sendo carregado como souvenir por milhares de pessoas advindas de toda parte do globo.

Voltei alguns anos depois em outro momento importante da vida alemã. O dia primeiro do ano que marcou a morte do marco (não o Maciel, mas a moeda) e o nascimento do euro. A nova moeda européia, que já nasceu forte, batendo de cara com mister dólar. Transição tranqüila, apesar das sinistras previsões perpetradas por nossos economistas de plantão, capachos que são do Tio Sam. Capachismo, aliás, que os argentinos adotaram cegamente e fudeu no que deu.

Estou de volta agora, quando o euro está pela hora da morte e algumas economias europeias já estão pedindo penico. Depois dos gregos e islandeses, espanhóis e portugueses parecem ser a bola da vez. Abaixo, mais algumas impressões digitais da passagem desse seu criado por Berlim e outras cidades da terra de Marx, de Freud e do chucrute.


Berlim é uma cidade em obras. É construção por tudo quanto é canto. Pradonde você olha tem um guindaste, uma grua, um tapume atrapalhando sua visão. Principalmente na parte oriental. Os comunistas não deixaram pedra sobre pedra. Literalmente. Se reconstrói museus, estações de metrô, igrejas, monumentos. Menos o de Lênin, onde até uma placa que lembrava sua passagem pela universidade Humboldt foi arrancada pelos alunos, tal a mágoa que ficou pelo mal que os comunas fizeram à vida dos berlinenses.

Como eu dizia, Berlim é um grande canteiro de obras. E bota obras nisso. Depois das de construção civil as obras mais encontradas são as de cachorro. Estão em toda parte. Avenidas, ruelas e becos. As calçadas são povoadas por tijolaços expelidos pelos verdadeiros bezerros que os berlinenses criam como se fossem cãezinhos de pelúcia. Pastor alemão aqui é pequinês. E eles estão em todo canto. Supermercados, lojas, bares – que aqui chamam knaipes. Você vacilou, plaft!, tá com o pé atolado na bosta. Sai-te!


Na sexta-feira passada, fui fazer umas compras básicas em uma loja de produtos Lush, importados da Inglaterra, e as vendedoras me receberam só de avental, sem nada por baixo. Fiquei intrigado. Em um inglês macarrônico, uma delas me explicou que tratava-se de um protesto pelo excesso de embalagens nos produtos de beleza e higiene pessoal. Não entendi direito, mas uma delas ficou de passar no meu apartamento para explicar os detalhes do protesto. De preferência, sem avental, evidentemente. Depois eu conto os detalhes tão pequenos de nós dois. Ou de nós três, se aparecerem duas vendedoras.


Quem disse que alemão não brinca carnaval? Não chega a ser uma Olinda, mas em vários lugares há referência ao tríduo momesco e até realização de bailes e desfiles carnavalescos. O mais famoso é o carnaval de Colônia. Tive a sorte de conhecer a abertura da festa num espaço imenso, que funciona numa antiga cervejaria reformada para fins culturais - por falar nisso, quando a nossa Tacaruna sai do papel? Na realidade eram esquetes teatrais, tendo o carnaval como tema, mas com muita crítica política. E pesada! Não escaparam Bush, Tony Blair, Bin Laden. Até o Papa foi impiedosamente ridicularizado.


Mas o melhor tava por vir. Como adivinhando minha presença na platéia – pretensioso! -, os caras criticando o prefeito propunham um convênio com o Rio de Janeiro, numa tentativa de melhorar o carnaval de Colônia, já que nós temos mais know-how(sic). E a festa terminou apoteoticamente com uma escola de samba – pelo menos o que eles imaginavam ser – adentrando a platéia. E a bandeira da escola era uma espécie de fusão da brasileira com a de Colônia. Aí a zorra comeu no centro. De Aquarela do Brasil a Garota de Ipanema a orquestra muito da boa, por sinal – atacou de um tudo quanto é hit de nossa MPB. E tome os galegos a pular e a cantar, num final festivo do muito bem produzido e engraçadíssimo espetáculo que durou mais de quatro horas. E eu ali, orgulhoso, exclamando aos quatro ventos: "Ich bin Brasiliener!"


