quinta-feira, 25 de junho de 2015

A vida secreta das irmãs Brontë (Charlotte, Emily e Anne)

Desde a mais tenra infância as irmãs Brontë levavam a sério suas ambições literárias. Quando a maioria das crianças chamava o quarto de brinquedos de “nosso quarto”, elas o chamavam de “nosso estúdio”. E realmente estudaram: as grandes obras da literatura inglesa, seu próprio comportamento e até mesmo o clima perverso das charnecas que o rodeavam. Tudo o que elas analisaram em um momento ou outro acabou fazendo parte dos poemas e romances que, um dia, as tornariam famosas.
A casa onde moravam era quase insuportavelmente feia e triste. Cercada em três lados por cemitérios, foi descrita por uma visitante como “um local lúgubre, muito lúgubre, pavimentado por sepulturas escurecidas pela chuva”. Charlotte, Emily e Anne adoravam o lugar. Esta deveria ter sido a primeira pista de que aquelas não eram simples e normais estudantes inglesas.
O pai delas, um pobre fazendeiro irlandês que se tornou pastor evangélico chamado Patrick Brunty, havia mudado o sobrenome da família em homenagem ao herói da marinha britânica Lord Nelson, também conhecido como Duque de Brontë. O trema na última vogal, ele acreditava, emprestaria um ar de distinção ao sobrenome. Para ser franco, o velho Brontë era meio “pancada” e começou a ficar ainda mais excêntrico depois da morte da esposa, em 1821. As seis crianças Brontë eram frequentemente deixadas por conta própria enquanto o papai se isolava no estúdio para ler e escrever seus sermões semanais.
A única tentativa para uma educação formal das crianças acabou em tragédia. As duas meninas mais velhas, Maria e Elizabeth, morreram de tuberculose depois de terem sido expostas às condições espantosamente insalubres do colégio interno da região. O devastado Sr. Brontë imediatamente convocou Charlotte e Emily de volta para casa. Lá elas permaneceram pelos seis anos seguintes, educando-se e divertindo-se com jogos e histórias improvisadas.
Em uma das suas mais intricadas e criativas colaborações, as três irmãs, mais o irmão Branwell, dividiram-se em grupos e criaram dois elaborados reinos de fantasia. O reino de Emily e Anne chamava-se Gondal e o de Charlotte e Branwell chamava-se Angria. Pela década seguinte, eles relataram as aventuras vividas pelos habitantes desses reinos imaginários, registrando-as em livros feitos de retalhos de papel e papelão de embalagens de açúcar.
O jogo ajudava a passar o tempo e fornecia um escape criativo, desde que a perspectiva de carreira para as garotas era mínima, a não ser que algum pretendente rico surgisse para lhes oferecer a mão em casamento.
Infelizmente nenhum pretendente apareceu, portanto as garotas se revezavam em lecionar em escolas, trabalhar como professoras particulares ou cuidar dos filhos de outras pessoas. Charlotte passou algum tempo em Bruxelas, onde se apaixonou por um homem casado, e Emily começou a escrever poesia secretamente. As três irmãs pensaram em abrir sua própria escola no casarão da família, porém falharam em atrair alunos para a sombria Haworth em meio às urzes.
Sempre a “líder da turma”, Charlotte teve a idéia de que cada uma delas deveria escrever um romance e tentar publicá-lo. Carlotte escreveu dois. O seu primeiro, The Professor, foi sumariamente rejeitado. Mas a sua segunda tentativa, Jane Eyre, uniu-se ao Morro dos Ventos Uivantes, de Emily, e ao Agnes Grey, de Anne, para encontrar o caminho até a impressora. Informadas pelo editor que não seria apropriado publicar um livro com um nome de mulher, as irmãs adotaram os pseudônimos Currer, Ellis e Acton Bell. Jane Eyre, particularmente, foi um sucesso imediato de crítica e de público.
Infelizmente, o que poderia ter sido um novo começo acabou sendo o início do fim. Branwell bebeu até morrer, em 1848, apenas dois meses depois da publicação dos romances das irmãs. Emily achou que a melhor maneira de lhe prestar uma homenagem seria comparecer ao seu funeral de pés descalços... durante uma tempestade dos diabos. Ela contraiu tuberculose. 
Numa excentricidade típica dos Brontë, Emily recusou qualquer tratamento médico, alimentos e até mesmo cuidados e afeto. Foi definhando e morreu menos de três meses depois. Na verdade, havia emagrecido tanto que seu caixão media somente setenta e seis centímetros de largura – o mais estreito que o agente funerário local já havia construído. Finalmente, numa sequência cruel, Anne foi contagiada pela tuberculose de Emily. Ela tentou ocultar a doença pelo tempo suficiente para tornar seus efeitos irreversíveis. Poucos meses depois, seguiu a irmã à sepultura.
Agora Charlotte estava completamente sozinha. Passava o tempo editando as obras das irmãs e, de vez em quando, criticando-as na imprensa – ela chamou o segundo romance de Anne, A Moradora de Widfell Hall, de “um erro” e o excluiu do cânone oficial da irmã. Escreveu também mais uns poucos romances e começou a se “enturmar” no cenário literário. Foi amiga de romancistas como Elizabeth Gaskell e William Makepeace Thackeray, entre outros. Mas raramente saía de casa e permaneceu cuidando do pai, então já velho e inválido.
Em 1854 ela se casou, contra a vontade do pai, porém a união teve vida breve. Charlotte ficou grávida e morreu antes de completar a gestação do bebê. As causas possíveis incluem tifo, tuberculose (a praga da família) e hyperemesis gravidarum (uma rara doença da gravidez caracterizada por vômitos intensos e persistentes). De acordo com a lenda local, uma misteriosa figura em trajes negros observou o funeral nas charnecas. Na época, muitos acreditaram que fosse Emily. Se realmente fosse, forneceria um final gótico bem adequado à saga da família Brontë.
A aparência não é tudo
Das três irmãs Brontë romancistas, Emily era inegavelmente a mais bonita. Com quase um metro e sessenta, era bem alta para uma mulher daquela época. Agraciada com um corpo famoso e rosto lindo, emitia um ar de mistério que os homens achavam intrigante. Sua irmã Anne também era muito atraente. Charlotte, por outro lado... bem, não foi tão abençoada. De baixa estatura e mais parecendo um passarinho, ela usava óculos para corrigir uma grave miopia e se considerava um tipo bastante comum. Outras opiniões, no entanto, foram mais cruéis. “Conheci a Srta. Brontë esta noite e devo dizer que ela deveria ser duas vezes mais bonita do que realmente é para ser considerada feia”, comentou um dos jovens que foi apresentado a ela numa festa. Para seu crédito, Charlotte canalizou toda e qualquer ansiedade que tivesse em relação à aparência aos seus romances. Modelou a sua maior criação literária, a desajeitada governanta Jane Eyre, em si mesma.
Uma janela para o mundo
Emily era a mais excêntrica das três irmãs, famosas por ficar parada na janela durante horas, olhando fixamente em silenciosa contemplação. Em que ela estaria pensando? Em acabamentos de janelas, ao que parece. Certa vez Charlotte e apanhou olhando pela janela e presumiu que a irmã estivesse observando as charnecas. Só então descobriu que as venezianas estavam fechadas. A sonhadora adolescente estivera parada durante seis horas observando as venezianas brancas da janela.
Coleção de rejeições
Charlotte Brontë levou algum tempo para aprender as “manhas” do jogo editorial. Seu primeiro romance, The Professor, foi rejeitado por várias editoras. A cada vez que o manuscrito era devolvido, ela o enviava à editora seguinte, sem remover a carta de recusa. Em pouco tempo o manuscrito estava circulando com uma coleção de cartas de rejeição empilhada por cima – o que não era exatamente um endosso favorável às suas habilidades de escritora. Não é de admirar que The Professor só tenha sido publicado postumamente.
Branwell, o Bronte esquecido
No início havia seis irmãos Brontë. Duas irmãs morreram na infância. Três se tornaram lendas literárias. E então havia Patrick Branwell. Sendo o quarto filho – e único menino – talvez ele tenha sido o mais talentoso. Um triplo prenúncio, Brawell destacava-se como poeta, pintor e como professor particular – embora sua propensão para “pular a cerca” com as mães dos seus pupilos o tenha deixado encrencado pelo menos uma vez. Seus poemas atraíram a atenção de Samuel Taylor Coleridge, e os retratos que pintou das irmãs são considerados definitivos em sua semelhança.
Obviamente Branwell poderia ter trilhado o mesmo caminho para a imortalidade. Infelizmente, suas outras franquezas incluíam o álcool e o láudano, um poderoso narcótico que era prescrito para quase tudo no século XIX. Despedido de uma série de empregos e perseguido pelo delirium tremens, antes do mesmo de completar trinta anos Branwell passou a ficar cada vez mais dissoluto e irracional. Contraiu tuberculose, a doença comum entre os Brontë (e entre os escritores em geral do século XIX) e morreu aos trinta e um anos. Dizem os rumores que ele morreu de pé, recostado na lareira, apenas para provar que isso poderia ser feito.
A você, Sra. Robinson
Anne Brontë era considerada a melhor governanta entre as três irmãs. (A sonhadora Emily não se adaptava a esse trabalho e a rígida Charlotte certa vez afirmou que cuidar de crianças era o mesmo que escravidão.) Sua especialidade era transformar crianças incorrigíveis em comportadas – um talento que lhe conquistou elogios de muitos pais e mães desesperados. Um casal, o reverendo Edmund e Lydia Robinson, ficou tão grato que lhe pediu para recomendar um tutor para o filho. Anne cometeu o erro de apresentar o seu irmão Branwell, dissoluto e viciado em drogas. Em pouco tempo ele embarcou em um caso amoroso e adúltero de dois anos e meio com a Sra. Robinson, que era dezessete anos mais velha do que ele. Ao descobrir a infidelidade, o enfurecido marido despediu Branwell e Anne, castigando-a por “ter trazido esta víbora para o seio de nossa família”.
Jane Err
Charlotte Brontë escreveu Jane Err usando um pseudônimo, mas nunca se esforçou realmente para ocultar a sua verdadeira identidade. Quando enviava um manuscrito para ser publicado, ela incluía uma nota avisando aos editores que: “no futuro, enviem a correspondência para o Sr. Currer Bell, pseudônimo da Sra. Brontë, Haworth, Bradford, Yorkshire, pois, do contrário, há um risco de as cartas não chegarem até mim no momento”. Ela também deixava de incluir a postagem, prometendo, em vez disso, enviar os selos mais tarde. Não é de surpreender que o romance tenha sido recusado por cinco editoras antes de, finalmente, ser aceita pela Smith, Elder and Co., de Londres. As primeiras resenhas foram pouco entusiasmadas. Os críticos descartaram “Currer Bell” como uma mulher “assexuada” que desejava “menosprezar os costumes estabelecidos pelos nossos ancestrais”. William Makepeace Thackray foi um dos poucos que a apoiou. A arrebatadora saga de Charlotte o emocionou tão profundamente que, segundo relatos, ele irrompeu em lágrimas diante do seu mordomo.

