quarta-feira, 14 de março de 2012

Faz escuro mas eu canto, diz vereador João Torres


Depois de esperar por longos 35 anos para, finalmente, conseguir um mandato, o vereador João Torres arrancou o cabacinho da tribuna na semana passada, quando fez eu primeiro pronunciamento na Câmara.

O primeiro pronunciamento é como sutiã, nobre vereador Jorge Maia! – afirmou Torres, encarando o líder da sua bancada.

Como sutiã? Que é isso, nobre vereador, nos respeite! – exigiu o vereador machão Jorge Maia.

A gente nunca esquece! – completou João Torres, arrancando gargalhadas dos populares que estavam na galeria.

A estreia de João Torres na tribuna da Câmara aconteceu em grande estilo.

O vereador solicitou à mesa para falar apenas no Grande Expediente porque queria abordar um assunto muito sério.

O fato despertou a curiosidade da imprensa e da Mesa Diretora, que já andava preocupada com as participações de Torres nas discussões em plenário.
É sério mesmo, vereador? – quis saber o presidente Bosco Saraiva.
Homem... e eu vou esperar 35 anos para ocupar uma tribuna e falar besteira, vou? – irritou-se João Torres.
No horário combinado, o presidente da Mesa anunciou:
Com a palavra o vereador João Torres.

E lá se foi o vereador Torres, todo serelepe, fazer seu primeiro pronunciamento.

Arrumou o nó da gravata, prendeu os óculos na ponta do nariz, ajeitou o microfone a sua altura e arregaçou:

Desculpe, viu, senhor presidente, mas vou puxar aqui meu improviso de 15 laudas! – avisou o vereador, sacando do bolso uma pilha de papel.

Senhor presidente, senhores vereadores que compõem a mesa diretora, companheiros concursados da administração municipal, senhores estagiários e comissionados, dona Raimundinha do cafezinho, José Arlindo, meu motorista, Waldir Bofetão, meu segurança, povão da Cachoeirinha que está ali no canto, meu filho Junior – que se tivesse vindo de paletó tinha conseguido entrar no plenário – ilustres confrades da imprensa escrita, falada, televisionada e recortada com gilete, minhas senhoras, meus senhores, minhas crianças...

Excelência, vá logo ao assunto pelo amor de Deus, mano velho! – interrompeu o vereador Raimundo Furtado.

Calma, vereador, vossa excelência tenha paciência que eu também vou falar no nome de todos os colegas...

Não!!! Pelo amor de Deus, vereador, vá direto ao assunto – apelou o presidente Bosco Saraiva.
Tá bom, tá bom! – concordou João Torres, meio contrariado.
E continuou:
Amigos da situação, amigos da oposição e amigos indecisos que não têm mais nem partido... Viu como eu falei em todo mundo, nobre edil e companheiro de bancada Raimundo Furtado?
Ai, meu cacete, fala logo, homem, desembucha! – resmungou Raimundo Furtado, 1º Secretário da Mesa Diretora.

Torres continuou.
O que eu quero dizer é que a cidade não suporta mais os desmandos da Eletronorte. Ontem, por exemplo, só na minha casa, por três vezes a luz foi...

Neste exato momento, a Câmara Municipa inteira ficou na mais completa escuridão.

João Torres continuou o discurso, mesmo sem som no microfone:

Meus nobre colegas, queiram me desculpar, mas eu estou tão emocionado que a minha vista escureceu!

Emocionado uma ova, João! A Eletronorte acabou de cortar a luz da Câmara – avisou o vereador serafim Corrêa, tateando a mesa atrás de seus óculos.

Viu como eu sou um vereador que só fala a verdade! – avisou João Torres, tropeçando em uma cadeira.

A Eletronorte não quis se pronunciar a respeito.


(matéria publicada na página 7 do Candiru nº 2, em abril de 1995)

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