Por falar em carnaval, Berlim também dá suas tacadinhas. Não tão animado ou famoso como o de Colônia. Mas manifestações isoladas em alguns bares e clubes são freqüentes. Conheci um desses bares e tive algumas vivências surpreendentes. Vou passando na Gneisenaustrass, uma das ruas mais simpáticas de Berlim, e me deparo com um neon piscando: "Muvuca". Era uma construção antiga, como um mercado em semi-ruínas – coisas típicas de Berlim. Lá dentro funcionavam alguns estabelecimentos. E entre eles esse bar. Tudo que é bicho grilo tava lá. Pedi uma caipirinha de Pitú, que viraram – a Pitú e o drinque – moda porraqui. Em todos os supermercados você encontra a garrafinha de 500 ml pela bagatela de 25 reais, enquanto uma "caipira" fica na faixa de 15 paus.

Como demorava a sair, fui reclamar no balcão. Arrisquei o português: "Pô, faz meia hora – menti – que pedi uma caipirinha e até agora nada". De trás do balcão uma voz feminina responde, também em brasilianês: "Se avexe não, que tá quase pronta!". Daí em diante, só rolou Cartola, João Bosco e – em minha homenagem – Jackson do Pandeiro. Dá pra tu? A garçonete, uma carioca típica que atendia por Zezé, não saía mais de minha mesa e de vez em quando ainda descolava, como cortesia, uma caipirinha pra mim e pra Michel, um alemão porreta que me acompanhava noitada a dentro.


Pois no Muvuca estavam espalhados cartazes, folders e panfletos sobre um carnaval que acontecerá nos dias 18 de janeiro e 02 de fevereiro. Sabe como se chamava o bicho? "Carnaval Brasil Total 2011", com um subtítulo: "Live mit Boi da Caipora Doida". Agora, adivinhe meu orgulho ao ler , no rodapé, o letreiro: "Tribut to Chico Cience" (tava escrito sem o "s" inicial). Aí eu senti que estava em casa. Foi deitar e rolar, no bom sentido, até amanhecer o dia. É por essa e por outras que às vezes bate uma pontinha de orgulho em ser brasilianer. Pelo menos até o desembarque e o mergulhar de novo nesse mar de violência, roubalheira e impunidade, né não, José Sarney?


Ivan Pé de Mesa é o alter-ego mais conhecido do jornalista, caricaturista e humorista recifense Manoel Bione, editor do semanário Papa Figo

Frases de efeito para espantar um dragão


Digamos que você tomou um porre federal na casa de um amigo e acabou ficando com uma menina que só falta cuspir fogo. É claro que você estava de fogo. Fez juras de amor a ela, comeu ela de todo jeito, mas não sabia que a vagabunda era mais feia do que o cão chupando manga até o efeito do álcool passar.

E nem desconfiava que, depois de comida, a vagabunda iria passar o resto da vida pegando no seu pé. Como se você ficasse de porre todo dia, o dia inteiro, o resto da vida. Agora ela não pára de ligar e você tem que despistá-la.

De qualquer forma, como mãe é mãe, convença a sua mãe a atender ao telefone no seu lugar e dizer algumas frases de efeito. Vejamos quais são os encantamentos para assustar aquela mocréia que não desiste nunca:

Ele tá cagando... Se vai demorar?... Pelo tempo que está lá dentro e pelo cheiro que dá pra sentir, o negócio tá complicado!

Ele falou que não quer atender...

Ele falou que não está no momento!

Ah, é você? Ele saiu...

Ele está com uma garota no quarto!.. Há quanto tempo?... Ah, já faz dois dias... Acho que o negócio tá bom lá dentro, você não acha?...

Ele foi ao casamento... dele mesmo! Ué, você não foi convidada?...

Ele está em lua de mel no hotel Ariau Tower desde a semana passada...

Ele foi na casa de uma menina chata, burra, feia e enjoada tentar dar um pontapé na bunda dela... Oops, como você se chama mesmo?.. Ele já chegou aí?... Pede pra ele comprar um quilo de pão e um pacote de margarina na volta, pra mim...

Ele está aqui ao meu lado e disse que atenderia a todo mundo, menos você!