Licenciatura Plena em Politicagem


Por Fran Pacheco

Folheto em dialeto siciliano apreendido numa operação recente dos Federais
Tradução: Tommaso Buschetta (R.I.P.)

Manual do Candidato

A politicagem é a profissão do futuro. Em qualquer lugar do mundo, mesmo que o povo esteja mal, o político sempre estará bem. A cada ano proliferam novos municípios, novas sinecuras, novas cadeiras parlamentares. Os recursos extraídos do bolso popular são ilimitados e inesgotáveis, até que provem em contrário. Tal fato demanda pessoal habilitado para gerir com eficácia os 20, 30 e até 40% de comissão que esse patrimônio lhes reserva. Não é mais viável ser um autodidata – o que exige um gênio político muito elevado para escapar ileso de eventuais “perseguições” da mídia, do Fisco e da Justiça. O futuro da politicagem passa pela Formação Superior e é isso que nossa Instituição negocia.

Admissão

As vagas serão oferecidas pela modalidade licitatória do Leilão. Quem der mais, entra. Desempate pela extensão dos prontuários policiais dos concorrentes. Gatunos mais novos terão precedência sobre os mais idosos (melhor custo-benefício ao longo do tempo, pois a Instituição terá direito a royalties sobre todo o patrimônio e caixa-dois que os formandos amealharem). A palavra final, no entanto, fica a cargo do Magnífico Capo, que pode alterar qualquer regra ao bel-prazer, desde que “provocado”.

Recepção aos calouros

Cada “bicho” recém-chegado à Faculdade será escolhido por um “veterano” e se tornará apadrinhado político deste, jurando obediência eterna, mesmo quando estiverem rompidos. Por razões disciplinares e sanitárias, está proibida a desairosa sessão de trote, que obrigava os calouros a beijarem o “círculo íntimo” de seus godfathers em sessão solene.


1º Período

Prática Anti-Desportiva do Pôquer, Bacará e Dominó
Introdução ao Fisiologismo
Introdução ao Estudo das Brechas do Direito
Arrivismo e Cabotinismo Básicos
Artes Cênicas I para Plenário e Comícios
Psicologia Geral para Manipulação das Massas
Recesso Remunerado I .

2º Período

Prática Anti-Desportiva de Lavagem de Dinheiro pela Loteca
Cálculo Analítico e Diferencial de Propinas, Aditivos, Superfaturamentos e Divisão de Boladas
Artes Cênicas II para negar, negar e negar sempre
Antropologia do Voto de Cabresto
Gastronomia I para Deglutição de Sapos e Arroto de Elefantes (brancos)
Geometria Descritiva para Loteamento de Cargos entre Apadrinhados
Cinema Contemporâneo – “Trilogia dos Chefões”, “Golpe de Mestre”, “Agarra-me se Puderes”, “Vai Trabalhar, Vagabundo”, “Os Safados”
Recesso Remunerado II .

3º Período

Portunhol e Ingrês básico para negociatas e cassinos
Sociologia do Nepotismo
Semiologia da Camisa Suada como Fator de Ascensão Política
Noções de Agropecuária para Manejo de Currais Eleitorais e Cultivo de Laranjais
Gastronomia II para Fritura de Ministros, Secretários e Assessores.
Metodologia Organizacional de Dossiês contra Adversários e Aliados
Literatura I – “A Arte de Furtar”, “A Trapaça”, “Memórias de um Gigolô”, “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, “Fausto”, “O Príncipe”, “Meu Destino É Pecar” e “Mein Kampf”.


4º Período

Recesso integral para visita às bases com remuneração acrescida de 1/3

5º Período

Geografia dos Paraísos Fiscais
Marketing Político Goebbeliano de Guerrilha – Métodos de Sabotagem, Conspiracionismo e Denuncismo
Semiologia da Pasta Preta
Gastronomia III – Laboratório de Pizzaiolo
Prática Plenária I – Técnicas para Falta de Quórum e Consequente Necessidade de Sessões Extras com o Benefício de Jetons.
Etiqueta Política – Escolha dos tipos adequados de charutos, palacetes, cofres, celulares criptografados e boas-maneiras para achaques, concussões e outras transações heterodoxas.

6º Período (Final)

Antiética Comparada – Estudo dos Códigos de Honra Mafiosos e da Yakuza
Estágio em Redes de Corrupção Monitorado pela Interpol (os alunos que escaparem estarão aprovados. Os que escaparem e ainda forem elogiados por ex-diretores da Polícia Federal, estarão aprovados com louvor)
Monografia de Graduação (à venda na Secretaria).


Colação de Grau

Ocultismo ecumênico para fechamento de corpos e primeira mandinga contra desafetos. Em sessão secreta (e extremamente discreta) num castelo na Europa, tendo Mefistófeles como Paraninfo e o povo como Patrono, os graduandos terão o nº 171 tatuado no couro cabeludo, prestarão o juramento a Mammon e assinarão com sangue a nota promissória da própria alma.



Em breve um político profissional bem perto de você.

terça-feira, 23 de junho de 2015

De gargantas e bocetas


Por Fran Pacheco, na fila do gargarejo do Cine Guarany

Para início de conversa, ruborizadas senhorinhas, boceta vem do provençal boiseta e ainda conserva em Portugal e alhures o castiço significado de “caixinha” – mormente aquela que se usa para cheirar rapé. Mas ninguém aqui cogita de fungar o rapé da boceta de ninguém, embora o assunto em tela seja sacanagem – sem se recorrer ao humor fácil (ou de vida fácil?). 

Momento Caderno 2 

Foi a mitológica, arquetípica e criada do barro Pandora (“a mulher de todos os dons”), em tempos imemoriais, habitados por gregos, quem primeiro abriu sua caixinha de maldades, liberando todas as desgraças do mundo. Deu no que deu. A “Boceta de Pandora” tantas fez que caiu na boca do povo, na peça de Wedekind, na ópera de Berg e na tela do cinema, em diversas encarnações, sendo a de Pabst (estrelada por Louise Brooks e seu inesquecível channel) até hoje a versão standard no inconsciente coletivo cinéfilo.

Do cinema veio outro mito que paira sobre o cenário político atual: a “Garganta Profunda”. Como sabem as calejadas mãos dos scholars da ars pornographica, a angelical Garganta (encarnada pela desinibida Linda Lovelace no clássico de 1972), certa feita descobriu que tinha o clitóris no lugar da úvula (aquele pinguelo nas entrada da garganta). Nota pertinente: que fique estabelecido d’uma vez por todas que é clitóris e não clítoris. Independente do tamanho.

A descoberta da mutação marota fez com que La Lovelace colocasse a boca no mundo (ou todo mundo na boca, melhor dizendo), inspirando os jornalistas do NYT, Bob Redford e o pequeno Dustin Hofmann (vulgo Tootsie) a batizarem seu alcagüete de Garganta Profunda, no escândalo sexual conhecido como “Todos os Homens do Presidente”. (O absinto bateu. Faço as correções factuais outro dia.) 


Yes, nós temos Gargantas

Trazendo a mitologia greco-noviorquina para o lado de cá do Equador, fica evidente que o Bananão deve muito aos e às Gargantas. Seja o irmão aluado que num surto contou tudo sobre o presidente collorido; o motorista que expôs as misteriosas idas e vindas na Casa da Dinda; o alto funcionário tarado - preso por matar a esposa - que entregou os Anões do Orçamento; a mal-amada, que está em todas, ou o ex-genro que revelou as peripécias do Juiz Lalau, enfim, um panteão de tipos díspares, abarcando todo o espectro do (mau)caráter humano. A PF morou na filosofia e não por acaso batizou de Caixa de Pandora a operação que defenestrou o Arruda e sua careca do Palácio do Buriti.

O problema é que essa é uma profissão de risco e sem estímulo – exceto uns tapinhas nas costas, se o Garganta tiver sorte. Mais provável é ter a goela cortada. Dese jeito, que enlevo terão os futuros Gargantas, para filmar as miríades de negociatas ora em curso, com suas maravilhosas micro-câmeras? A bem do registro histórico, tudo deveria ser meticulosamente gravado, tanto por quem dá quanto por quem recebe – e que mais cedo ou mais tarde, na primeira "divergência política", uns divulguem as imagens contra os outros e se comam vivos.

Somente com muita bagagem um mero Garganta pode ser promovido a Pandora, com sua caixinha de maldades abarrotada de fitas VHS, cassetes de ligações grampeadas, memorandos comprometedores, comprovantes de transferências, depósitos e aberturas de contas no estrangeiro, e o filé-mignon, os robustos dossiês contra seus pares. Quanto maior a boceta, maior o estrago.

Será o smartphone do Brahma a nossa primeira Pandora eletrônica? Será que, quando sua garganta digital for totalmente decifrada, baixaremos mais fundo rumo à infâmia absoluta? Acho que já baixamos, ô bacana. Só não sabemos em que andar do subsolo fomos parar. Quem sabe descubramos quando numa dessas CPIs a Pandora abrir de vez a boceta.

***

P.S. Tanto Linda como Louise já deixaram o mundo fenomênico para trás. Sorte a minha. Com licença, que eu vou cheirar rapé.

Sexo, mentiras e tabuleiros



Por Stella Maris, do Centro de Treinamento Poliesportivo & Recreação do Puraquequara

Um fato nada olímpico ocupou as manchetes desportivas desta semana. A bombástica separação da supermodelo e astrônoma Svetlana Schuparova e do êneacampeão mundial de xadrez, categoria meio-médios, o brasileiro Vladimir Vladimirovich Vladimir.“Acabou”, decretou Schuparova, após 24 horas de vida conjugal.

Tudo começou na entrega do Prêmio Nobel-Davène - pela primeira vez realizada em Trancoso - quando Schuparova tornou-se a única intelectual do planeta a ser agraciada em duas categorias diferentes: “Simpatia” (sua desenvoltura ao não responder a pergunta sobre “teoria da gravitação quântica num cenário de hiperinflação argentina” cativou a todos) e “Lábios Mais Carnudos”, desbancado o ex-ator Wesley Snipes.

Vladimir compareceu à mesma cerimônia como atração de honra e disputou no octógono 112 partidas simultâneas com chefes de estado, sendo batido apenas por Fidel Castro (embora observadores internacionais afirmem ter visto Chico Buarque e Fernando Morais embaixo da mesa, bagunçando as peças de Vladimir nos intervalos).

Apesar do esgotamento neuronial, Vladimir e Schuparova trocaram olhares estrábicos e casaram-se na mesma noite em cerimônia comandada por Valter Mercado.Um estenógrafo foi chamado às pressas para redigir as 120 cláusulas do contrato pré-nupcial. Era mais um excitante lance na biografia de nosso campeão.

Garoto de origem humilde, Vladimir nasceu na isolada Capão do Muro Baixo, cidade com menor índice de PhDs do país. Muito cedo os pais o despacharam por carta registrada para Kamchatka, na Sibéria. “Aqui seu único futuro é ser beijado por político em campanha, meu filho”, disse o velho Vladão enquanto selava o envelope.

Após aclimatar-se, o pequeno Vladimir, apesar dos dentes cruzados, dos dedos tortos, dos 45 graus de hipermetropia, das bexigas, do lumbago, das doenças venéreas, do membro desproporcional e da incapacidade em assinar o próprio nome (só conseguia escrever a palavra “bongô”), logo mostrou aptidão para o esporte mais popular no mundo: o xadrez.

Suas aberturas desconcertantes, o gingado malandro dos peões, o genial drible do cavalo, o xeque-mate de folha-seca e o efusivo soco no ar após as vitórias logo e cativaram uma legião de fanáticos e violentos torcedores, os "Peões da Fiel". Grito de guerra: “Pensa, Vladimir! Pensa!”

Vladimir nunca jogava na retranca, jamais catimbava, nunca aparecia nos treinos. Partia pra cima da linha adversária fazendo o maior estrago. O bad-boy do tabuleiro se dava ao luxo de deixar todas as suas peças serem comidas pelo incauto oponente, para aplicar-lhe um acachapante cheque-mate só com o rei.

Sua partida mais rápida deu-se contra o então campeão mundial, o russo-camaronês Porris Luambala. Visivelmente nervoso (a camisa de força desalinhada, o babadouro todo manchado), o velho campeão observou atônito o esguio Vladimir, logo no primeiro movimento, pegar o peão, ameaçar colocar a peça numa casa, depois, noutra, de um lado para o outro, do outro para o um, e assim por alguns segundos de pura magia, até mover o peão para a frente – para delírio da torcida, que gritou o tempo todo “Olé! Olé!”. Tonto e abalado, Porris Luambala simulou um “compromisso urgente” e abandonou o páreo.

Vladimir esteve perto de ser derrotado de jeito uma única vez, no fim de 1999, pelo supercomputador Bucefálus 12.5. Na hora H, foi salvo pelo bug do milênio, que fez o sistema do oponente retroceder um século, reduzindo-o a uma máquina registradora.

Schuparova foi o 15º casamento relâmpago de Vladimir, cuja fortuna pessoal está no infravermelho, com uma muralha da China de advogados, profissionais da noite e bookmakers cobrando-lhe honorários. Desiludido e cansado de ser paparicado pelas pessoas por seu “cerebrozinho bonito”, o campeão decidiu repaginar o visual e acaba de se internar numa funilaria. Promete lançar um CD de breganejo, assim que terminar de treinar a dicção com as cabras de sua fazenda.

As lolitas querem conquistar o mundo



Por Cesário Camelo

Há pouco mais de cinco anos, um novo exército de lolitas começou a ganhar as ruas das principais cidades do planeta dispostas a lhe derreter o juízo. 

No primeiro momento, essas lolitas de carne e osso estão fazendo de tudo para ficarem parecidas com a boneca Barbie ou com as heroínas de mangás e animes japoneses, uma das sete pragas do Egito da Terra do Sol Nascente. 

Arrancam costelas, colocam silicone em todo canto, fazem cirurgias plásticas que até Deus duvida e ficam, supostamente, mortas de gostosas. 

No segundo momento, elas exibem suas transformações em locais públicos para, na primeira oportunidade, tacar em cima de você um processo por assédio sexual ou pedofilia. Não brinque com elas porque todo cuidado é pouco.


Se você ainda não leu, desligue essa droga de computador e corrra atrás: o livro “Lolita”, do escritor russo Vladimir Nabokov, é uma das obras mais polêmicas da literatura contemporânea universal. Muito arrojado para a moral vigente na época, o romance foi inicialmente recusado por várias editoras. 

Ao ser finalmente lançado, em 1955, por uma editora parisiense, gerou opiniões antagônicas: houve quem definisse o livro como um dos melhores do ano e houve quem o considerasse pornografia pura. Nos Estados Unidos, aonde só viria a ser publicado em 1958, rapidamente conquistou o topo das listas de mais vendidos.