Quem tá falando?... Ah, foi engano...

Ele se alistou na Cruz Vermelha e viajou pra Chechênia! Ou terá sido pra Kosovo?...

Você de novo? Porra, guria, você não se manca?

Alô, quem está falando?... Tchau... Foi um prazer falar com você...

Ele está com medo... De quê?... De te ver de novo e ter um treco... O médico proibiu ele de ter emoções fortes quando ficar irritado...

O médico recomendou pra ele não beber... E pra te encarar ele tem que beber... Ou seja... no way, sem chance...

Ele está em coma, depois do susto que você deu nele ao aparecer aqui em casa sem avisar...

É você? Meu filho me mostrou sua foto... Nossa, estou impressionada! Por que você não procura um emprego para festas de dia das Bruxas, Circo dos Horrores, Casa mal-assombrada, Trem fantasma!? Eles pagam uma grana preta, sabia? Não é fácil encontrar aberrações como você...

Escuta, minha filha. Quanto você quer pra não ligar mais aqui pra casa?

Ele fez um exame de sangue, constatou que é soropositivo e está muito deprimido... Você tem certeza de que ainda quer falar com ele?

Ele ainda está dormindo... Há quanto tempo?... Faz umas 30 horas... Pelo jeito ele não vai mais acordar, não!

Meu garotinho está em estado de choque... Não atende ao telefone, não assiste mais TV, nem sair do quarto ele quer mais... O que você fez com ele, sua bruxa filha da puta, galinha rampeira, pistoleira vagabunda, meretriz leprosa, filha de uma piranha da beira do cais??? Vá foder pica, sua vaca louca!!!

Agora, se você não tem uma mãe (ou uma irmã) que seja capaz de fazer esses favores para você, boa sorte, pois, mais dias, menos dia, você será obrigado a falar com a vagabunda.

E, cá pra nós, meu chapa, você corre sérios riscos de não resistir e começar a rir. Ou a chorar de vergonha.

Tributo ao fiofó


Companheiro inseparável de todas as horas, o nosso fiofó tem sido ultrajado desde que o homem é homem e o boiola é boiola. Não há no mundo quem não esteja disposto a meter o pau nele a todo momento.

Por toda parte, querem cutucá-lo com vara curta e também, o que é pior, com vara longa. Ele é, acima de tudo, ou melhor, abaixo de tudo, um injustiçado. Pergunta-se: por que será que não o deixam em paz, por que é afinal que não tiram o olho dele?

Preconceito! Sim, certamente fazem tudo isso apenas porque o infeliz é escurinho. Ou será porque, de tão antigo, já está todo enrugado, cheio de estrias?

Talvez o repreendam porque é humilde, porque vive escondidinho, quase nunca aparece... Outros dizem que quando aparece é pra fazer merda. E há ainda os que alegam que ele só gosta de nos ver pelas costas...

Mas não é verdade! É certo que ele não é dos mais asseados, que não se depila com regularidade... Mas, quem já imaginou a nossa vida sem o fiofó?

Quem já se imaginou privado do prazer de sentar na privada enquanto lê o jornal?

Quem alegará em sã consciência que jamais se sentiu aliviado ao apertar a descarga, com a sensação de dever cumprido?

E mais: se não fosse o nosso querido fiofó seríamos como balões flutuando na atmosfera com a barriga cheia de pum!

Antes de criticá-lo, é preciso que se saiba que não há no universo quem nos conheça mais a fundo do que o nosso fiofó!

Que esse pequeno e obscuro amigo está conosco e não abre!

E, se abre, a culpa não é de todo sua, mas de seu dono.

Portanto, basta! Chega de desprezo e de calúnia! É hora de redimirmos aquele que está sempre por baixo e nunca reclama!

É tempo de render uma homenagem àquele furo fraterno que segura nossa barra, ou melhor, nosso barro nos momentos mais difíceis, quando não há um banheiro por perto!

Viva o fiofó, viva o operário mais reto de todos! Viva, viva esse obreiro incansável, que trabalha por um salário de merda! Viva o fiofó, nosso infatigável buraquinho, que está conosco, juntinho, há muitos e muitos ânus!