Visto hoje, filtrado pelos anos e por uma verdadeira biblioteca de comentários e críticas, “Lolita” parece, sobretudo, uma apaixonada história de amor, escrita com elegante desespero. O protagonista é o obsessivo Humbert, professor de meia-idade. Da cadeia, à espera de um julgamento por homicídio, ele narra, num misto de confissão e memória, a irreprimível e desastrosa atração por Lolita, filha de 12 anos de sua senhoria.

Escrito num estilo inimitável, “Lolita” é uma obra-prima da literatura do século 20. Aqui se cruzam alguns dos temas clássicos da arte de todos os tempos (a paixão, a juventude, o amadurecimento) com questões mais típicas da nossa modernidade, como as ambivalências eróticas e o exílio – que é uma questão tanto de geografia quanto da linguagem e do coração. O romance “Lolita” virou um clássico da pedofilia consentida.


 Sim, eu sei que você já passou da idade de brincar de boneca, mas, com essa nova mania de as garotas quererem se parecer com bonecas, você vai querer voltar ao passado e relembrar as fugidinhas que a Barbie da sua irmã dava para se encontrar com seu Falcon dentro da caixa de sapatos. É por essas e outras que nenhum psicólogo de plantão consegue explicar porque a pedofilia saiu dos porões da igreja e virou moda de novo nesse novo milênio. Vamos dar algumas pistas:


A primeira boneca humana dessa nossa galeria é a americana Dakota Rose. Ela tem apenas 16 anos e, graças à sua aparência, ficou famosa no Japão e na China, onde é conhecida como Kota Koti.


 Dakota Rose diz que jamais fez cirurgia plástica para ficar parecida com uma boneca. Ela simplesmente nasceu desse jeito e só precisa de um pouco de maquiagem. Nem é muita, né?


A britânica Venus Angelic, ao contrário, é fascinada por maquiagem e, apesar dos 15 anos de idade, dá cursos no Youtube para quem quiser ficar parecida com ela usando apenas maquiagem.


A atriz e modelo Lily Cole começou sua carreira aos 14 anos depois que foi descoberta nas ruas de Londres, na Inglaterra. Quem foi atrás dela foi o ator Benjamin Hart, que achou que Cole tinha rosto de uma bonequinha de porcelana. Hart foi atrás dela com tamanha vontade que Cole saiu correndo achando que ele era um ladrão. Mesmo assim, ela foi contratada como modelo e, logo depois, começou a trabalhar como atriz.


Se você está achando que o rosto de Lily Cole não é estranho, é porque não é mesmo: você deve se lembrar dela por causa do filme “O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus”.

  
Lin Ke Tong é uma das modelos mais bem pagas da China e adivinha por quê?


Lin é conhecida como Garota Dragãozinho — você precisa levar em consideração que, na China, dragão não tem a mesma conotação pejorativa que tem por aqui — que é uma personagem feminina muito popular na China. Ano após ano, ela vem ganhando pesquisas do tipo “quem você acha que é a mulher mais bonita do mundo?”. Não importa o lugar: ela sempre ganha.


Alodia Gosiengfiao é considerada a Rainha dos Cosplayers das Filipinas, país onde nasceu. Ela começou cedo, aos 14 anos, e não parou mais: virou uma espécie de Mari Moon filipina.


Alodia está com 24 anos — fez aniversário no mês passado — e, depois de cansar de ganhar concursos de cosplay, ela continua frequentando, mas como jurada.


Alodia é considerada uma das mulheres mais influentes das Filipinas e sua irmã mais nova, Ashley, está trilhando o mesmo caminho.


Wang Jia Yun é chinesa, mas fez um baita de um sucesso da Coreia, onde foi apelidada de Chong Qi Wa Wa, que é o nome de uma boneca inflável coreana. Suas fotos foram divulgadas pela internet e, da noite para o dia, não se fala em outra coisa entre os coreanos.

  
O sucesso todo assustou a menina, que passou a postar fotos sem maquiagem, determinada a provar que era uma pessoa normal. Provavelmente, Wang Jia Yun só queria mostrar que era bonitinha, mas não esperava mexer tanto assim com o imaginário da rapaziada.


Esta chinesinha foi uma sensação há coisa de dois anos quando suas fotos apareceram na internet. Todo mundo queria saber quem ela era e porque ela se parecia tanto com uma boneca.


Charlotte Hothman entrou nessa de parecer boneca mais tarde que todas as outras. Colecionadora de Barbies, ela tinha 24 anos quando começou e, bem por isso, tinha dinheiro no bolso. Agora não tem tanto, uma vez que gastou cerca de R$ 30 mil em sua transformação.


Laura Vinicombe é outra britânica que cismou de virar Barbie e também passou por cirurgias para ficar com a cara e o corpo da boneca mais famosa do mundo.


Entre as barbies da vida real, essa aqui é uma espécie de unicórnio. É ela que todo mundo procura. A garota – que é russa – foi a única a conseguir ficar com o corpo perfeitamente parecido com o da Barbie.


A gente fecha essa galeria de barbies de carne e osso com essa russa e uma pergunta: quem é essa mulher? Se você falar que é uma das agentes secretas de segurança íntima do eterno presidente Vladimir Putin, você colou.

Agora, fala sério: ser ditador russo tem os seus encantos, né não?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A vida secreta de Charles Dickens

Um garoto resiste ao sofrimento de uma infância miserável e sem alegrias, trabalhando em uma fábrica lúgubre que exala o odor da acumulada futilidade da vida de todos os que ali estiveram antes dele. Isso soa como o preâmbulo de um dos romances de Charles Dickens – e é –, mas também poderia ser o primeiro parágrafo da sua própria biografia. Em certa época, a vida de Dickens foi tão “dickensoniana” quanto a de Oliver Twist. E então... bem, então ele ficou famosos e não precisou mais se preocupar em trabalhar em fábricas.
A usina de futilidades preferida de Dickens era a fábrica de graxa para botas de Warren, onde foi mandado para trabalhar depois que o seu pai, John, foi preso por causa de dívidas em 1824. A tarefa do jovem Charles era colar etiquetas nos frascos de graxa de sapatos, o que não parece tão ruim assim até que você imagine alguém fazendo isso durante dez a doze horas por dia, ganhando seis shillings por semana. Então se torna um verdadeiro inferno, que o faz desejar escrever sobre o sofrimento de pobres crianças trabalhando em fábricas pelo resto da vida, e foi exatamente isso que Dickens fez.
Ele ficou famosos com incrível facilidade. Publicado quando Dickens tinha apenas vinte e quatro anos, As Aventuras do Sr. Pickwick tornou-se um dos livros mais vendidos na história da literatura inglesa, lançando o seu jovem autor a uma celebridade mundial quase do dia para a noite. Longe estavam os dias de graxa de sapatos e prisões por dívidas. Agora Dickens vivia em um mundo onde as pessoas faziam filas para comprar os mais recentes fascículos das suas longas e serializadas novelas.
Em Nova York, seis mil pessoas se aglomeraram num cais do porto para guardar a chegada dos capítulos finais de The Old Curiosity Shop, em 1841. “A pequena Nell vai morrer?”, as pessoas gritavam aos marinheiros do navio que se aproximava, ansiosas para saber qual seria o destino da jovem e destemida heroína. (Sim, ela morre, lembrando o sarcasmo de Oscar Wilde quando afirmou que “É preciso ter um coração de pedra para ler sobre a morte da pequena Nell... sem rir”.)
Dickens foi o Stephen King da sua época – detestado pela crítica (e por esnobes espirituosos como Wilde), mas reverenciado por legiões de fãs apaixonados. “Não acreditamos na permanência da sua reputação”, o Saturday Review declarou em 1858. “Nossos filhos irão se perguntar o que poderíamos ter em mente ao alçar Dickens ao topo dos romancistas da sua época.” Vá dizer isso a Tolstói, Dostoiévski, Henry James e muitos outros que consideravam Dickens o melhor escritor inglês desde Shakespeare. Ou vá dizer aos seus associados nos negócios, que se beneficiaram enormemente da sua excepcional sagacidade em marketing.

A idéia de publicar romances em fascículos foi exclusivamente dele, bem como os vários esquemas de publicar e republicar suas obras em muitas e diferentes “edições especiais”, que acabaram transformando Dickens em um homem rico. Até mesmo o tamanho de seus romances redundou em benefícios financeiros. Dickens publicava seus livros em forma de folhetins e era pago por fascículo. Quanto maior o número de fascículos, mais coroas de ouro eram depositadas no bolso do astuto escritor.
Embora quase de maneira sobrenatural, seus romances e contos tenham permanecido consistentemente excelentes no decorrer de mais trinta anos, a verdade é que Dickens teve alguns altos e baixos. Em 1836 ele se casou com Catherine Hogarth, a respeitável filha de um editor de jornal, mas tinha um relacionamento estranhamente íntimo com as duas irmãs mais novas da esposa.
Quando Mary Hogarth morreu em 1837, aos dezessete anos, Dickens reagiu como se a própria esposa tivesse falecido. Ele cortou uma mecha dos cabelos de Mary e a guardava em um estojo especial. Retirou o anel do dedo da garota e usou-o em seu próprio dedo pelo resto da vida. Manteve consigo todas as roupas. Dickens até professou o desejo de ser enterrado no mesmo túmulo que a cunhada: ele seria assombrado por visões de seu fantasma durante anos. Ninguém sabe o que aconteceu entre eles, se é que alguma coisa aconteceu, mas Catherine e seus dez filhos não devem ter ficado felizes com tal situação.
Mais problemas os aguardavam. Dickens separou-se da esposa em 1858. Ele acabara de ser “fisgado” por Ellen Ternan, uma atriz de dezoito anos, vinte e sete anos mais nova do que ele. Dickens pagava todas as despesas dela e é provável que tenha tido um filho com ela, que o acompanhava em viagens usando nomes falsos para evitar o escândalo.
Quando retornavam da França, em 1865, o trem em que viajavam caiu de uma ponte entre Dover e Londres. Aterrorizado com a idéia de ser visto entre os destroços com a sua inamorata, Dickens fugiu da cena do acidente levando o manuscrito de Dombey and Son debaixo do braço. Ele jamais se recuperou completamente dos ferimentos sofridos no acidente, e o esforço físico exigido pelas muitas viagens para promover seus livros também começou a cobrar seu preço. Dickens sofreu um derrame e morreu no dia 9 de junho de 1870, exatamente cinco anos depois do acidente de trem. Foi sepultado – contra seus desejos – no Poet’s Corner da Abadia de Westminster.
Transtorno-obsessivo-compulsivo (TOC)
Bob Cratchit talvez tivesse de trabalhar em condições desoladoras e sufocantes, mas não o seu criador. Dickens era um “arrumador” compulsivo que se recusava a escrever em qualquer cômodo em que as mesas e cadeiras não estivessem organizadas da maneira certa. Ele possuía uma excepcional capacidade de se lembrar da exata localização de cada peça de mobília em qualquer cômodo que fosse, e poderia passar horas reorganizando tudo para se adequar aos seus caprichos. Quando era hóspede em uma residência, ou em algum hotel de luxo, sua primeira providência era arrumar tudo em seu quarto de acordo com o seu próprio plano interior.
Não é de surpreender que Dickens fosse também um maníaco por ordem. Ele escovava os escassos cabelos centenas de vezes por dia, e até mesmo extraía um pente do bolso durante um jantar, se pressentisse que um único fio tivesse saído do lugar. Quando amigos saíam de uma sala, ele invariavelmente arrumava a desordem que haviam deixado e ficava furioso se outras pessoas demonstrassem o menor sinal de desleixo.
Numa visita ao Capitólio, nos Estados Unidos, em 1842, ele ficou estarrecido com o comportamento desmazelado dos representantes eleitos da nação, especialmente com a incapacidade que demonstravam de acertar as cuspideiras com suas expectorações de tabaco mascado. “Eu recomendo firmemente a todos os estrangeiros que não olhem para o chão”, Dickens resmungou. “E, se por acaso derrubarem alguma coisa... não a apanhem de maneira alguma, a não ser que estejam usando luvas”.
Campos magnéticos
Ainda mais esquisitas que as manias por ordem de Dickens eram as suas superstições. Ele tocava tudo três vezes para dar sorte, considerava a sexta-feira o seu “dia de sorte” e sempre saía de Londres no dia em que o último fascículos dos seus romances era publicado. Porém, o mais curioso de tudo eram os seus hábitos para dormir – ele insistia em dormir com a cabeça virada para o Polo Norte. “Ele afirmava que não conseguiria dormir se a cabeça estivesse em qualquer outra posição”, um amigo revelou. Quando lhe pediam para explicar o motivo dessa preferência, Dickens respondia com uma bobagem qualquer sobre “as correntes terrestres de eletricidade positiva e negativa”. Ele acreditava a que o alinhamento dos campos magnéticos do planeta ajudava a promover a criatividade.
Hipnotize-me
Quando não estava extasiando os leitores com seus romances de oitocentas páginas, Dickens hipnotizada as pessoas com o Mesmerismo. Desenvolvido por um maluco alemão chamado Franz Anton Mesmer, o Mesmerismo era a “ciência” de utilizar os raios curativos do “magnetismo animal” para curar doenças. Foi a coqueluche do momento na Europa continental, na segunda metade do século XIX.
Na época de Dickens, a teoria já havia cruzado o Canal da Inglaterra, onde ele começou a aprender seus princípios por intermédio do respeitado médico britânico John Elliotson, um dos primeiros a adotar o estetoscópios e que, mais tarde, foi expulso da profissão médica por heresia hipnótica. Dickens ficou tão bem hipnotizado por essa pseudociência que passou a praticá-la por conta própria. Hipnotizava pessoas em festas, por diversão, ou ajudava amigos a superar pequenas enfermidades. Diz-se até mesmo que ele produziu um milagre.
Em 1844, pegou o caso de uma certa Madame de la Rue, que era afligida por ataques agudos de ansiedade que faziam seu rosto todo se contorcer. Após umas poucas semanas de tratamento, Dickens a deixou relaxada, dormindo profundamente e “funcionando” normalmente. Ele continuou com as sessões por algum tempo depois disso, tentando chegar à raiz da ansiedade da senhora por meio da interpretação de sonhos (outro hobby de Dickens).
E quando o seu amigo John Leech sofreu uma contusão, em 1849, ele usou o poder do Mesmerismo para curá-lo em apenas poucos dias. Ao que parece, a única doença que o Mesmerismo era incapaz de curar era aquela que mais afligia Dickens: a asma. Então, ele encontrou o alívio para isso à maneira antiga: ingerindo ópio.
Dê o fora, Hans
Hans Christian Andersen teve um contato direto com o lado mal-humorado de Dickens durante uma desastrada visita que fez á casa do romancista, em 1857. Os dois haviam se conhecido dez anos antes, quando um excitado Dickens irrompeu numa sessão de autógrafos do escritor de contos de fadas dinamarquês, em Londres, gritando: “Eu preciso ver Andersen!”. Logo os dois se tornaram amigos. Quando Andersen se preparava para retornar à Dinamarca, Dickens o presenteou com uma edição autografada das suas obras completas. Parecia uma amizade escrita nas estrelas.
Durante dez anos, Andersen acalentou o projeto de voltar para a Inglaterra e passar um tempo com o caro amigo. Quando o fez, contudo, encontrou uma pessoa muito diferente. Dickens se tornara um homem frio e amargo, à beira da separação da sua esposa e prestes a ir morar com a amante, Ellen Ternan. A visita de um excêntrico dinamarquês que mal conseguia falar inglês era a última coisa de que ele precisava. Porém, quando Andersen se convidou para uma estadia de duas semanas, Dickens não pôde recusar. A imposição deixou o já dispéptico romancista com um humor ainda mais desagradável. “Hans Christian Andersen talvez esteja conosco”, ele escreveu num convite a um amigo, “mas não se incomode com ele – principalmente porque ele não conhece qualquer outro idioma exceto o seu próprio dinamarquês, e suspeita-se que desconheça até mesmo este”.
Andersen soube que estava encrencado no momento e que chegou. Dickens simplesmente desaparecera, tendo saído ás pressas para Londres a fim de cuidar de um assunto particular. Deixou o hóspede aos cuidados dos seus irritantes e desrespeitosos filhos, que zombavam do dinamarquês pelas suas costas, se recusavam a atender as suas necessidades e falavam mal dos seus romances na frente dele. Até mesmo o pequeno Edward, de apenas cinco anos, participou da bagunça, ameaçando jogar os adorados filhos do escritor pela janela. Andersen foi reduzido a atirar-se no gramado, soluçando incontrolavelmente.
Eles podem tê-lo esgotado, mas nem assim Andersen foi embora. Cinco semanas depois ainda estava por lá. “Estamos sofrendo um bocado por causa de Andersen”, escreveu Dickens, que havia retornado e logo ansiava por se ver livre de seu velho “amigo”. Quando o indesejado hóspede finalmente partiu, a família Dickens ficou aliviada. “Ele era uma pessoa maçante e ficou por tempo demais”, a filha Kate observou. O próprio Charles deixou uma nota maldosa no quarto onde Andersen ficara: “Hans Andersen dormiu neste quarto durante cinco semanas”, dizia o bilhete, “que parecem séculos à nossa família”. Ele nunca mais foi convidado.
Penetra mórbido
“Sou impelido ao necrotério por forças invisíveis”, Dickens certa vez admitiu. Tratava-se do Necrotério de Paris, para ser exato, onde a exposição pública de cadáveres não-identificados ocorreu por todo o transcorrer do século XIX. Dickens tinha uma estranha fascinação pelo lugar. Era capaz de ir até por lá por dias seguidos, obcecado com os cadáveres de andarilhos afogados e outros infelizmente abandonados. Ele chamava de “atração pela repulsa” o sentimento que o invadia nesses momentos. Também era compelido a visitar as cenas de crimes famosos e a aprofundar-se nos detalhes de crimes sensacionalistas com uma curiosidade mórbida, digna de seu contemporâneo Edgar Allan Poe.
Espie na minha estante
Se você visitar a casa de Dickens em Gad’s Hill Place, em Kent, prepare-se para uma sessão de voyerismo. O travesseiro escritor tinha uma porta secreta instalada em seu estúdio. Destinada a parecer uma estante de livros, ela contém prateleiras falsas com as lombadas de livros fictícios cujos títulos foram criados pelo próprio Dickens – provavelmente numa tarde em que havia exagerado no conhaque. Certifique-se de conferir os três volumes do Five Minutes in China, os nove volumes do Cat’s Lives, bem como as preciosidades em trocadilhos, tais como Noah’s Arkitecture e The Gunpowder Magazine. O lado pervertido de Dickens é revelado por Wisdom of Our Ancestors, um conjunto de vários volumes que encobre fascículo sobre doenças e torturas, e também seu volume complementar, The Virtues of Our Ancestors, cuja lombada é tão estreita que o título foi impresso lateralmente.
Onde estou?
Onde está localizada a única estátua de Dickens de que se tem conhecimento? Por estranho que pareça, a resposta é: Filadélfia. Dickens detestava monumentos a tal ponto que, em seu testamento, proibiu que uma estátua sua fosse erigida. Assim mesmo, alguns dos seus admiradores lhe fizeram uma estátua. Quando a família de Dickens a rejeitou, eles encontraram um lar para ela no Clark Park na City of Brotherly Love. A escultura de bronze em tamanho natural retrata o autor brincando com Nell, a adorada heroína do romance The Old Curiosity Shop.
A conexão Dickens-Bonaduce
Dickens é o tata-tata-tataravô do ator Brian Foster, que fez o papel de Chris Partridge na série de televisão A Família Do-Ré-Mi, de 1971 a 1974.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A vida secreta de Edgard Allan Poe

Atualmente pode-se encontrar o rosto de Edgar Allan Poe reproduzindo em tudo, desde paredes de livrarias até garrafas de cervejas. Mas nem sempre foi assim. O mais famoso produto de exportação literário dos Estados Unidos morreu na miséria e amplamente antipatizado em seu próprio país. Coube aos franceses (que insistem em se referir a ele como “Edgar Poe” por razões desconhecidas) ressuscitar a sua reputação e elevá-lo ao status de ícone que ele desfruta hoje em dia. Obrigado, François. Podemos conversar sobre Jerry Lewis mais tarde.
Edgar Allan Poe foi o pai da ficção macabra, um escritor cujas histórias sinistras e poemas perturbadores pavimentaram o caminho para H. P. Lovecraft e Stephen King. Ele também tinha medo do escuro. “Acredito que os demônios se aproveitam da noite para enganar os incautos”, ele certa vez confessou a um amigo. “Embora, é claro”, apressou-se em acrescentar, “eu não acredite neles”. Talvez Poe simplesmente pressentisse que estava vivendo sob uma nuvem negra. E não se poderia culpá-lo por isso.
Órfão aos três anos, ele foi criado por um rico casal, John e Frances Allan, em Richmond, Virgínia. Criado, e não adotado, pois o arrogante John Allan recusava-se a permitir que o filho de atores de teatro corrompesse a pureza da sua árvore genealógica. Assim mesmo, Poe passou a usar o sobrenome do pai “adotivo” como seu nome do meio. Ele herdou também um pouco do pedantismo de John. Além de afeto, outra coisa que John Allan falhou em oferecer ao filho adotivo foi dinheiro. Na verdade, a penúria foi uma marca constante na breve vida de Poe.
Na Universidade de Virgínia ele acumulou dívidas de jogo para satisfazer suas necessidades, que na época incluíam copiosas quantidades de álcool. O padrão se repetiu quando Poe ingressou na Academia Militar em West Point, em 1830. Provando ser uma vergonha ao uniforme, ele passava a maior parte do tempo bebendo e planejando meios de ser expulso. Em janeiro de 1831 finalmente obteve sucesso. Desobedeceu a ordens diretas e deixou de comparecer aos treinamentos com frequência suficiente para ser acusado pela Corte Marcial por “Absoluta Negligência ao Dever”. Ele detém a duvidosa e dupla distinção de ter sido o único grande escritor norte-americano e ter frequentado West Point e o único a ser expulso.
Poe encaixa-se nos moldes do clássico beberrão fracassado. Um colega de universidade escreveu que “a paixão dele por bebidas fortes era tão característica e peculiar quanto a paixão pelas cartas... sem nem mesmo um gole para provar, ou um estalo de língua, ele agarrava um copo cheio e o virava num só gole”. Mas aquele único copo normalmente era o bastante para levá-lo a um coma alcoólico.
Parte do problema era, sem dúvida, a sua constituição frágil e a predisposição às doenças. Em West Point, Poe tinha a aparência tão frágil e envelhecida que os outros cadetes brincavam, dizendo que seu pai adotivo havia tomado o seu lugar. Com o tempo, John Allan acabou ficando tão farto dos hábitos dissolutos de Poe que o repudiou, prometendo mandar prendê-lo se ele algum dia aparecesse em sua propriedade.
Destituído de dinheiro e de família, Poe foi morar com uma tia, Maria Clemm, em Baltimore. Também começou a escrever contos para revistas. Em 1836, aos vinte e sete anos, casou-se com sua prima de treze anos, durante os quais foi repetidamente alertado sobre a impropriedade de se casar com uma garota tão nova. Juntos, eles se mudaram várias vezes – para Nova York, para Filadélfia e para Nova York novamente. Poe estava sempre um passo à frente dos seus credores e a um gole de distância da prisão por embriaguez. Então, justamente quando a sua carreira como escritor começou a progredir, sua esposa contraiu tuberculose e morreu.
A vida de Poe foi realmente um pesadelo e teve uma conclusão adequadamente onírica. Em uma parada em Baltimore durante uma viagem para Nova York, no final de setembro de 1849, ele desapareceu por cinco dias. Foi recolhido na rua, em frente a uma taverna irlandesa, semiconsciente e bêbado como um gambá, usando roupas maltrapilhas que claramente pertenciam a outra pessoa. Internado no Washington College Hospital, o delirante poeta passou os dois dias seguintes clamando por um misterioso homem chamado Reynolds e implorando ao médico atendente que explodisse o seu cérebro. Finalmente, gritando em seu leito “Senhor, socorra a minha pobre alma!”, ele emborcou para trás e morreu.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu durante aqueles cinco dias perdidos. As evidências sugerem que Poe talvez tenha sido sequestrado por uma gangue de capangas de políticos, que o embebedaram e o forçaram a falsificar votos nas urnas eleitorais da eleição para prefeito de Baltimore. A decorrente bebedeira pode ter exacerbado uma doença já existente, tal como sífilis, diabete ou talvez hidrofobia.
Qualquer que tenha sido a causa, sua morte foi extremamente desagradável – bem como a reputação que lhe foi imputada pelo seu primeiro biógrafo, um amargurado editor chamado Rufus Griwold, cujo trabalho Poe certa vez criticou duramente na imprensa. As “memórias” de Griswold, publicadas em 1850, descrevem maldosamente Poe como um degenerado, viciado em drogas que praticava sexo incestuoso com a própria tia. Foi um acerto de contas barato, repleto de falsidades, mas décadas se passaram antes que o “sistema” literário (com uma pequena ajuda dos franceses) finalmente aceitasse Poe no panteão dos grandes autores norte-americanos.
A soma de todos os medos
Não era de admirar que Poe tivesse medo do escuro. Ele foi educado em um cemitério – literalmente. Quando frequentou um internato na Inglaterra, sua classe ficava ao lado de um cemitério. Mesquinho demais para comprar livros didáticos, o professor dava aulas de matemática ao ar livre, em meio aos mortos que jaziam em seu sono eterno. Cada criança era instruída a escolher um túmulo e, depois, a descobrir a idade do falecido fazendo a subtração do ano do nascimento e o ano da morte. As aulas de ginástica também transcorriam nesse mesmo ambiente agradável. No primeiro dia de aula cada aluno recebia de presente uma pequena pá de madeira. Se um dos membros da paróquia morresse durante o semestre, as crianças eram enviadas para escavar a cova, praticando, dessa forma, revigorantes exercícios aeróbicos.
“Você entrou pelo cano”, disse o corvo
Poe tinha grande orgulho de O Corvo, chamando-o de “o mais grandioso poema jamais escrito”. (A modéstia não era um dos seus pontos fortes.) No entanto, ele ganhou quase nada com essa obra, graças, em parte, à sua ignorância das leis de direitos autorais. Ansioso por ver a sua criação impressa, ele a publicou num jornal, o New York Evening Mirror, sem saber que isso o eximiria de toda proteção dos direitos autorais. Qualquer pessoa poderia reproduzir o poema – e muitas o fizeram, com lucros consideráveis. Quando Poe finalmente conseguiu publicar a sua própria edição, o poema já tivera um circulação tão ampla que ninguém a comprou.
Dickens perde a mão
O famoso corvo de Poe, na verdade, foi inspirado pela ave de estimação do escritor britânico Charles Dickens. O pássaro tagarela de Dickens aparece como personagem em seu romance de mistério Barnaby Rudge, que Poe resenhou em 1841. Poe elogiou Dickens pelo uso do corvo falante, considerando que ele deveria ter desempenhado um papel mais importante na trama.
Quando Dickens e Poe se encontraram pela primeira e única vez, em 1842, o estimado pássaro havia morrido recentemente. (Ao que parece, ele havia bebido a tinta de um tinteiro que Dickens deixara aberto em sua mesa.) Dickens relatou o triste caso a Poe, que voltou para casa naquela noite e inseriu um agourento corvo falante no já existente poema chamado To Lenore, que ele havia abandonado. “Lenore” rimava perfeitamente com “Never more”, que se tornou o famoso mantra do sinistro pássaro negro.
Quanto os poetas atacam
Não há mais divertido do que uma briga entre poetas. O arquinemesis de Poe foi Henry Wadsworth Longfellow, o famoso autor de A Canção de Hiawatha e outros poemas. Por motivos ainda obscuros quase dois séculos depois, Poe foi de uma amável admiração a uma franca hostilidade em relação ao homem, à sua poesia e ao seu caráter. Em 1840 escreveu uma crítica contundente ao último poema de Longfellow, acusando-o de tê-lo plagiado de Alfred Lord Tennyson. Quando isso não provocou nenhuma reação, Poe afirmou que Longfellow havia roubado também um dos seus poemas. A chamada “Guerra Longfellow” estava declarada.
Infelizmente para Poe, tudo não passou de desperdício de munição. Ele nunca apresentou nenhuma prova de que Longfellow fosse plagiador e o poeta da Nova Inglaterra recusou-se serenamente a responder aos ataques ad hominem de seu colega mais jovem. Depois da morte de Poe, Longfellow tinha apenas elogios a lhe fazer, acrescentando: “Jamais atribuí a severidade das suas críticas a nada além da irritação de uma natureza sensível, acirrada por um indefinido senso de injustiça”. Ora, ora.
Acima, acima e avante
Poe não estava acima de um pequeno embuste jornalístico, principalmente quando o dinheiro andava curto. Em abril de 1844, um quase falido Poe vendeu uma reportagem ao New York Sun sobre a primeira travessia transatlântica de um balão em todo o mundo. “O grande problema finalmente está resolvido”, ele escreveu, triunfante. “O Ar, bem como a Terra e o Oceano, foi subjugado pela ciência e se tornará uma comum e conveniente estrada para a humanidade”.
O artigo de Poe, incrivelmente bem bolado, de cinco mil palavras, prosseguiu descrevendo em detalhes requintados o dirigível em questão, o seu operador (um balonista verdadeiro chamado Monk Mason) e a viagem em si. Havia um único problema: era tudo mentira. No dia seguinte, o Sun publicou um retratação: “A correspondência vinda do sul... não tendo trazido da Inglaterra a confirmação sobre o balão... estamos inclinados a acreditar que a informação é errônea”.
Enterrado de novo
A nuvem negra de má sorte que parecia perseguir Poe durante toda a sua vida continuou pairando mesmo depois da sua morte. A lápide encomendada para demarcar sua sepultura foi atropelada por um trem descarrilado. Como resultado, até que seu corpo fosse exumado e novamente enterrado em 1875, ele descansou sob um genérico marcador de sepultura que indicava apenas “Nº 80”.
Saúde, companheiro!
Qualquer um que tentar comercializar equipamentos de cozinha da marca Poe terá de ajustar conta com uma sombria figura conhecida como o “The Poe Toaster”. Todos os anos, desde 1949, esse estranho misterioso, usando uma capa preta, tem aparecido no túmulo de Poe na noite do aniversário do poeta. O fã de cemitério talvez se pareça mais com um personagem de um dos contos macabros de Poe, mas como os coveiros (e os numerosos acadêmicos que debatem o assunto) poderão dizer, ele é bem real.
O ritual é sempre o mesmo: ele faz um brinde ao falecido e depois deixa no túmulo meia garrafa de conhaque e três rosas vermelhas, como símbolos de admiração. Por que três rosas? Elas podem representar Poe, sua sogra e sua esposa, todos enterrados no mesmo jazigo. Por que conhaque? Ninguém sabe. Por que tudo isso? Em respeito a Poe e à solenidade dessa cerimônia anual, ninguém jamais tentou interceptar o estranho “brindador” para perguntar.
Todo mundo é um crítico
Poe parece dividir a comunidade literária. Existem aqueles, como os franceses, que o reverenciam como um deus. E há aquele que não o suportam, nem sua obra. Os mais notáveis detratores de Poe incluem T. S. Elliot, que o descreveu como tendo “o intelecto de uma pessoa altamente bem-dotada, antes da puberdade”, Mark Twain, que certa vez comentou: “Para mim, a prosa dele é ilegível – como a de Jane Austen” (um raro golpe atingindo dois pelo preço de um) e W.H Auden, que disparou o ataque mais pessoal, descartando Poe como “um tipo indigno de homem, cuja vida amorosa parece ter sido totalmente confinada a chorar em colos e a brincar de ratinho”.
Parente de Poe
O ator Edgar Allan Poe IV, descendente direto do mestre do macabro, conquistou uma boa milhagem em sua carreira graças à associação com seu tatara-tio-avô. O quarto Poe atuou no papel do primeiro Poe no filme chamado Monkeybone e, em 1999, em um episódio de Sabrina the teenage witch. Quando não estava imitando seu parente lendário, ele se especializou em retratar bandidos enlouquecidos e camelôs de feira em filmes como Sex Puppets e Oliver Twisted.
Preparado para um joguinho?
Em 1996, o futebol profissional retornou a Baltimore, depois de treze anos de ausência. Um concurso foi estabelecido para escolher o nome da nova franquia, em homenagem ao mais famoso residente da cidade. Ravens (“corvos”) venceu de goleada Marauders e Americans. Em agosto de 1998, após dois anos sem um mascote, o Baltimore Ravens revelou não apenas um, mas três mascotes. Numa elaborada e estranha cerimônia em campo, antes de um jogo contra os Eagles de Filadélfia, cada um dos “corvos” foi “descascado” de um ovo enorme. São eles, em ordem de “nascimento”: Edgar, “um corvo alto, forte e competitivo, com penas longas e flutuantes e olhos aguçados e espertos”, Alan, um pássaro “pequeno, magro e ágil”, e Poe, “o gorducho e preguiçoso, mas inegavelmente adorável”. Até agora nenhum dos três parece ter desenvolvido o devastador problema com a bebida, que foi a característica mais marcante de Poe.

A vida secreta de Honoré de Balzac

“Não sou profundo”, Honoré de Balzac certa vez comentou, “mas bastante largo”. Não fica bem claro se ele fazia uma irônica observação a respeito da sua própria aparência física ou sobre a amplitude intelectual do seu trabalho (ou ambos). Certamente Balzac estava entre os mais gordos grandes romancistas do mundo. Com um metro e sessenta e uma montanha de carne adiposa equilibrada sobre um par de pernas finas, ele era famoso pelo seu apetite gigantescos, pelos trajes excêntricos e comportamento vulgar.
Certa vez, quando jantava em um restaurante em Paris, segundo relatos da época, ele devorou uma dúzia de filés, um pato com nabos, um linguado-da-normandia, duas perdizes e mais de cem ostras. O encerramento constou de uma sobremesa de doze peras e uma variedade de doces, frutas e licores. Seus modos à mesa eram revoltantes. Ele comia direto da faca e espalhava pedaços de alimentos por toda a volta enquanto mastigava. É de admirar que muitas pessoas o considerassem um homem grosseiro, mal-educado e asqueroso? Nascido Honoré Balssa, ele mudou o sobrenome e acrescentou um “de” de aparência aristocrática para convencer as pessoas de que era um nobre.
Porém, o que quer que pensassem a respeito dos seus hábitos pessoais, ninguém deixaria de reconhecer que Balzac foi um dos maiores romancistas do mundo. Sua obra máxima de vários volumes, A Comédia Humana, foi o resultado de uma vida inteira de observações atentas às muitas camadas da sociedade francesa pós-napoleônica. Não foi, entretanto, o resultado da principal ambição da sua vida.
Inicialmente, Balzac imagina-se como um dramaturgo. Mas a sua peça sobre a vida de Oliver Cromwell teve quase tanto sucesso quanto Cromwell em relação ao povo inglês. Um professor universitário que leu a peça aconselhou a mãe de Balzac de que seu filho deveria seguir qualquer carreira, exceto a literatura.
Sem se deixar intimidar, Balzac persistiu. Experimentou a ficção popular, produzindo cinco romances em 1822. Os livros não eram grande coisa, tampouco os pseudônimos sob os quais ele os escrevia. Um deles, “Lord R’Hoone”, era apenas um fraco anagrama do seu primeiro nome. Ainda assim, há algo a se dizer acerca da persistência. Balzac logo estava escrevendo durante cerca de quinze horas por dia, vestido com um traje de monge e engolindo abundantes xícaras de café. (O único estimulante que Balzac não consumia era o tabaco, que considerava debilitante.) Ele reunia material para os seus romances participando de festas, nas quais uma única conversa entreouvida frequentemente serviria para completar a terra de mais um fascículo de A Comédia Humana.
Durante um período de vinte anos Balzac produziu noventa e sete obras, totalizando mais de onze mil páginas. Outras, eram simplesmente estranhas. Tome como exemplo o romance Seraphita, que trata de um anjo hermafrodita que inicia um jovem casal no misticismo em meio aos fiordes da Noruega. A vida pessoal de Balzac era um pouco menos estranha, embora quase tão picante. Tinha relacionamentos íntimos com centenas de mulheres, o que, considerado a sua aparência desprezível e a indiferença à higiene, não deixava de ser uma realização e tanto. E ele gastava todo dinheiro que ganhava.
Convencido do que deveria viver como um aristocrata, Balzac jamais conseguiu nivelar essa ilusão com os seus módicos rendimentos. Como resultado, estava sempre devendo. Já avançado em idade, envolveu-se com uma nobre polonesa que tinha rios de dinheiro – exatamente o tipo de protetora de que ele precisava. Porém, por mais encantada que estivesse com a genialidade dele, até mesmo ela se deu conta de que os hábitos perdulários de Balzac significariam um golpe mortal na sua solvência. Casaram-se alguns meses antes da morte dele, quando sua péssima saúde o transformou em objeto de piedade.
Retornando a Paris depois do casamento, Balzac descobriu que o seu mais antigo e fiel empregado havia enlouquecido durante a sua ausência. “Que presságio!”, lamentou-se. “Jamais sairei vivo desta casa”. E estava certo. Poucos meses depois o seu coração finalmente cedeu aos anos de excessos e dissipação. Até o fim, permaneceu imerso no mundo da sua ficção. Suas últimas palavras – “Mande chamar Bianchon... ele irá me salvar” – foram um apelo ao alter ego do seu médico de A Comédia Humana.
A degeneração do café
O que estimulava a prolífica produção literária de Balzac? Ora, a mesma coisa que ajuda milhões de norte-americanos a atravessar aquelas intermináveis reuniões das nove da manhã: o bom e antiquado java de alta octanagem. O tenso e agitado escritor francês ingeria mais de cinquenta xícaras de café turco, preto e forte, por dia. Numa era pré-Starbucks, esse nível de ingestão exigia uma verdadeira engenhosidade. Quando ele não conseguia obter a sua dose sob a forma líquida, simplesmente moía um punhado de grãos e atirava goela abaixo, num estilo Limbaugh.
“O café tem um grande poder em minha vida”, Balzac admitiu. “Já observei seus efeitos em escala épica.” E também sofria por esses efeitos. As elevadas quantidades de café forte lhe provocavam dores de estômago, contribuíram para a sua pressão alta e o deixaram com o coração aumentado. O envenenamento por café – sem mencionar o estilo de vida normalmente glutão – contribuiu para a sua morte precoce aos cinquenta e um anos.
Degustação às cegas
O café não era a única bebida de Balzac. Ele era também um connaisseur de chás refinados. Um dos seus favoritos chegava até ele por meio de um oficial do governo russo, que o recebia do czar, que, por sua vez, o conseguia pelo imperador da China. A exótica e cara bebida, cultivada pelo método de “cocleita imperial” e transportada em caravanas até a Rússia, era cercada de lendas. Dizia-se que causava cegueira em quem a bebesse. Não era de surpreender que Balzac a reservasse apenas para os amigos mais íntimos. Seu amigo de longa data, Laurent-Jan, degustou a infusão em inúmeras ocasiões, e a cada vez declarava: “Novamente corro o risco de perder a visão – mas, diabos, como vale a pena!”
Um caso de erro de identidade
Existe uma linha muito tênue separando a genialidade da loucura, como poderia atestar um dos companheiros de refeição de Balzac. O famoso naturalista e explorador prússio Friedrich von Humboldt certa vez pediu a um amigo psiquiatra que o apresentasse a um louco genuíno. O médico marcou um almoço com Humboldt, Balzac e um de seus pacientes. Como sempre, Balzac – que estava encontrado Humboldt pela primeira vez – apareceu todo desgrenhado, desarrumado, e ficou tagarelando durante toda a refeição. Conforme transcorria a conversa, Humboldt inclinou-se para o amigo e agradeceu por ele ter lhe apresentado um caso de loucura tão interessante. O psiquiatra teve uma reação de surpresa. “Mas o lunático é o outro”, informou a Humboldt. “O homem para quem você está olhando é Monsieur Honoré de Balzac!”
Haxixe ineficiente
Acompanhado pelo poeta Charles Baudelaire, Balzac experimentou haxixe sob a supervisão de um alienista. O cenário da experiência foi uma magnífica do século XVII com frente para o rio Sena. Mas o resultado não esteve à altura do ambiente sereno. Balzac ficou acabrunhado pelos efeitos da droga, que falhou em incitar as “vozes celestiais” em sua mente, pelas quais estivera esperando. Ele deixou a mansão sentindo-se ligeiramente desapontado pelo fato de que o haxixe não o deixara completamente enlouquecido.
O artista faminto
Embora buscasse o estilo de um nobre, Balzac já conhecera a pobreza. Durante seus anos de “vacas magras”, ele morou num casebre sem aquecimento nem móveis. Sem se deixar abater, o grande escritor providenciou a sua própria decoração de interiores utilizando o poder da imaginação. Ele simplesmente escreveu nas paredes nuas o que desejava estar vendo ali. Numa delas escreveu: “Painel de madeira pau-rosa com cômoda”. Em outra: “Tapeçaria Gobelin com espelho veneziano”. E, acima da lareira vazia: “Pintura de Rafael”.
O esquálido sótão em Paris onde Balzac morava ficava no último andar de um prédio, numa das áreas mais perigosas da cidade. Para um homem com seus apetites, tais condições devem ter sido particularmente árduas. Ele era tão pobre que a maior parte das suas refeições consistia de um pãozinho amanhecido embebido em um copo de água. Um livreiro de Paris certa vez rescindiu sua oferta por um romance de Balzac depois de ver o decrépito apartamento. Em outra ocasião, um ladrão tentou roubá-lo forçando a tranca da sua escrivaninha. Acordando de seu cochilo, Balzac limitou-se a rir. “Que chances você tem de encontrar dinheiro numa escrivaninha à noite”, ele disse, “quando o proprietário legal jamais consegue encontrar algum durante o dia!”.
Substância preciosa
E ainda se fala em retenção de líquidos... Balzac revelou aos amigos que, quando praticava sexo, ele preferia não ejacular, por medo de que isso pudesse esgotar a sua energia criativa. “Carícias e jogos amorosos estariam bem”, um confidente relatou, “mas somente até o ponto da ejaculação. Para ele o esperma significava a emissão da mais pura substância cerebral e portanto a ejaculação seria uma filtragem, uma perda através do membro, de um ato de criação artística em potencial”. Ou, como o próximo Balzac certa vez colocou, depois de atingir o clímax durante uma relação sexual com uma das suas muitas amantes: “Esta manhã eu perdi um romance!”